FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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O tempo deixou de ter contorno. Edson percebeu isso quando já não conseguia distinguir se o cansaço vinha das horas ou da intenção calculada de quebrá-lo. A sala era outra agora — menor, mais fria. A cadeira, fixa ao chão. As luzes, fortes demais.

O homem de sotaque italiano permanecia em silêncio, observando. Não precisava falar. Outros faziam isso por ele. As perguntas eram sempre as mesmas. Os nomes, repetidos. As exigências, idênticas.

— Assine o relatório — diziam. — Apenas isso.

Quando Edson se recusava, vinha o castigo.

Nunca caótico. Sempre preciso. Dor suficiente para ensinar. Nunca o bastante para matar. O que mais o desgastava não era o corpo. Era a tentativa constante de convencê-lo de que estava sozinho.

— Ninguém vai te tirar daqui — disse um dos homens, num tom quase didático. — Você não passa de um advogado inconveniente.

Edson respirava fundo antes de responder. Aprendera, ali, que a respiração era a última coisa que ainda podia controlar.

— Advogados inconvenientes — murmurou — costumam sobreviver aos confortáveis.

O golpe veio depois. Ele fechou os olhos, concentrou-se em algo simples: o rosto de Sarah. A forma como ela o olhava quando fingia não se importar. Isso o mantinha inteiro. Tentaram outra abordagem. Trouxeram documentos falsos, gravações editadas, promessas de imunidade. Depois, ameaças mais sutis.

— Há pessoas que você não quer ver envolvidas nisso.

Edson ergueu o olhar, lento, dolorido.

— Se as envolverem — disse —, vocês deixam de negociar. Passam a confessar.

O homem de sotaque italiano perdeu a paciência pela primeira vez.

— Você não entende onde está.

Edson sorriu com dificuldade.

— Entendo exatamente. — Tossiu. — Estou onde a verdade incomoda.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Menos controle. Mais raiva.

Horas depois — ou dias — Edson já não sabia, foi deixado sozinho novamente. O corpo doía. A mente, curiosamente, estava clara. Não entregara nada. Não assinara nada. Não pronunciara um nome sequer. Sabia que isso tinha um preço. Mas também sabia que, enquanto resistisse, ganhava tempo. E tempo era tudo o que Sarah precisava.

***

Em São Paulo, quando a procuradora informou que havia indícios fortes de tortura em curso, Sarah fechou os olhos por um segundo. Apenas um.

— Então não temos mais margem — disse ela. — Entrem agora.

A voz dela não tremia. Mas, por dentro, uma certeza se cristalizava:

Edson não estava resistindo apenas por si. Estava resistindo porque confiava que ela não falharia. E ela não falharia. Nem que tivesse de derrubar tudo para trazê-lo de volta.

A sala do MPF estava fria demais. Sarah percebeu isso não pela temperatura, mas pela forma como seus dedos não conseguiam relaxar sobre o copo de café intocado. O relógio na parede avançava com uma lentidão cruel, marcando segundos que pareciam não levar a lugar algum.

— Ainda nada? — perguntou ela, pela terceira vez.

O delegado da Polícia Federal não respondeu de imediato. Observava um mapa projetado na tela, cheio de pontos e linhas que mudavam constantemente.

— Temos movimentações — disse, por fim. — Mas ainda não o local exato.

Sarah assentiu. Não discutiu. Não insistiu. Sabia que, naquele momento, a impaciência poderia ser inimiga. Sentou-se novamente, mas o corpo não acompanhava a mente. Havia nela um cansaço antigo, que não vinha daquela noite, mas de anos de controle excessivo. Percebeu, com amargura, que sempre acreditara ser forte por saber se conter. Agora entendia: conter-se também era uma forma de fuga. A imagem de Edson, sozinho, atravessou-lhe o pensamento sem aviso. Não como o homem confiante do escritório, mas como alguém ferido, resistindo apenas pela convicção de que não seria abandonado. Isso a quebrou. Não em lágrimas imediatas — mas numa fissura interna, silenciosa, profunda.

Levantou-se e foi até a janela. A cidade seguia viva, barulhenta, indiferente. Aquilo lhe pareceu quase obsceno.

— Eu devia ter impedido — disse, em voz baixa, sem saber para quem.

A procuradora aproximou-se.

— Você fez o que podia — disse. — Agora está fazendo o que é necessário.

Sarah fechou os olhos.

— Passei a vida inteira acreditando que decisões racionais me protegeriam — confessou. — Nunca considerei o custo emocional delas.

— Isso não é fraqueza — respondeu a procuradora. — É o que te mantém aqui, lutando.

O telefone vibrou sobre a mesa. Sarah se virou num reflexo imediato. O delegado atendeu. Ouviu em silêncio. Depois, seu semblante mudou.

— Encontramos um padrão — disse, desligando. — Transferências noturnas. Galpões na área continental, próximos a um antigo ramal ferroviário.

Sarah sentiu as pernas fraquejarem por um instante. Sentou-se rapidamente.

— Ele ainda está vivo? — perguntou, sem rodeios.

O delegado sustentou o olhar.

— Sim. — Fez uma pausa curta. — E isso não é sorte. É resistência.

Sarah respirou fundo. Pela primeira vez em horas, deixou que uma lágrima escapasse. Apenas uma. Não de desespero. De reconhecimento.

— Edson não vai ceder — disse ela, com voz firme apesar do tremor. — Nunca cedeu ao que era errado. Não vai começar agora.

A procuradora colocou a mão sobre o ombro dela.

— Então precisamos chegar antes que tentem algo irreversível.

Sarah assentiu. Endireitou a postura. Secou o rosto com discrição. A angústia ainda estava ali. O medo também. Mas algo novo se somava a eles: determinação absoluta.

Se Edson resistia no escuro, ela resistiria à luz. E quando aquela porta finalmente se abrisse, Sarah sabia que não estaria apenas salvando um homem. Estaria enfrentando tudo o que, até então, tentara manter sob controle.

CONTINUA….

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Não deixem de ler o Capítulo 11 da série policial O Silêncio das Estruturas.

Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.

Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.

Boa leitura!

— Felipe F. Falcão

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 20/07/2026
Alterado em 22/07/2026
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