A porta se fechou atrás dela com um som seco.
O ambiente era diferente do restante do navio. Não havia ferrugem aparente, nem cheiro forte de óleo. Era uma sala adaptada — limpa demais para um cargueiro. Uma mesa metálica fixada ao chão, dois assentos e, ao fundo, um painel com monitores exibindo mapas náuticos e coordenadas em constante atualização.
E ele. De pé, próximo à mesa. Terno escuro impecável, mesmo em alto-mar. Gravata discreta. Cabelos grisalhos penteados com precisão. Postura de quem está acostumado a ser obedecido sem repetir ordens.
O homem que a acompanhava fechou a porta e permaneceu ao lado, em silêncio.
O desconhecido se aproximou lentamente.
— Niele…
Ele pronunciou seu nome com familiaridade calculada.
— Sente-se.
Não era um pedido. Ela permaneceu de pé por alguns segundos, sustentando o olhar dele. Havia algo naquela presença — não arrogância, mas poder. Um poder silencioso. Ainda assim, sentou-se.
— Quem é você? — perguntou.
Ele ignorou a pergunta.
— Você está segura aqui.
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
— Eu acordei dentro de um contêiner num navio cargueiro no meio do mar. Isso não parece exatamente seguro.
Um leve sorriso surgiu no rosto dele.
— Segurança, às vezes, exige desconforto.
Ele tocou em um dos monitores. Um mapa ampliou-se. Coordenadas. Rotas marítimas. Uma linha vermelha marcando o trajeto do navio.
— Oficialmente, este navio transporta máquinas industriais. Extraoficialmente… ele transporta você.
O coração dela acelerou.
— Por quê?
Ele finalmente a encarou diretamente.
— Porque alguém muito poderoso decidiu que você precisa desaparecer.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Isso não faz sentido. Eu não sou ninguém importante.
— É aí que você está enganada.
Ele caminhou até a mesa e deslizou uma pasta fina na direção dela.
A pasta trazia um dossiê completo sobre a vida de Niele.
Entre os documentos, havia fotografias de uma criança que ela não reconhecia. Em uma delas, uma legenda chamava sua atenção:
Rafael. Ao lado, a data de nascimento.
Niele fez as contas rapidamente. Se aquelas informações estivessem corretas, o garoto teria hoje cerca de vinte e três anos.
Com as mãos trêmulas, virou a página. Descobriu que havia morado nos Estados Unidos no final da década de 1990 e retornado ao Brasil em meados de 2004. Havia registros de endereços, empregos, viagens, contas bancárias e até prontuários médicos.
Aquelas páginas contavam toda a sua história. Ou, pelo menos, uma história que deveria ser sua. O problema era que ela não se lembrava de grande parte daquilo.
Tudo o que sabia era que havia se casado com Agnaldo em 2006. Juntos tiveram uma filha e construíram uma vida aparentemente normal. Mas os seis anos anteriores ao casamento eram um enorme vazio em sua memória. Um buraco escuro. Um trecho inteiro de sua existência parecia ter sido arrancado de sua mente.
Niele voltou à fotografia do menino. Rafael. Seu coração disparou. Como era possível uma mãe esquecer que tinha tido um filho? E, se aquele garoto era realmente seu filho, por que ninguém jamais havia mencionado sua existência?
Pela primeira vez, ela começou a suspeitar que alguém estava escondendo a verdade.
Nas páginas finais da pasta, havia outras fotografias mais atuais. Imagens dela entrando no Shopping Tatuapé. Conversando com pessoas que não lembrava. Um prédio que não reconhecia. Uma sala branca.
A mesma sala que havia piscado em sua memória.
— Você participou de algo — continuou ele. — Algo que não deveria lembrar.
A respiração dela ficou mais curta.
— Eu nunca estive nesses lugares.
— Este é exatamente o problema.
Ele fechou a pasta com calma.
— Há três dias, você tentou nos procurar.
O mundo pareceu inclinar.
— O quê?
— Você pediu proteção.
A palavra ecoou na mente dela.
Proteção.
— De quem?
O homem fez um gesto discreto. Um dos monitores mudou para uma imagem granulada de segurança.
Dois homens de terno preto no estacionamento.
Ela sentiu o estômago gelar.
— Quem os enviou? – ela perguntou, incisiva.
O homem manteve o olhar fixo nela por um segundo a mais do que o confortável.
— Alguém que ocupa um dos cargos mais altos do país.
O som dos motores pareceu crescer, vibrando pelas paredes.
— Um homem que não pode se dar ao luxo de ter você viva… caso recupere totalmente a memória.
O silêncio caiu como uma sentença.
Niele sentiu que o chão sob seus pés havia deixado de existir.
— Então por que você está me ajudando?
Ele se aproximou levemente.
— Porque o que você sabe pode mudar tudo...
Uma pausa.
— E porque, Niele… você já trabalhou para nós.
O ar pareceu faltar.
Ela abriu a boca para argumentar— mas uma dor aguda atravessou sua cabeça. E então, como um relâmpago, a lembrança veio.
Uma assinatura. Um acordo. E o nome de um projeto. Projeto Ícaro.
CONTINUA….
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Não deixem de ler o Capítulo 3 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
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Boa leitura!