O tempo deixou de ter contorno. Edson percebeu isso quando já não conseguia distinguir se o cansaço vinha das horas ou da intenção calculada de quebrá-lo. A sala era outra agora — menor, mais fria. A cadeira, fixa ao chão. As luzes, fortes demais.
O homem de sotaque italiano permanecia em silêncio, observando. Não precisava falar. Outros faziam isso por ele. As perguntas eram sempre as mesmas. Os nomes, repetidos. As exigências, idênticas.
— Assine o relatório — diziam. — Apenas isso.
Quando Edson se recusava, vinha o castigo.
Nunca caótico. Sempre preciso. Dor suficiente para ensinar. Nunca o bastante para matar. O que mais o desgastava não era o corpo. Era a tentativa constante de convencê-lo de que estava sozinho.
— Ninguém vai te tirar daqui — disse um dos homens, num tom quase didático. — Você não passa de um advogado inconveniente.
Edson respirava fundo antes de responder. Aprendera, ali, que a respiração era a última coisa que ainda podia controlar.
— Advogados inconvenientes — murmurou — costumam sobreviver aos confortáveis.
O golpe veio depois. Ele fechou os olhos, concentrou-se em algo simples: o rosto de Sarah. A forma como ela o olhava quando fingia não se importar. Isso o mantinha inteiro. Tentaram outra abordagem. Trouxeram documentos falsos, gravações editadas, promessas de imunidade. Depois, ameaças mais sutis.
— Há pessoas que você não quer ver envolvidas nisso.
Edson ergueu o olhar, lento, dolorido.
— Se as envolverem — disse —, vocês deixam de negociar. Passam a confessar.
O homem de sotaque italiano perdeu a paciência pela primeira vez.
— Você não entende onde está.
Edson sorriu com dificuldade.
— Entendo exatamente. — Tossiu. — Estou onde a verdade incomoda.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Menos controle. Mais raiva.
Horas depois — ou dias — Edson já não sabia, foi deixado sozinho novamente. O corpo doía. A mente, curiosamente, estava clara. Não entregara nada. Não assinara nada. Não pronunciara um nome sequer. Sabia que isso tinha um preço. Mas também sabia que, enquanto resistisse, ganhava tempo. E tempo era tudo o que Sarah precisava.
***
Em São Paulo, quando a procuradora informou que havia indícios fortes de tortura em curso, Sarah fechou os olhos por um segundo. Apenas um.
— Então não temos mais margem — disse ela. — Entrem agora.
A voz dela não tremia. Mas, por dentro, uma certeza se cristalizava:
Edson não estava resistindo apenas por si. Estava resistindo porque confiava que ela não falharia. E ela não falharia. Nem que tivesse de derrubar tudo para trazê-lo de volta.
A sala do MPF estava fria demais. Sarah percebeu isso não pela temperatura, mas pela forma como seus dedos não conseguiam relaxar sobre o copo de café intocado. O relógio na parede avançava com uma lentidão cruel, marcando segundos que pareciam não levar a lugar algum.
— Ainda nada? — perguntou ela, pela terceira vez.
O delegado da Polícia Federal não respondeu de imediato. Observava um mapa projetado na tela, cheio de pontos e linhas que mudavam constantemente.
— Temos movimentações — disse, por fim. — Mas ainda não o local exato.
Sarah assentiu. Não discutiu. Não insistiu. Sabia que, naquele momento, a impaciência poderia ser inimiga. Sentou-se novamente, mas o corpo não acompanhava a mente. Havia nela um cansaço antigo, que não vinha daquela noite, mas de anos de controle excessivo. Percebeu, com amargura, que sempre acreditara ser forte por saber se conter. Agora entendia: conter-se também era uma forma de fuga. A imagem de Edson, sozinho, atravessou-lhe o pensamento sem aviso. Não como o homem confiante do escritório, mas como alguém ferido, resistindo apenas pela convicção de que não seria abandonado. Isso a quebrou. Não em lágrimas imediatas — mas numa fissura interna, silenciosa, profunda.
Levantou-se e foi até a janela. A cidade seguia viva, barulhenta, indiferente. Aquilo lhe pareceu quase obsceno.
— Eu devia ter impedido — disse, em voz baixa, sem saber para quem.
A procuradora aproximou-se.
— Você fez o que podia — disse. — Agora está fazendo o que é necessário.
Sarah fechou os olhos.
— Passei a vida inteira acreditando que decisões racionais me protegeriam — confessou. — Nunca considerei o custo emocional delas.
— Isso não é fraqueza — respondeu a procuradora. — É o que te mantém aqui, lutando.
O telefone vibrou sobre a mesa. Sarah se virou num reflexo imediato. O delegado atendeu. Ouviu em silêncio. Depois, seu semblante mudou.
— Encontramos um padrão — disse, desligando. — Transferências noturnas. Galpões na área continental, próximos a um antigo ramal ferroviário.
Sarah sentiu as pernas fraquejarem por um instante. Sentou-se rapidamente.
— Ele ainda está vivo? — perguntou, sem rodeios.
O delegado sustentou o olhar.
— Sim. — Fez uma pausa curta. — E isso não é sorte. É resistência.
Sarah respirou fundo. Pela primeira vez em horas, deixou que uma lágrima escapasse. Apenas uma. Não de desespero. De reconhecimento.
— Edson não vai ceder — disse ela, com voz firme apesar do tremor. — Nunca cedeu ao que era errado. Não vai começar agora.
A procuradora colocou a mão sobre o ombro dela.
— Então precisamos chegar antes que tentem algo irreversível.
Sarah assentiu. Endireitou a postura. Secou o rosto com discrição. A angústia ainda estava ali. O medo também. Mas algo novo se somava a eles: determinação absoluta.
Se Edson resistia no escuro, ela resistiria à luz. E quando aquela porta finalmente se abrisse, Sarah sabia que não estaria apenas salvando um homem. Estaria enfrentando tudo o que, até então, tentara manter sob controle.
CONTINUA….
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Não deixem de ler o Capítulo 11 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
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Boa leitura!
— Felipe F. Falcão