FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Edson já não sabia dizer há quanto tempo estava ali.

A luz pendurada no teto piscava em intervalos irregulares, como se também estivesse cansada. O ar cheirava a ferrugem, óleo velho e maresia. Cada respiração exigia esforço, não pela dor — essa já havia se tornado um ruído de fundo —, mas pela exaustão profunda, que vinha de dentro.

Sentado numa cadeira metálica, com as mãos presas atrás do encosto, ele mantinha a cabeça erguida por pura disciplina. Não por bravura. Disciplina.

— Você está perdendo tempo — disse o homem à sua frente, em tom quase burocrático. — Ninguém aguenta tanto.

Edson levantou os olhos devagar. O rosto estava marcado, mas o olhar permanecia lúcido.

— Engano seu — respondeu, com a voz rouca. — Eu não negocio com criminosos.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer ameaça. O outro homem se aproximou, apoiando as mãos na mesa.

— Não queremos nomes. Nem documentos. Só um caminho. Um detalhe que confirme o que já sabemos.

Edson fechou os olhos por um instante. Não para fugir, mas para lembrar. Sarah. O mar. O compromisso que assumira quando decidiu não se calar.

— Se vocês soubessem o que acham que sabem — murmurou —, não estariam aqui me perguntando.

O impacto veio depois disso. Não violento em excesso, mas calculado. O tipo de dor pensado para quebrar a vontade, não o corpo.

Edson respirou fundo. Contou mentalmente. Um. Dois. Três. Aprendera, anos antes, que a dor só vence quando encontra o medo. Ele já havia perdido tudo o que importava na vida. Perdera os pais, o que lhe causava um vazio incalculável. Mas agora tinha Sarah, por quem valia a pena sobreviver. Ele não estava com medo. Estava cansado. Muito cansado. Mas ainda inteiro.

O homem se afastou, frustrado.

— Ele vai apagar — disse a alguém fora do campo de visão.

— Ainda não — respondeu outra voz. — Esse aí aguenta mais.

Edson ouviu passos se afastando. O silêncio voltou, interrompido apenas pelo som distante de trens passando — um detalhe pequeno, mas que lhe deu algo precioso: uma localização aproximada. Sorriu por dentro. Um sorriso mínimo. Quase inexistente.

Pensou em Sarah outra vez. Não como uma lembrança suave, mas como uma âncora. Ela saberia ligar os pontos. Ela não desistiria.

A cabeça pesou. O corpo ameaçou ceder.

— Aguenta... — murmurou para si mesmo, num fio de voz.

Então, algo mudou. Um som diferente. Não do galpão. Não dos trilhos. Um estalo seco. Depois outro. E outro. Gritos abafados. Ordens interrompidas no meio.

Edson abriu os olhos com dificuldade. O caos se aproximava — não como ameaça, mas como resposta. A última coisa que ouviu antes de perder a consciência foi uma voz firme, distante, gritando:

— Polícia Federal! Ninguém se move!

E, pela primeira vez desde que fora levado, Edson permitiu-se não resistir.

***

O plano previa silêncio absoluto. Entrada cirúrgica. Tempo contado. Nenhuma testemunha. Mas o sigilo morreu antes de a primeira viatura dobrar a esquina.

Alguém falou demais. Ou falou com quem não devia.

Quando os agentes da Polícia Federal se aproximavam do galpão, Edson ainda estava desacordado. Do lado de fora, o que deveria ser apenas o som abafado dos motores foi substituído por algo muito pior.

O barulho inconfundível de hélices.

— Temos um helicóptero no ar — avisou um dos agentes pelo rádio, com a voz tensa. — Não é nosso.

Outro segundo de silêncio. Depois, a confirmação inevitável:

— É uma emissora de televisão. Estão filmando tudo.

O comandante cerrou os dentes.

— Prosseguem com a operação. Não abortem.

O primeiro disparo de advertência ecoou. Ordens foram gritadas. O galpão transformou-se num labirinto de vozes, passos e tensão.

Lá dentro, Edson começou a recobrar a consciência ao ouvir a confusão. Não entendia as palavras, mas reconhecia o tom. Algo grande estava acontecendo — grande demais para ser discreto.

Os sequestradores perceberam também.

— Deu ruim! Sai, agora! — gritou um deles.

Três homens correram para o fundo do galpão, onde um carro já os aguardava. Saíram em alta velocidade, ignorando bloqueios, ordens e sirenes.

O helicóptero da emissora acompanhava tudo de cima, transmitindo ao vivo.

— Eles estão fugindo! — narrava o repórter, com a excitação irresponsável de quem não mede as consequências.

Numa curva da estrada secundária, o erro aconteceu.

O carro perdeu a estabilidade. Rodou. Capotou duas vezes. O impacto foi seco. Segundos depois, uma explosão rompeu o ar, iluminando a estrada e obrigando o helicóptero a se afastar.

No galpão, os agentes avançaram sem hesitar.

Edson foi encontrado amarrado, ferido, mas vivo.

— Temos o alvo — anunciou uma agente. — Ele está respirando.

Edson abriu os olhos com esforço, tentando focar.

— Acabou...? — perguntou, quase sem voz.

— Acabou — respondeu o agente, cortando as amarras. — Mas virou um inferno lá fora.

Minutos depois, já na ambulância, Edson ouviu fragmentos do que havia acontecido. Operação vazada. Imagens ao vivo. Três mortos na fuga. E um país inteiro assistindo.

Em São Paulo, Sarah viu tudo pela televisão. O helicóptero. O carro em fuga. A explosão.

Quando confirmaram que Edson estava vivo, ela levou a mão ao rosto — não para chorar, mas para conseguir respirar. Sabia que, a partir daquele momento, nada mais seria simples.

A operação deixara de ser apenas policial. Agora era política, diplomática e pública. E alguém teria de responder por isso. Edson, ainda atordoado, fechou os olhos na maca. Ele sobrevivera.

Mas intuía, com dolorosa clareza, que o verdadeiro preço daquele resgate ainda estava por vir.

CONTINUA….

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Não deixem de ler o Capítulo 12 da série policial O Silêncio das Estruturas.

Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.

Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.

Boa leitura!

— Felipe F. Falcão

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 06/08/2026
Alterado em 06/08/2026
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