— Niele! Tem certeza de que foi isso mesmo que você ouviu?
— Foi exatamente o que ouvi. Não sei se era o nome verdadeiro. Eles disseram alguma coisa sobre uma “escritorazinha Niele”. Depois, um deles comentou: “Parece que não sabe de nada relevante... É só um advogado de merda, se metendo onde não devia.”
Sarah não respondeu imediatamente.
Aquela frase parecia ter despertado alguma coisa em sua memória.
— Você tem certeza de que disseram “Niele”?
— Tenho. O nome ficou na minha cabeça.
Sarah se levantou.
— Espere aqui.
— Onde você vai?
— Vou até a sacada. A ligação parece não estar completando aqui. O sinal está fraco.
Ela caminhou até a sacada, afastou o celular do ouvido e procurou um ponto onde o sinal parecesse mais forte. Antes de apertar o botão de chamada, voltou-se para Edson.
— Se essa mulher realmente estiver ligada ao que está acontecendo, talvez ela saiba por que aqueles homens estavam falando de você.
— E se ela não souber?
Sarah finalmente ouviu o celular chamar.
— Então vamos descobrir quem ela é.
A chamada demorou alguns segundos para ser atendida.
— Alô?
Sarah respirou fundo.
— Preciso de uma informação sobre uma mulher chamada Niele. Uma escritora.
Do outro lado, houve um silêncio inesperadamente longo.
— Por que você quer saber dela?
Sarah percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada.
— Porque o nome dela apareceu durante uma investigação.
Outra pausa.
Então a voz respondeu, mais baixa:
— Sarah... quem te falou sobre Niele?
Sarah ficou imóvel.
Olhou para Edson.
— Por quê?
— Porque Niele não é alguém que deveria ter aparecido nessa história.
Sarah sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— O que você sabe sobre ela?
A resposta demorou.
— Sei que, há alguns meses, ela começou a fazer perguntas sobre a mesma operação que colocou Edson no centro desse problema.
Sarah apertou o telefone.
— Que tipo de perguntas?
— Perguntas sobre a carga. Sobre os estrangeiros envolvidos. Sobre pessoas dentro do governo.
Sarah olhou novamente para Edson.
— E depois?
A voz do outro lado baixou ainda mais.
— Depois, ela desapareceu.
Sarah permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Desapareceu como?
— Sem aviso. Sem deixar endereço. Sem responder às mensagens.
— Você acha que ela foi sequestrada?
— Eu não acho nada.
— Então o que você sabe?
A resposta veio quase num sussurro:
— Na última mensagem que ela me mandou, escreveu apenas uma frase.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Que frase?
— “Se alguma coisa acontecer comigo, procurem o advogado.”
Sarah fechou os olhos por um instante.
Olhou para Edson.
Agora o nome fazia sentido. Niele não era apenas uma testemunha.Talvez fosse a peça que faltava. E talvez alguém tivesse tentado silenciá-la antes mesmo de Edson entrar naquele jogo.
— Qual advogado? — perguntou Sarah.
Do outro lado, a pessoa hesitou.
— Edson Falcão.
Sarah sentiu o estômago revirar. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a voz continuou:
— Mas, de acordo com uma informação que um amigo, delegado da Polícia Civil, me passou, Niele está desaparecida há alguns dias. Ele disse que já existe uma investigação em curso, mas o caso está sob sigilo.
— Entendo — disse Sarah, pensativa. — Será que você consegue me colocar em contato com esse delegado?
— Creio que sim. Vou falar com ele primeiro.
Depois, retorno para você.
— Obrigada. Creio que podemos nos ajudar mutuamente. Edson acredita ter ouvido os sequestradores mencionarem esse nome. Talvez ela esteja sob o poder das mesmas pessoas que o sequestraram.
Do outro lado, houve alguns segundos de silêncio.
— Se ele ouviu o nome dela enquanto estava em cativeiro... é bem provável.
A ligação terminou.
Sarah permaneceu alguns segundos olhando para o celular. Depois voltou para dentro.
Edson a observava.
— E então?
Sarah guardou o telefone no bolso.
— Acho que acabamos de encontrar outra pessoa no centro dessa história.
— Niele?
Ela assentiu.
— Niele.
***
A decisão foi tomada sem cerimônia. Nada de reuniões longas, nem espaço para negociação. O atentado fracassado encerrara qualquer dúvida que ainda pudesse existir.
— Não é mais uma recomendação — disse o agente da Polícia Federal, em tom firme. — É uma medida necessária.
Edson ouviu em silêncio.
Sarah estava ao seu lado, braços cruzados, o semblante fechado. Ambos sabiam o que aquilo significava, mesmo antes de ser dito em voz alta.
— A partir de agora, o senhor entra no Programa de Proteção — continuou o agente. — Mudança imediata de rotina, endereço sigiloso, deslocamentos controlados e comunicação restrita.
— Em outras palavras — disse Edson, com ironia contida —, eu continuo vivo... mas deixo de existir.
O agente não contestou.
— É temporário — respondeu, sem muita convicção. — Até encerrarmos as frentes de investigação.
Sarah respirou fundo.
— Ele ainda será ouvido?
— Sim. Mas apenas em ambientes controlados. Sem exposição pública. A visibilidade, agora, joga contra.
Edson assinou os documentos com calma.
Cada assinatura parecia um corte simbólico: a vida comum, a autonomia, os pequenos gestos — tudo suspenso por tempo indeterminado.
Duas horas depois, já estava em outro lugar.
O imóvel era funcional, anônimo, quase impessoal. Cortinas fechadas, móveis neutros, câmeras discretas. Dois agentes permaneciam no corredor. Um terceiro fazia a segurança na rua. Proteção total. Liberdade mínima.
Edson caminhou até a janela, mas não a abriu.
— Engraçado — murmurou. — Passei dias preso num galpão... e agora estou aqui, cercado de segurança. A sensação não é tão diferente.
Sarah se aproximou.
— A diferença — disse ela — é que agora você não está sozinho.
Ele se virou para ela.
— E você? — perguntou. — Vai ficar sob esse radar comigo?
Ela sustentou o olhar.
— Já estou — respondeu. — Desde o momento em que decidi não te convencer a ceder.
Houve um silêncio denso entre os dois. Não romântico. Não leve. Um silêncio de escolhas irreversíveis.
— Eles querem me apagar — disse Edson. — Não apenas me matar. Querem me tornar irrelevante.
— Não vão conseguir — respondeu Sarah. — Porque você já disse demais. E porque agora... sabemos onde mirar.
Ela retirou da bolsa um envelope fino.
— O que é isso? — perguntou Edson.
— O próximo passo.
Ela abriu o envelope e espalhou alguns documentos sobre a mesa.
— Mandantes. Intermediários. Dinheiro.
Fez uma pausa.
— Mas isso significa que sua proteção vai durar mais do que disseram.
Edson assentiu lentamente.
— Então que dure — disse. — Desde que termine.
Sarah segurou a mão dele com firmeza.
— Vai terminar — afirmou. — E, quando terminar, alguém vai cair com força suficiente para que nunca mais tentem repetir isso.
Do lado de fora, a vigilância seguia silenciosa.
E, em algum ponto invisível da cidade, alguém começava a entender que eliminar Edson Falcão não seria simples. Porque agora ele não era apenas um alvo. Era prova viva.
CONTINUA….
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Não deixem de ler o Capítulo 15 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.
Boa leitura!
Felipe F. Falcão