Na manhã seguinte, Edson acordou cedo. Tomou um banho revigorante, saboreou um café da manhã caprichado e vestiu seu melhor terno.
Diante do espelho, ajustou a gravata e conferiu os documentos que levaria consigo. Era uma oportunidade importante. Talvez a mais importante de sua vida até aquele momento.
Respirou fundo, deixou o hotel e seguiu para o endereço anotado em sua agenda eletrônica.
Para evitar qualquer atraso, digitou o destino no Google Maps e acionou o sistema de navegação. Durante todo o percurso, acompanhou atentamente as instruções do GPS.
Ao chegar à Alameda Santos Corporation, observou o edifício de dez andares revestido por vidro fumê e aço escovado. A imponência da construção transmitia a mesma imagem de solidez e prestígio que o escritório cultivava no meio jurídico. O escritório ocupava todo o nono pavimento.
Edson entrou no edifício, identificou-se na recepção e seguiu para o elevador. Poucos instantes depois, as portas se abriram silenciosamente. Uma recepcionista o aguardava e o conduziu até a sala da entrevistadora.
Ao entrar, encontrou Sarah de pé, diante da ampla janela, observando a cidade. Parecia esperá-lo havia mais tempo do que admitiria.
Ela se virou com naturalidade e o avaliou em silêncio durante alguns segundos.
— Senhor Edson Falcão — disse, com voz calma. — Pode entrar.
Ele aproximou-se.
O aperto de mãos foi breve e profissional. Ainda assim, Edson percebeu o calor inesperado daquele gesto simples.
— Obrigado por me receber, doutora.
— Prefiro que me chame de Sarah — respondeu ela, acomodando-se à mesa. — Ao menos durante esta conversa.
Ela indicou a poltrona à sua frente.
Edson sentou-se. Não se sentia observado apenas como um candidato. Havia algo no olhar dela que parecia buscar mais do que qualificações profissionais.
Sarah abriu a pasta com seu currículo.
— Seu histórico acadêmico é excelente. Também recebi ótimas referências sobre seu trabalho no litoral. Mas quero conhecê-lo além do papel.
A entrevista seguiu por caminhos pouco convencionais. Ela perguntou como ele lidava com a pressão. Como reagia diante de conflitos éticos. Que tipo de advogado desejava se tornar.
Edson respondeu sem recorrer a discursos prontos. Falou sobre justiça, responsabilidade e sobre o desejo de construir um escritório que fosse reconhecido não apenas pelas vitórias, mas pela integridade.
Sarah ouviu cada resposta com atenção. Só depois perguntou sobre sua família.
Edson contou que era filho único e que seus pais haviam falecido havia alguns anos. Falou das dificuldades que enfrentara, dos sonhos que ainda cultivava e da vontade de construir uma carreira sólida em São Paulo.
A conversa durou pouco mais de uma hora. Quando deixou a sala, Edson não sabia dizer se havia ido bem ou mal. Agradeceu pela oportunidade e retornou ao hotel. Como ainda tinha alguns dias antes de voltar ao litoral, decidiu permanecer em São Paulo até sexta-feira. Se não recebesse nenhuma resposta até lá, entenderia que a vaga ficara para outro candidato.
Três dias depois, seu celular vibrou. Era uma mensagem de Sarah. Ela o convidava para um café naquela mesma tarde. Edson aceitou imediatamente. Ela enviou o endereço e o horário.
***
O café ficava a poucas quadras do hotel. Luz baixa, mesas de madeira, aroma de café recém-passado e o murmúrio discreto das conversas criavam um ambiente acolhedor.
Sarah já o aguardava junto à janela. Vestia-se de forma simples, muito diferente da postura impecavelmente formal que mantinha no escritório. Levantou-se ao vê-lo chegar.
— Obrigada por vir.
— Eu não teria recusado.
Sentaram-se.
Por alguns instantes, apenas observaram o movimento da rua. Era curioso como o silêncio entre eles parecia confortável.
— Aqui é diferente — disse Sarah. — No escritório, tudo exige defesa. Aqui... posso simplesmente conversar.
— E o que espera ouvir?
Ela sustentou seu olhar.
— A verdade.
Edson levou a xícara aos lábios.
— A verdade é que vim para São Paulo buscando uma oportunidade profissional... mas não esperava encontrar alguém capaz de mudar meus pensamentos.
Sarah desviou os olhos por um instante. Quando voltou a encará-lo, havia uma inquietação que ela mesma parecia não compreender.
— Era exatamente isso que eu temia.
Fez uma breve pausa.
— E, ao mesmo tempo... foi isso que me trouxe até aqui.
O silêncio voltou. Não era constrangedor. Era apenas necessário. Ao se despedirem, caminharam juntos até a porta do café. Por um breve instante, ambos pareceram hesitar. O impulso de um abraço. Mas nenhum dos dois deu o primeiro passo. Trocaram apenas um sorriso. Foi suficiente. Antes que Edson se afastasse,
Sarah respirou fundo.
— Há mais uma coisa.
Ele voltou-se.
— A vaga é sua.
Edson permaneceu imóvel durante alguns segundos.
— Fui contratado?
Ela assentiu.
— Sim. Seja bem-vindo à Alameda Santos Corporation.
Um sorriso discreto surgiu em seu rosto.
— Obrigado. Prometo corresponder à confiança.
— Na segunda-feira seu nome já estará oficialmente no sistema da empresa. Depois trataremos dos detalhes administrativos.
Eles se despediram.
Enquanto caminhava de volta ao hotel, Edson percebeu que aquela viagem mudara muito mais do que seus planos profissionais.
***
Na segunda-feira, seu nome foi oficialmente incluído no sistema do escritório. A notícia foi recebida com naturalidade pelos demais advogados. Afinal, seu currículo justificava plenamente a contratação.
Sarah fez questão de manter absoluta formalidade.
— Senhor Edson, seja bem-vindo à equipe.
— Obrigado, doutora.
Diante dos colegas, eram apenas sócia e advogado recém-contratado. Fora dali, porém, existia algo silencioso crescendo entre ambos. Os encontros passaram a acontecer naturalmente. Um café depois do expediente. Uma caminhada curta até o estacionamento. Conversas rápidas que sempre terminavam mais tarde do que planejavam. Sempre havia um motivo profissional. Sempre havia um motivo que nenhum dos dois admitia.
Com o passar das semanas, Sarah percebeu pequenas mudanças em si mesma. Passou a deixar o escritório um pouco mais cedo em alguns dias. As roupas perderam parte da rigidez habitual. Os sorrisos tornaram-se mais frequentes.
Edson, por sua vez, aprendeu a compreender seus silêncios. Sabia quando conversar. Sabia quando apenas permanecer ao seu lado era suficiente. Certa noite, permaneceram até tarde revisando um processo complexo. O edifício estava quase vazio. As luzes da cidade refletiam nas grandes janelas do escritório. Sarah fechou um dos processos.
— Às vezes penso que organizei tanto minha vida... que deixei pouco espaço para o inesperado.
Edson fechou lentamente a pasta diante de si.
— O inesperado nem sempre chega para destruir o que existe.
Ela ergueu os olhos.
— Às vezes, ele chega para mostrar que havia algo faltando.
Sarah permaneceu em silêncio.
— Isso me assusta.
— Também me assusta.
Ele sorriu discretamente.
— Mas não me faz querer ir embora.
Ela caminhou até a janela. Por alguns instantes, observou apenas as luzes da cidade.
— Não quero ultrapassar limites.
Edson aproximou-se apenas o suficiente para que ela percebesse sua presença.
— Então não vamos ultrapassá-los.
Ela voltou-se para ele.
— Caminhemos ao lado deles... até sabermos qual é o caminho certo.
Sarah sorriu. Um sorriso pequeno. Sincero. Naquela noite despediram-se como sempre. Sem abraços. Sem promessas. Sem declarações. Ainda assim, ambos compreenderam que alguns sentimentos não nascem de grandes gestos. Nascem da escolha silenciosa de permanecer. E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois desejava fugir daquilo que começava.
Continua…