Edson Falcão chegou a São Paulo por volta da hora do almoço. Como a entrevista só aconteceria no dia seguinte, hospedou-se em um hotel na Alameda Jaú. O quarto era simples, localizado no terceiro andar. Foi até a sacada e observou o movimento da rua por alguns minutos. Pediu o almoço no quarto e, depois de comer, adormeceu. Dormiu até o final da tarde.
Ao acordar, tomou um banho demorado e leu alguns capítulos de um romance policial que carregava na bagagem. Às sete da noite, saiu para caminhar. Seguiu em direção à Avenida Paulista, apreciando o ritmo intenso da cidade.
Os prédios iluminados, o trânsito constante e a multidão de desconhecidos criavam uma energia completamente diferente daquela à qual estava acostumado. Depois de caminhar por algum tempo, entrou em um restaurante alemão. Pediu um chop bem gelado e um joelho de porco.
Enquanto aguardava o pedido, observou os demais clientes e o vai e vem dos garçons. São Paulo parecia ter vida própria.
Por volta das dez da noite, retornou ao hotel. Assistiu um pouco de televisão antes de dormir.
***
Horas depois, já não havia mar. O cheiro de sal fora substituído pelo concreto quente e pelo eco distante da cidade.
Niele abriu os olhos dentro do próprio carro, no estacionamento do Shopping Tatuapé. Na mesma vaga. A mesma iluminação fria. O painel marcava 22h47. Como se nada tivesse acontecido.
Levou a mão à cabeça. Nenhuma dor. Nenhuma marca visível. No banco do passageiro, sua bolsa permanecia intacta. O celular estava ali. Sem mensagens novas. Sem chamadas desconhecidas.
Um lapso. Era isso que esperavam que ela acreditasse. No entanto, quando ligou o carro, algo caiu no assoalho. Um envelope. Sem remetente. Sem selo. Apenas seu nome escrito à mão. Seu coração acelerou.
Ela não o abriu ali. Dirigiu para casa com as mãos firmes no volante, mas com a mente em chamas. Eles queriam que ela esquecesse. Que voltasse à rotina. Que acreditasse que não tinha nada a oferecer. Talvez estivessem certos. Talvez ela realmente não soubesse quem enviara os documentos. Mas alguém sabia. E alguém ainda estava disposto a se comunicar.
Ao estacionar em frente ao prédio, Niele encarou o envelope por longos segundos. Não era medo o que sentia agora. Era outra coisa. Determinação. Se haviam tentado tirá-la de circulação, era porque o que escrevera importava. Talvez ela não fosse investigadora. Talvez tivesse sido apenas uma intermediária. Mas a história não morreria ali. Ela sairia da ficção. Desta vez, não como romance. Mas como verdade.
Niele pegou o envelope. E sorriu pela primeira vez desde que acordara no contêiner.
— Vocês escolheram a pessoa errada para mandar esquecer.
Niele mal acabara de pronunciar aquelas palavras quando percebeu uma presença se aproximando. Não teve tempo de reagir. Uma mão cobriu sua boca. Logo em seguida, sentiu uma leve picada no braço. Tentou se debater. Tentou gritar. Mas tudo escureceu.
O homem a retirou do banco do motorista e a colocou no porta-malas do próprio carro. Em seguida, assumiu a direção e deixando o local , com calma, como um morador o faria.
À distância, um observador acompanhava tudo sob as ordens de Pablo. Assim que viu o veículo sair, pegou o celular e ligou enquanto passava a segui-lo discretamente.
Pablo atendeu no terceiro toque.
— Fala, Montanha.
— Senhor, eu a estava observando à distância, conforme sua orientação. Apareceu um grandalhão, dominou a moça, colocou-a no porta-malas e saiu dirigindo o carro dela. O que eu faço?
— Siga o veículo e descubra do que se trata. Vá me mantendo informado.
— Entendido. Estou na cola dele.
Pablo desligou.
Algo naquela situação não fazia sentido. Os homens de Vargas não costumavam agir daquele jeito. E, se não eram homens de Vargas, a pergunta era ainda pior:
Quem havia sequestrado Niele?
CONTINUA…
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Não deixem de ler o Capítulo 5 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
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Boa leitura!