FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Sarah soube da designação antes mesmo de Edson.

O e-mail chegou seco e objetivo, como costumavam ser as decisões que não admitiam contestação. Caso Portuário – Santos. Cooperação internacional. Conflito diplomático latente entre os governos brasileiro e italiano. Uma carga de entorpecentes apreendida em circunstâncias nebulosas. Interesses cruzados. Pressão silenciosa. Era um caso grande demais para ser fruto do acaso.

Sem responder à mensagem, Sarah levantou-se e caminhou diretamente até a sala de Helena. Bateu uma única vez antes de entrar.

— Você designou o Edson — disse, sem rodeios.

Helena fechou a pasta que analisava com uma calma ensaiada.

— Sim. — Cruzou as mãos sobre a mesa. — É um caso complexo. Ele tem o perfil.

— Não seja cínica — respondeu Sarah, controlando a voz. — Você sabe exatamente o que está fazendo.

Helena sustentou o olhar, sem recuar.

— Sei. — Fez uma breve pausa. — Estou protegendo o escritório. E, talvez, você também.

Sarah respirou fundo.

— Mandá-lo para Santos não é proteção. É afastamento.

— É estratégia — corrigiu Helena. — O caso envolve autoridades portuárias, diplomatas italianos, pressão do Itamaraty. Uma carga de entorpecentes que ninguém quer assumir como sua. Precisamos de alguém fora do eixo emocional desta sala.

— Você está usando um conflito internacional para resolver uma suspeita pessoal.

— Estou usando um conflito internacional para evitar um problema institucional — respondeu Helena, agora mais firme. — Você perdeu a objetividade, Sarah. E sabe disso.

Um silêncio pesado tomou conta da sala.

— Ele não é descartável — disse Sarah, por fim. — Nem profissionalmente, nem como pessoa.

Helena inclinou levemente a cabeça.

— Justamente por isso escolhi o Edson. — Levantou-se. — Se der certo, ele cresce. Se der errado... o desgaste fica longe daqui.

Sarah sentiu o golpe. Não era apenas um afastamento. Era uma exposição.

— Quando ele parte? — perguntou, embora já soubesse a resposta.

— Amanhã cedo.

Edson recebeu a notícia no fim da tarde.

— Santos? — repetiu, tentando esconder a surpresa. — Caso portuário?

— É grande — disse Helena, presente à reunião. — Envolve interesses brasileiros e italianos. Tráfico internacional. Precisamos de alguém discreto.

Edson assentiu.

— Quando começo?

— Amanhã.

Sarah permaneceu em silêncio durante toda a conversa. Não por concordância, mas porque sabia que qualquer palavra seria interpretada como uma confirmação.

Quando ficaram sozinhos, no corredor quase vazio, Edson falou em voz baixa:

— Você sabia.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Sim.

— Isso é um afastamento?

Sarah finalmente o encarou.

— É um teste — respondeu. — Para você... e para mim.

Ele compreendeu mais do que ela gostaria.

— Eu volto? — perguntou.

— Depende do que esse caso vai nos custar — respondeu ela. — Em todos os sentidos.

Edson deu um passo à frente, mantendo a distância necessária para que ninguém levantasse suspeitas.

— Nada disso muda o que aconteceu — disse ele. — Nem o que sentimos.

Sarah respirou fundo.

— Muda o terreno — respondeu. — E terrenos instáveis costumam cobrar caro.

Despediram-se sem um toque, sem uma promessa.

***

Na manhã seguinte, enquanto Edson seguia para Santos, levando consigo um caso que envolvia governos, portos e interesses ocultos, Sarah permanecia no escritório, consciente de algo inquietante.

Helena não havia apenas separado dois corpos. Havia colocado o sentimento deles dentro de um campo minado.

Edson chegou a Santos pouco antes das sete da manhã. O céu estava baixo, carregado, e o porto já fervilhava de movimentação. Guindastes avançavam lentamente sobre os contêineres, como criaturas mecânicas indiferentes ao que transportavam.

O dossiê que trazia consigo era espesso demais para um caso "pontual".

A apreensão ocorrera três semanas antes. Um contêiner vindo de Gênova, declarado como carga de equipamentos industriais, escondia, em compartimentos adaptados, centenas de quilos de entorpecentes de alto valor. O problema não era a droga, mas quem não queria que ela fosse oficialmente atribuída a ninguém.

A empresa importadora brasileira negava envolvimento. A exportadora italiana alegava fraude documental. O consulado italiano pressionava discretamente. O governo brasileiro, por meio de canais informais, pedia "cautela".

Edson percebeu logo: aquele não era apenas um processo criminal. Era um conflito diplomático disfarçado de litígio portuário.

Na primeira reunião, um delegado da Polícia Federal foi direto:

— Doutor, ninguém quer esse caso no colo. Se virar um escândalo internacional, sobra para todo mundo.

— E o que esperam de mim? — perguntou Edson.

O delegado o encarou por um segundo a mais.

— Que encontre uma solução jurídica... antes que alguém imponha uma solução política.

Nos dias seguintes, Edson mergulhou nos documentos. Notou inconsistências sutis: datas que não fechavam, assinaturas repetidas, laudos alterados por simples vírgulas. Nada gritante, mas suficiente para indicar uma interferência posterior.

Durante uma visita ao cais, acompanhado por um auditor portuário, percebeu algo ainda mais inquietante.

— Esse contêiner ficou parado dois dias além do previsto — comentou Edson.

— Ordem superior — respondeu o auditor, sem olhá-lo.

— Superior de onde?

O homem hesitou.

— Brasília.

Naquela noite, no quarto simples do hotel, Edson ligou para Sarah. Não costumavam se falar com frequência; era mais seguro assim. Ainda assim, precisava ouvir sua voz.

— Está ficando grande — disse em tom baixo. — Não é só tráfico. Tem governo no meio.

Do outro lado da linha, Sarah permaneceu em silêncio por um instante.

— Helena sabia — disse ela, por fim.

Não era uma pergunta.

— Então fui enviado para resolver... ou para segurar?

— Talvez para descobrir até onde isso vai — respondeu Sarah. — E quem vai deixar você ir.

Edson respirou fundo.

— Se eu avançar demais, isso pode se tornar perigoso.

— Eu sei. — A voz dela falhou, quase

imperceptivelmente. — Mas agora você não pode parar.

Antes de desligar, ela disse:

— Tenha cuidado, Edson. Este caso não gosta de curiosos.

Dois dias depois, um episódio mudou tudo. Ao retornar ao hotel, Edson encontrou a porta do quarto entreaberta. Nada parecia fora do lugar. Nenhum objeto havia sido levado. Apenas um detalhe chamava a atenção: o dossiê não estava onde ele o deixara. Estava sobre a cama. Aberto.

Com uma única folha marcada por caneta vermelha. Um círculo envolvia um nome que até então passara despercebido: um intermediário logístico com dupla cidadania, ligado tanto ao porto de Santos quanto a empresas italianas. Abaixo, uma frase curta, escrita à mão:

"Nem tudo que entra no porto deve sair à tona."

Edson sentou-se lentamente. Ali, sozinho, compreendeu algo essencial. O caso não era apenas grande. Era vigiado.

E, a partir daquele instante, cada passo seu teria consequências jurídicas, políticas... e pessoais.

CONTINUA…

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 05/07/2026
Alterado em 05/07/2026
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