FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Edson não dormiu naquela noite. O silêncio do apartamento era excessivo, como se o próprio mar tivesse decidido prender a respiração. Ainda assim, ao amanhecer, forçou a rotina: banho rápido, café ralo, documentos organizados numa pasta discreta. Não deixaria rastros de pânico.

Desceu pouco depois das sete. O hall estava vazio. O porteiro, distraído com o celular, mal levantou os olhos. Edson empurrou a porta de vidro e sentiu o ar salgado da manhã tocar-lhe o rosto.

Foi então que tudo aconteceu rápido demais para reação.

Um furgão branco, sem identificação, encostou de forma brusca. A porta lateral se abriu antes mesmo de o veículo parar por completo. Dois homens desceram. Nenhuma arma à vista. Nenhum grito. Apenas eficiência.

— Doutor Edson Falcão — disse um deles, com voz baixa. — Não faça nada que complique.

Edson tentou recuar, mas uma mão firme segurou-lhe o braço. A outra pressionou-lhe as costas, conduzindo-o para dentro do veículo. Em segundos, a porta se fechou.

O furgão arrancou. Lá dentro, o espaço era limpo, quase clínico. Não havia brutalidade — o que tornava tudo mais assustador. Um dos homens sentou-se à frente dele.

— Isso é um mal-entendido — disse Edson, mantendo a voz controlada.

— Não é — respondeu o homem, sem emoção. — É um ajuste de rota.

Colocaram-lhe uma venda. Não apertada. Calculada. O veículo seguiu por tempo suficiente para que ele perdesse qualquer noção de direção.

Edson concentrou-se em detalhes: curvas longas, paradas breves, o som distante de um portão metálico sendo aberto.

Quando a venda foi retirada, encontrava-se numa sala simples, paredes nuas, uma mesa de metal, duas cadeiras. Nada que denunciasse violência. Tudo que denunciava controle.

Outro homem entrou. Mais velho. Traje discreto. Falava com leve sotaque italiano.

— Doutor Falcão — disse, sentando-se à sua frente. — O senhor está causando um incômodo desnecessário.

— Estou cumprindo meu dever — respondeu Edson.

O homem sorriu de leve.

— Dever é uma palavra elástica. — Inclinou-se para a frente. — O senhor tem um relatório para escrever. Ele pode encerrar este assunto… ou prolongá-lo.

— Querem que eu minta.

— Queremos que o senhor seja… pragmático.

Houve um silêncio pesado.

— E se eu não for?

O homem recostou-se na cadeira.

— Então continuará aqui até compreender o valor da prudência.

Edson sentiu, pela primeira vez, o medo real se infiltrar. Não o medo da dor imediata — mas o medo do tempo. Do esquecimento. Do silêncio institucional. Pensou em Sarah. Pensou se ela já suspeitava.

Horas depois, em São Paulo, Sarah recebeu uma mensagem curta demais para ser comum. Vinha do telefone de Edson.

“Fui retido. Não confie em ninguém do porto. Acione o MPF.”

O coração dela disparou. Aquilo não era mais pressão. Era sequestro. E Sarah compreendeu, com clareza absoluta:

Se não agisse rápido, Edson se tornaria apenas mais uma peça sacrificável num jogo grande demais para admitir falhas.

Ela se levantou, determinada. Dessa vez, o silêncio não seria opção.

***

Sarah não perdeu tempo com hesitações. A mensagem de Edson ainda brilhava na tela do celular quando ela já atravessava o corredor do escritório, ignorando olhares curiosos. Entrou em sua sala, fechou a porta e fez a primeira ligação — não institucional, mas pessoal.

— É a Sarah Simion — disse, sem preâmbulos. — Preciso falar com você agora. É grave.

Do outro lado da linha, o silêncio foi breve.

— Onde você está? — perguntou a procuradora do Ministério Público Federal.

— Em São Paulo. Mas o caso é em Santos. Um advogado foi sequestrado após se recusar a maquiar um relatório envolvendo tráfico internacional e interesses diplomáticos.

— Nome.

— Edson Falcão.

— Você tem provas?

Sarah respirou fundo.

— Tenho indícios suficientes para justificar uma operação imediata. E posso entregar algo maior… envolvendo interferência institucional privada.

Houve outra pausa. Mais longa.

— Venha agora. Traga tudo o que tiver.

Menos de uma hora depois, Sarah estava numa sala reservada do MPF, expondo documentos, e-mails, cruzamentos societários. Falou com precisão, sem emoção aparente — mas cada frase era sustentada por urgência.

— Ele foi usado como amortecedor — concluiu. — E agora está sendo pressionado fisicamente. Isso ultrapassa qualquer esfera civil.

Um delegado da Polícia Federal, presente à reunião, apoiou os cotovelos na mesa.

— O telefone dele ainda emite sinal?

— Intermitente — respondeu Sarah. — A última localização conhecida não condiz com os deslocamentos normais dele.

— Isso basta — disse o delegado. — Vamos tratar como sequestro com motivação para obstrução de justiça.

Sarah sentiu o impacto daquelas palavras. Era real. Oficial.

— Mas há um risco — acrescentou o delegado. — Se houver envolvimento diplomático, alguém vai tentar frear isso.

Sarah inclinou-se para a frente.

— Então não freiem. — Olhou diretamente para a procuradora. — Se esperarmos autorização política, ele não volta.

O olhar que recebeu em resposta foi firme.

— Concordo.

Enquanto isso, Edson permanecia na sala sem janelas. Não sabia quanto tempo havia passado. O homem de sotaque italiano retornou, agora menos paciente.

— Estão procurando por você — disse, com frieza. — Isso complica as coisas.

— Não para mim — respondeu Edson. — Para você.

O homem o encarou por alguns segundos, avaliando.

— Talvez tenhamos subestimado sua rede de proteção.

— Talvez tenham subestimado alguém que não aceita desaparecer em silêncio.

O homem se levantou abruptamente.

— Preparem a transferência — ordenou a alguém fora da sala.

Edson sentiu o primeiro sinal real de perigo. Transferências não costumavam ser boas notícias.

Em Santos, equipes da Polícia Federal já cruzavam dados de pedágios, câmeras urbanas e sinais de celular. Um trajeto começou a se desenhar — fragmentado, mas coerente.

— Temos um ponto provável — disse um agente. — Galpões desativados na área continental.

Sarah observava tudo à distância, mãos cerradas, postura firme. Não chorava. Não implorava. Agia.

— Ele não pode sair do país — disse ela.

— Não vai — respondeu o delegado. — Mas precisamos ser rápidos.

Sarah fechou os olhos por um segundo. Não por medo. Mas pela certeza de que, quando Edson voltasse — se voltasse — nada mais seria como antes. Ela havia cruzado uma linha definitiva. E agora, não havia retorno possível.

CONTINUA…

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 14/07/2026
Alterado em 14/07/2026
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