O horário de almoço costumava ser breve, quase automático. Naquele dia, porém, Edson parecia mais silencioso do que o habitual. Caminhavam lado a lado pela Alameda Santos quando ele finalmente falou:
— Está ficando cansativo — disse, num tom despretensioso. — Ir e vir da praia todos os dias. Achei que fosse me acostumar, mas o corpo cobra.
Sarah lançou-lhe um olhar discreto.
— Já pensou em ficar mais perto do escritório?
— É exatamente o que estou fazendo. Estou procurando um estúdio, talvez uma kitnet. Algo simples.
Ela hesitou por um instante antes de responder.
— Ontem visitei uma unidade interessante, no quinto andar de um prédio na Alameda Jaú. É pequena, mas muito bem iluminada.
— Sério?
— Posso te mostrar, se quiser. É perto daqui.
Edson assentiu. Não havia motivo prático para recusar. Ainda assim, ambos sabiam que aquela decisão carregava algo além da simples conveniência.
O prédio era discreto, antigo, mas bem conservado. Subiram de elevador em silêncio. O corredor do quinto andar estava vazio.
Sarah abriu a porta.
— É simples, mas funcional.
A luz da tarde entrava pela janela lateral, desenhando sombras suaves sobre as paredes claras. Edson caminhou devagar, observando cada detalhe. Ao chegar ao banheiro, perguntou:
— Posso ver?
— Claro.
Ela entrou logo atrás. O espaço era pequeno, organizado, suficiente apenas para o essencial. Quando se virou para comentar alguma coisa, acabou esbarrando nele. O choque foi leve, quase imperceptível, mas suficiente.
Por um instante, nenhum dos dois se moveu. O silêncio tornou-se espesso, carregado de tudo o que ambos vinham reprimindo havia semanas. Seus olhares permaneceram presos um ao outro por tempo demais.
— Edson... — murmurou Sarah, mas a voz lhe faltou.
Com extrema delicadeza, ele levou a mão ao braço dela. Era um gesto contido, respeitoso até demais para a intensidade do que sentiam. Ainda assim, bastou para romper o último limite invisível que os separava.
Naquele pequeno banheiro, o mundo pareceu desaparecer. Restaram apenas a respiração ofegante, o calor dos corpos e uma urgência que dispensava qualquer explicação. A porta permaneceu fechada. Do lado de fora, o tempo continuou seguindo seu curso. Ali dentro, entretanto, deixou de existir.
Amaram-se naquele espaço exíguo como dois adolescentes descobrindo o amor pela primeira vez, esquecidos do mundo e dos julgamentos que poderiam existir além daquelas paredes.
***
Mais tarde, ao deixarem o prédio, nenhum dos dois comentou o que havia acontecido. Não por arrependimento, mas porque certos acontecimentos ultrapassam o campo das palavras.
Sarah caminhava em silêncio. Edson também. Ambos sabiam que, a partir daquele instante, já não se tratava apenas de uma escolha. Tratava-se das consequências.
O retorno ao escritório foi silencioso demais para ser confortável.
Sarah caminhava alguns passos à frente, mantendo o ritmo firme, quase calculado. Edson percebia nela um esforço evidente para recuperar o controle — não do ambiente, mas de si mesma.
No elevador, nenhuma palavra foi dita. Apenas o reflexo dos dois no espelho revelava o que ainda permanecia escondido sob a superfície: o rubor discreto no rosto, os olhares que se evitavam por medo de revelarem mais do que deveriam. Quando as portas se abriram no décimo primeiro andar, Sarah respirou profundamente antes de sair.
— Precisamos... — começou, interrompendo a própria frase.
Edson aguardou.
— Precisamos manter isso em absoluto sigilo. O que aconteceu não pode interferir no nosso trabalho.
— Concordo. Mas fingir que nada aconteceu não será fácil.
Ela parou por um instante no corredor vazio.
— Eu sei. E é justamente isso que mais me inquieta.
Entrou em sua sala e fechou a porta. Sozinha, apoiou as mãos sobre a mesa, sentindo o peso tardio da própria decisão. Não era culpa. Tampouco arrependimento. Era algo mais perigoso: reconhecimento.
Durante anos controlara desejos, emoções e escolhas. Construíra uma carreira sólida justamente por saber estabelecer limites. Ainda assim, naquele pequeno banheiro de uma kitnet que sequer lhe pertencia, perdera a capacidade de contê-los.
Sentou-se lentamente. "Isso muda tudo."
Não porque destruísse sua vida, mas porque lhe revelava uma verdade incômoda: ela havia organizado a existência com tanta perfeição que já não havia espaço para viver plenamente.
Do outro lado da porta, Edson permaneceu alguns segundos parado antes de seguir para sua mesa.
Sabia que aquilo não fora apenas um impulso. Sentia, com uma clareza desconfortável, que ambos haviam entrado numa rota de colisão — não apenas com o trabalho, mas consigo mesmos.
Horas depois, Sarah voltou a observá-lo discretamente. Ele parecia concentrado, sereno. E aquela serenidade a perturbava mais do que qualquer sentimento de culpa. Desviou o olhar.
O que acontecera no quinto andar não ficara naquele banheiro. Agora habitava dentro dela.
***
A tarde seguia comum demais para despertar suspeitas.
Telefones tocavam, impressoras trabalhavam sem descanso e funcionários cruzavam os corredores como em qualquer outro dia. Sarah revisava um processo quando percebeu.
Helena parada à porta.
— Posso?
— Claro.
Helena entrou, sentou-se calmamente e folheou alguns documentos antes de erguer os olhos.
— O Edson Falcão está se adaptando muito bem.
— Sim. É extremamente competente.
— Não foi isso que me chamou a atenção.
Sarah permaneceu impassível.
— Então o que foi?
Helena cruzou as pernas.
— A maneira como você olha para ele quando acredita que ninguém está percebendo.
O ar pareceu desaparecer da sala.
— Você está enganada.
— Talvez. Mas trabalho com pessoas há tempo suficiente para reconhecer quando alguma coisa saiu do lugar.
Fez-se um breve silêncio.
— Não estou acusando você de nada. Apenas quero alertá-la. Relações assimétricas costumam cobrar um preço muito alto.
Sarah apenas assentiu.
— Obrigada pela preocupação. Helena levantou-se.
— Espero que esteja certa. Porque, quando o escritório começa a perceber, o mundo lá fora não demora a perceber também.
Quando a porta se fechou, Sarah permaneceu imóvel. O que a assustava não era um possível escândalo. Era perceber que já não conseguia esconder o que sentia.
Do outro lado do salão, Edson percebeu o breve olhar dela. Foi rápido. Instintivo. Perigoso. Ele desviou primeiro.
Naquele instante, ambos compreenderam que haviam atravessado uma fronteira invisível. Já não estavam sozinhos naquele segredo. E, dali em diante, cada gesto precisaria ser cuidadosamente calculado — não para negar o que sentiam, mas para proteger algo que começava a ser ameaçado.
***
Helena havia encontrado o candidato perfeito para criar uma cortina de fumaça e solucionar um problema.
Satisfeita com a descoberta, pegou o telefone e fez uma ligação. A chamada só foi atendida no quinto toque.
— O que é tão urgente para ligar na minha linha pessoal? — perguntou a voz do outro lado.
— Perdoe-me pela inconveniência, mas encontrei o candidato ideal para resolver o nosso problema no porto. É jovem, mora no litoral e possui exatamente o perfil de que precisamos.
— E não corre o risco de se tornar um problema para nós?
Helena sorriu discretamente.
— Pelo contrário. Está conosco há apenas quinze dias. É um excelente advogado. Um tanto caxias, é verdade... justamente por isso é perfeito. Ninguém desconfia de quem acredita estar fazendo a coisa certa. Vamos colocá-lo à frente da liberação da carga retida em Santos. Enquanto todos estiverem olhando para ele, ninguém perceberá o que realmente acontece dentro deste escritório.
O silêncio permaneceu por alguns segundos.
— Precisamos de soluções rápidas. E quanto à escritora? O desaparecimento já começa a complicar as coisas. Estou acompanhando as investigações. Por enquanto a polícia mantém tudo em absoluto sigilo, mas isso não vai durar. Quando a notícia vier à tona, a imprensa vai transformar o caso em manchete.
Helena respondeu sem qualquer emoção:
— A escritora deixou de ser uma pessoa há muito tempo. Agora é apenas uma variável. E variáveis podem ser controladas.
Houve uma breve pausa.
— Em poucos dias, ninguém mais estará falando dela. Todas as atenções estarão voltadas para o porto de Santos.
Sua voz tornou-se ainda mais fria.
— E, quando isso acontecer... será tarde demais para perceberem quem realmente movia as peças.
CONTINUA…