FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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O que fazer com essa tristeza que insiste em habitar os recantos mais profundos da minha alma? Há dias em que sinto um vazio tão imenso no peito que chega a doer. Uma dor silenciosa, sem rosto, sem nome definido. Um misto de angústia, decepção e desencanto que, por vezes, me torna alheio à própria realidade, como se eu estivesse presente apenas de corpo, enquanto minha alma vagueia por caminhos que nem mesmo conheço.

Há momentos em que o silêncio parece gritar mais alto que qualquer palavra. E, nesses momentos, pergunto a mim mesmo: até quando carregarei esse fardo invisível? Até quando permitirei que as sombras do ontem obscureçam a luz que ainda insiste em nascer no horizonte dos meus dias?

Foi em meio a essas inquietações que, lendo um texto do nobre Dr. Lucas Luiz Neville Gouthier, encontrei algo que há muito procurava: uma medida de conforto, um sopro de serenidade. Seu poema, “A Marcha do Destino”, trouxe-me uma reflexão que, de alguma maneira, conseguiu atravessar as muralhas da minha tristeza.

Compreendi que a vida se assemelha a uma locomotiva impetuosa, cuja marcha não se interrompe diante das nossas lágrimas, dos nossos medos ou das nossas desilusões. Ela segue, indiferente às estações em que desejamos permanecer e aos passageiros que, por razões que nem sempre compreendemos, desembarcam antes de nós.

E quantas vezes desejamos deter essa locomotiva! Voltar à estação de um abraço não dado, de uma palavra não pronunciada, de um amor que se perdeu nas curvas do tempo. Quantas vezes gostaríamos de refazer caminhos, corrigir escolhas, impedir partidas...

Mas o destino não conhece marcha à ré.

Foi então que percebi algo que, embora estivesse diante dos meus olhos, minha tristeza não me permitia enxergar: existe uma força dentro de mim. Uma força que talvez tenha permanecido adormecida sob os escombros das minhas próprias decepções, mas que jamais deixou de existir.

Talvez a verdadeira coragem não esteja em desafiar o destino, tampouco em fingir que a dor não existe. Talvez esteja simplesmente em aceitar que algumas feridas precisam de tempo para cicatrizar, que determinadas ausências jamais serão preenchidas e que nem todas as perguntas encontrarão respostas.

A vida, afinal, não nos promete uma viagem tranquila. Há túneis escuros, curvas perigosas, estações desertas e despedidas que nos dilaceram a alma. Entretanto, há também paisagens que ainda não contemplamos, encontros que sequer imaginamos e amanheceres que aguardam pacientemente a nossa chegada.

E por que haveria eu de permitir que as tristezas de ontem me roubassem as possibilidades do amanhã?

Não! Não quero ser apenas um passageiro resignado, contemplando pela janela os destroços dos meus sonhos. Quero reencontrar em mim a coragem de prosseguir, mesmo quando os trilhos parecerem desaparecer na imensidão da incerteza.

Não pretendo negar minhas dores. Elas fazem parte da minha história. São cicatrizes de batalhas que, de alguma maneira, consegui sobreviver. Mas também não desejo transformá-las em correntes que me impeçam de caminhar.

Hoje compreendo que nem sempre podemos escolher os acontecimentos que atravessam nossa existência. Contudo, podemos escolher o significado que lhes damos e a maneira como permitimos que nos transformem.

Talvez a felicidade não esteja na ausência da tristeza, mas na capacidade de continuar vivendo apesar dela.

E, enquanto a locomotiva da vida prossegue sua marcha inexorável, quero aprender a olhar menos para as estações que ficaram para trás e mais para o horizonte que se descortina à minha frente.

Porque, se o destino não me permite regressar ao ontem, a vida ainda me oferece a extraordinária possibilidade de existir no agora.

E isso, por si só, já é uma razão para continuar.

Afinal, enquanto houver vida, haverá caminhos. E enquanto houver caminhos, haverá esperança.

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 19/10/2026
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