É engraçado como é a vida.
Muitos de nós já ouvimos aquele velho ditado: “Só se dá valor quando se perde.” E, quase sempre, são as mães que nos lembram disso. Quantas vezes não ouvimos, ainda crianças:
— Menino, você só vai me dar valor quando eu não estiver mais aqui.
Naquele momento, parecem apenas palavras de mãe. Talvez até uma pequena ameaça emocional, dessas que entram por um ouvido e saem pelo outro. Mas o tempo passa, a vida acontece, e um dia entendemos a profundidade daquela frase. Hoje eu entendo.
Como já escrevi em poemas, textos e canções, não tive uma relação fácil com meu pai. Foram muitos motivos, muitas feridas, palavras que ficaram pelo caminho e outras que talvez nunca tenham sido ditas. Durante muito tempo, carreguei mágoas que pareciam ter raízes profundas demais para serem arrancadas.
Mas agora ele se foi. E é curioso o que a morte faz com a memória.
Depois que alguém parte, a gente começa a procurar lembranças. Revira gavetas dentro da própria cabeça, procura cenas, palavras, gestos, qualquer coisa que ajude a explicar aquilo que sentimos durante tantos anos.
E eu me peguei tentando entender por que havia tanta mágoa dentro de mim. Voltei aos acontecimentos. Revi situações. Relembrei momentos bons e ruins. E, depois de olhar para tudo isso com um pouco mais de distância, cheguei a uma conclusão que, de certa forma, também me trouxe tristeza:
Meu pai foi o pai que ensinaram a ele ser. Não significa que tudo o que ele fez estava certo. Não significa que a dor deixou de existir.
Mas talvez signifique que, antes de ser meu pai, ele também foi apenas um menino que aprendeu a viver com aquilo que recebeu da vida.
Outro dia ouvi uma frase que ficou comigo:
“Quem corrige com palavras ensina lições para a vida. Quem bate ensina a bater.”
Meu pai bateu muito. Talvez porque foi assim que ele aprendeu a educar. Talvez porque nunca tenha conhecido outra maneira de demonstrar autoridade, de corrigir ou até mesmo de amar.
E, ainda assim, existe algo que todos nós recebemos como possibilidade: a escolha.
Não podemos escolher aquilo que fizeram conosco, mas podemos escolher o que faremos com aquilo que recebemos.
Eu, por exemplo, sou casado há 28 anos. Escolhi não ser pai. Durante muito tempo, talvez nem eu soubesse explicar completamente essa escolha. Hoje consigo enxergar que havia, entre outras coisas, um medo escondido: o medo de repetir aquilo que vivi.
Não queria correr o risco de me tornar um homem agressivo.
Minha esposa, porém, sempre acreditou que eu teria sido um bom pai. Ela costuma dizer que até com os animais eu prefiro conversar, argumentar, tentar compreender, em vez de simplesmente usar a força.
Talvez ela tenha razão. Talvez eu tenha aprendido justamente o contrário. Talvez algumas pessoas passem pela nossa vida não apenas para nos ensinar o que fazer, mas também para nos ensinar aquilo que não queremos repetir. E meu pai, de alguma maneira, também me ensinou isso.
Hoje, depois que ele partiu, não consigo mais conversar com ele sobre essas coisas. Não posso perguntar por que fez determinadas escolhas. Não posso dizer que algumas coisas doeram. Não posso ouvir sua versão. Não posso voltar no tempo e ser o filho que talvez eu pudesse ter sido, nem fazer dele o pai que eu gostaria que tivesse sido.
A morte encerra algumas possibilidades. Mas ela também nos obriga a olhar para o que ficou. E ficou a saudade.
Uma saudade estranha, diferente daquela que sentimos de alguém com quem tivemos uma relação perfeita. É uma saudade misturada com perguntas, com silêncio, com algumas mágoas que ainda não sabem exatamente onde morar.
Talvez o tempo consiga colocá-las em algum lugar. Talvez o perdão não seja esquecer o que aconteceu, mas compreender que todos nós somos, em alguma medida, resultado das histórias que nos formaram.
Meu pai teve a história dele.Eu tenho a minha. E agora, olhando para trás, percebo que não posso mudar a história que vivemos juntos. Mas posso escolher como vou carregá-la.
Talvez seja essa a verdadeira lição daquele velho ditado.
A gente realmente só entende o valor de algumas pessoas quando elas partem. Mas, às vezes, não é apenas o valor da pessoa que passamos a enxergar. É também a nossa própria história.
E foi somente depois que meu pai se foi que comecei, finalmente, a compreender o menino que ele um dia foi. E, de alguma forma, o homem que ele conseguiu ser.
Depois de tantas ponderações, escrevi a letra abaixo.
QUANDO FECHO OS OLHOS
Quando fecho os olhos,
Ainda escuto a tua voz:
“Meu filho, não faça isso,
Você pode se machucar.”
Naquele tempo eu não entendia,
Achava duras suas palavras.
Hoje eu daria tudo
Pra ouvir sua voz mais uma vez.
[Refrão]
Pai, se eu pudesse voltar,
Eu parava pra te escutar.
Cada bronca, cada conselho,
Era amor querendo me ensinar.
Hoje eu sei, meu velho,
Você só quis me proteger.
E essa saudade que dói no peito
É o preço de ter amado você.
O tempo passou, eu cresci,
E você já não está aqui.
Só depois que a vida ensinou
Eu pude compreender.
Por trás daquele jeito duro,
Havia um coração inteiro.
E hoje eu digo com orgulho:
Você foi meu pai, meu companheiro.
Se você ainda tem seu pai,
Abrace enquanto ele está aí.
Um dia a voz se cala,
E fica a saudade dentro de nós.
[Refrão ]
Pai, se eu pudesse voltar,
Eu parava pra te escutar.
“Meu filho, não faça isso...”
Eu deixaria você falar.
Porque hoje eu sei, meu velho,
Tudo aquilo era amor.
E quando fecho os olhos,
Ainda escuto tua voz.
Pai... eu te amo.