FelipeFFalcão

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Nunca pensei que choraria a morte do meu pai.

Durante muitos anos, eu dizia, sem raiva e sem drama, que ele havia morrido para mim ainda na década de oitenta. Era uma morte simbólica, dessas que acontecem quando a ausência ocupa o lugar da presença e o silêncio substitui qualquer lembrança.

Meus pais se separaram em 1985. De uma hora para outra, nós, os filhos, fomos espalhados entre parentes, como uma ninhada de gatos procurando abrigo. Cada um seguiu um caminho. Eu, já com treze anos e dono de uma teimosia precoce, não consegui criar raízes na casa para onde fui levado. Acabei encontrando meu próprio rumo. Cresci antes da hora. A vida fez o resto.

Vieram os anos, as distâncias, os desencontros. Minha mãe seguiu seu caminho, meu pai o dele, e eu o meu. Aprendi a viver sem esperar telefonemas, aniversários ou abraços. Com o tempo, a falta de alguém deixa de doer; ela simplesmente passa a fazer parte da paisagem.

Então, em 2019, veio o diagnóstico: câncer. Os médicos lhe deram apenas dois meses de vida. Ironia das ironias, ele viveu mais sete anos.

E talvez tenha vivido esse tempo todo para que nós tivéssemos aqueles últimos vinte dias.

Foram apenas vinte dias. Vinte dias em que conversamos como nunca havíamos conversado. Rimos de piadas simples, falamos da vida, do passado e do presente. Pela primeira vez, passei a mão em seus cabelos sem carregar o peso de quarenta anos de ressentimento. Segurei sua mão não por obrigação, mas porque queria segurá-la.

Na tarde de 26 de julho de 2026, às 14h37, continuei segurando aquela mesma mão até o último suspiro. Naquele instante, compreendi uma verdade que jamais havia imaginado.

Eu não chorava pelo pai que perdi naquele dia. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelas conversas que não aconteceram, pelos aniversários perdidos, pelos conselhos que nunca ouvi e pelas memórias que jamais seriam construídas.

Mas, ao mesmo tempo, descobri que Deus ainda havia me concedido um presente inesperado. Em apenas vinte dias, Ele me permitiu conhecer o homem que meu pai poderia ter sido.

Não foi tempo suficiente para apagar quarenta anos de distância. Mas foi tempo bastante para fechar um círculo que permaneceu aberto por toda uma vida. Hoje, quando penso nele, a imagem que permanece não é a do homem ausente. É a do homem que repousou a cabeça em meu ombro enquanto eu segurava sua mão pela última vez.

E, curiosamente, essa lembrança vale mais do que todas as ausências que vieram antes.

Há vinte e dois anos venho idealizando um livro que conta a história da minha família. Agora, finalmente, tenho o contexto necessário para preencher as lacunas e redigir o capítulo final.

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 29/07/2026
Alterado em 29/07/2026
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