FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


A dor na cabeça diminuiu tão rápido quanto veio.

Nenhum projeto. Nenhum acordo. Só papel. Palavras, pesquisa. O homem de terno permaneceu em silêncio por alguns segundos, estudando cada microexpressão dela.

— Você realmente não entende, não é? — disse, por fim.

— Entender o quê?

Ele caminhou até a mesa e pegou outro objeto. Um exemplar do livro. Capa preta. Letras brancas.

O SILÊNCIO DAS ESTRUTURAS.

O ar pareceu rarefeito.

— Meu livro? — a voz dela saiu quase num sussurro.

Ele colocou o exemplar diante dela.

— Não é “apenas” um livro, Niele.

Ela sentiu o coração acelerar. Aquela obra havia sido fruto de dois anos de digitação… pesquisas em jornais. Documentos recebidos via email. Matérias deixados anonimamente deixados em sua caixa de correio.

Ela denunciava falhas estruturais em grandes obras públicas. Desvios de verba. Laudos manipulados. Relatórios técnicos ignorados.

Mas nada que justificasse um sequestro em alto-mar. Ou justificava?

— Você expôs conexões que nem mesmo sabia que estava expondo — continuou ele.

— Eu escrevi sobre corrupção em contratos de infraestrutura. Isso não é novidade no país.

O homem inclinou levemente a cabeça.

— Não. Mas a forma como você conectou empresas, contratos e datas… foi.

Ele tocou no monitor. Um diagrama apareceu: nomes de construtoras, subsidiárias, fundos de investimento. Linhas vermelhas cruzando tudo como uma teia.

— Você identificou um padrão.

Ela observou a imagem. Algumas daquelas empresas ela reconhecia das próprias pesquisas.

— Isso é público — insistiu.

— Separadamente, sim. Mas quando organizadas… revelam algo maior.

Ele ampliou uma das conexões. Um nome surgiu na tela. Ela arregalou os olhos. Era o de uma figura pública — alguém intocável. Poderoso demais para ser apenas citado.

— Eu nunca escrevi esse nome — disse, firme.

— Não diretamente.

Ele a encarou.

— Mas quem sabe ler estruturas… sabe o que está nas entrelinhas.

O silêncio tomou a sala. O navio continuava cortando o mar.

— Então eu fui sequestrada por causa de um livro? — ela perguntou, incrédula.

— Você foi retirada de circulação.

A escolha das palavras foi precisa.

— Seu livro está sendo analisado por gente que entende o que você fez. E há quem acredite que você sabe mais do que publicou.

— Eu não sei.

Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos.

— Talvez saiba.

O estômago dela revirou.

— Estão tentando me fazer lembrar de algo que eu não vivi?

— Não.

Ele se aproximou levemente.

— Estão tentando descobrir se você percebeu o que escreveu.

O impacto da frase foi mais forte do que qualquer ameaça. Ela pensou nas noites em claro, nos arquivos cruzados, nas planilhas que organizava quase por obsessão. E se, ao montar aquele quebra-cabeça, tivesse revelado algo que nem ela mesma compreendeu totalmente?

— E você? — ela perguntou. — De que lado está?

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.

— Do lado que prefere estruturas de pé.

O motor do navio vibrou mais forte, como se pontuasse a tensão.

— Enquanto estivermos em águas internacionais, você está fora do alcance imediato deles. Mas isso não vai durar.

Ela sentiu o peso da situação finalmente se instalar.

— O que acontece agora?

Ele fechou o livro com cuidado.

— Agora, Niele… você vai reler a própria obra.

Ele deslizou o exemplar novamente para ela.

— E vai me dizer o que deixou passar.

A sala pareceu menor. O mar, mais vasto. E pela primeira vez, Niele teve medo não do que haviam feito com ela — Mas do que ela poderia ter descoberto sem perceber. Niele segurou o livro por alguns segundos. Os dedos tremiam levemente. Ela não abriu.

— Eu preciso dizer uma coisa.

O homem permaneceu imóvel.

— Eu não fiz nenhuma grande investigação.

O silêncio mudou de temperatura.

— Explique.

Ela engoliu seco.

— Eu não cruzei dados secretos. Não descobri padrão nenhum. Não invadi sistema nenhum.

Ele não piscava.

— As informações chegaram até mim.

Uma pequena ruga surgiu entre as sobrancelhas dele.

— Como?

— E-mails anônimos. Um pen drive deixado na minha caixa de correio. Depois cartas. Sempre sem remetente.

Ela respirou fundo.

— Tudo começou com um dossiê sobre um assassinato não resolvido.

O homem inclinou levemente a cabeça.

— Que assassinato?

— Oficialmente, foi tratado como acidente estrutural. Queda em uma obra. Falha técnica. Mas os documentos que recebi mostravam outra coisa.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— O engenheiro responsável pela auditoria da obra estava prestes a divulgar um relatório interno. Ele morreu dois dias antes.

O homem cruzou os braços.

— E você decidiu transformar isso em romance?

— Eu sou escritora — respondeu, firme. — Se publicasse como denúncia direta, seria processada antes da primeira entrevista. Eu só… traduzi tudo em ficção.

Ela bateu levemente na capa do livro.

— Troquei nomes. Alterei cidades. Mudei datas. Mas as estruturas… eram reais.

O olhar dele endureceu.

— Você entende o que isso significa?

Ela sentiu o peso da pergunta.

— Significa que alguém usou você — ele continuou. — Alguém que tinha acesso a documentos internos e precisava que as informações viessem à tona sem deixar rastros.

O estômago dela afundou.

— Eu nunca soube quem enviava.

— Mas continuou publicando.

— Porque cada novo pacote trazia mais peças. Contratos. Relatórios. Fotografias. Gravações.

A respiração dele ficou mais lenta.

— Então você não revelou um padrão por inteligência investigativa.

— Não.

Ela o encarou.

— Eu só organizei o que me deram.

O homem caminhou até o monitor e tocou na tela. A imagem do engenheiro apareceu — foto de crachá, expressão séria.

— O nome dele era Rafael Arantes.

O coração dela disparou. Ela nunca usara o nome real no livro.

— Você sabia? — ele perguntou.

Ela balançou a cabeça, devagar.

— No material que recebi, o nome estava oculto. Só havia iniciais.

Ele voltou-se para ela.

— Então deixe-me esclarecer algo para você, Niele.

A voz dele agora não tinha ironia.

— Rafael Arantes não morreu em um acidente.

O ar pareceu congelar.

— Ele foi executado.

O som distante do mar batendo contra o casco ecoou como um tambor fúnebre.

— E você — ele continuou — publicou detalhes da auditoria que apenas três pessoas vivas conheciam.

O mundo pareceu estreitar ao redor dela.

— Eu não sabia…

— Exatamente.

Silêncio.

— Quem quer que tenha enviado aquelas informações a você, sabia que, ao transformá-las em romance, você criaria algo impossível de silenciar sem chamar atenção.

Ela sentiu a dimensão do que havia feito.

— Então eu não fui sequestrada por causa do que descobri…

Ele a encarou.

— Você foi trazida para cá porque alguém acredita que você sabe quem está por trás dos envios.

O coração dela martelava no peito.

— E eu não sei.

— Eles não têm essa certeza.

O homem se aproximou lentamente.

— A pergunta é: você realmente nunca tentou descobrir?

A memória dela vacilou. Um e-mail que quase rastreou. Um IP estrangeiro. Uma tentativa interrompida por uma falha no computador. Ou teria sido falha mesmo? Ela levantou os olhos para ele. E, pela primeira vez, não teve certeza absoluta de nada.

A sala ficou em silêncio por longos segundos. O homem de terno fechou a pasta devagar.

— Se o que você diz é verdade… — começou ele — então você não tem nada a nos oferecer.

A frase foi dita sem raiva. Sem ameaça. Apenas constatação. Niele sustentou o olhar.

— Eu já disse tudo o que sei.

Ele a observou como se procurasse uma última fissura. Não encontrou. Fez um gesto breve para o homem das cicatrizes.

— Preparem a transferência.

O coração dela acelerou.

— Transferência?

— Você vai voltar para São Paulo.

A resposta veio simples demais.

— Assim? — ela perguntou, desconfiada.

— Você não é o que pensávamos.

Ele se aproximou apenas o suficiente para que a voz fosse baixa.

— E, por sua própria segurança, é melhor que esqueça que este encontro aconteceu.

O motor do navio continuava vibrando sob seus pés.

— Esquecer não é tão simples.

Ele segurou o olhar dela.

— Às vezes é uma questão de sobrevivência .

***

Tão logo Niele foi retirada do navio, Pablo caminhou até a popa e tirou o celular do bolso.

O mar estava escuro. O vento carregava o cheiro de sal e combustível. A ligação foi atendida no primeiro toque.

— Ela não sabe de tudo. Foi usada por alguém — disse Pablo.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Você tem certeza? — perguntou a voz do outro lado.

— Tenho. Se ela estiver mentindo, é a melhor atriz que já vi.

— Então mantenha a vigilância.

Pablo estreitou os olhos.

— Vinte e quatro horas.

— Vinte e quatro horas por dia. Quero saber para onde ela vai, com quem fala e o que procura.

— Entendido.

— E, Pablo...

— Sim?

A voz ficou mais fria.

— Se alguém voltar a procurá-la antes de nós descobrirmos quem está por trás dos envios, teremos um problema.

— Não vai acontecer.

— Espero que não.

A ligação foi encerrada. Pablo guardou o aparelho e ficou observando a escuridão do oceano. Por alguns segundos, permaneceu imóvel. Então retirou do bolso interno do paletó uma fotografia antiga.

Nela, apareciam Rafael Arantes e uma mulher sorrindo diante de uma obra ainda em construção.

Pablo encarou a imagem.

— O que foi que você descobriu, Rafael?— murmurou.

O vento quase levou suas palavras. Mas, quando se preparava para guardar a fotografia, algo chamou sua atenção. No canto inferior da imagem havia uma anotação feita à mão. Uma data e um nome. O nome estava parcialmente apagado pelo tempo, mas ainda podia ser lido. Niele.

Pela primeira vez naquela noite, Pablo sentiu um desconforto percorrer sua espinha. Ele voltou a olhar para o rosto sorridente de Rafael. Então compreendeu uma possibilidade que não havia considerado. Talvez Niele estivesse dizendo a verdade. Talvez ela realmente não soubesse de nada. Mas talvez Rafael soubesse quem ela era muito antes de ela receber o primeiro envelope.

Pablo guardou a fotografia lentamente. O mar continuava escuro. O navio avançava pela noite. E, pela primeira vez, a pergunta deixou de ser quem estava enviando as informações. A pergunta passou a ser:

Por que Rafael Arantes escolheu Niele?

Sem resposta. Por enquanto.

CONTINUA….

—//—

Não deixem de ler o Capítulo 4 da série policial O Silêncio das Estruturas.

Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.

Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.

Boa leitura!

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 12/06/2026
Alterado em 29/06/2026
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