Niele manteve os olhos fechados. O corpo imóvel. A respiração lenta. Regular. Fingida. Mas por dentro, sua mente corria.
A última lembrança vinha em flashes desconexos, era do estacionamento do Shopping Tatuapé.
Luzes frias refletindo na lataria dos carros. O eco distante de passos. O clique do alarme do seu veículo. E então — dois homens usando ternos pretos. Camisas impecáveis. Gravatas escuras demais para aquela hora. Um deles a chamou pelo nome. Ela lembrava do susto. Lembrava do pano. Do cheiro adocicado. Depois… vazio.
O rangido metálico da porta a trouxe de volta ao presente.
Alguém entrou no contêiner. Passos firmes. Não apressados. O som pesado das botas contra o piso de metal. Ele parou por um instante— como se a observasse.
Niele conteve o impulso de enrijecer. Silêncio. Então o homem falou, a voz grave e controlada:
— Já pode parar de fingir.
O coração dela quase denunciou sua consciência. Mesmo assim, não reagiu. Os passos se aproximaram. Ela sentiu a sombra dele sobre seu corpo. O cheiro não era de perfume caro como o dos homens do estacionamento. Era sal, tabaco e algo metálico. Ele se agachou.
— Você não foi dopada o suficiente para continuar desacordada por tanto tempo.
Ela abriu os olhos devagar. O homem não era nenhum dos dois do estacionamento do shopping.
Era mais velho. O rosto marcado pelo sol e pelo vento. Não usava terno — vestia uma camisa escura, as mangas dobradas até os antebraços, revelando uma cicatriz longa e antiga. Mas o que mais a fez gelar foi o olhar. Ele não parecia um sequestrador comum. Parecia alguém que a conhecia.
— Onde eu estou? — a voz dela saiu mais fraca do que gostaria.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Mais perto da verdade do que você imagina.
Ela sentou devagar, sustentando o olhar dele.
— Eu não sei do que você está falando.
Um quase sorriso surgiu no rosto do homem.
— Sabe sim, Niele. Só ainda não se lembra.
O motor do navio rugiu mais forte, como se pontuasse a frase. E, naquele instante, algo se moveu dentro dela — não uma lembrança clara, mas uma sensação antiga. Como se aquela não fosse a primeira vez que acordava em um lugar onde não deveria estar.
O homem sustentou o olhar dela por mais alguns segundos, como se medisse cada reação. Então se levantou.
— Alguém quer falar com você.
A frase caiu seca no ar. Niele sentiu um frio percorrer a espinha.
— Quem? — perguntou, tentando manter a voz firme.
Ele não respondeu de imediato. Apenas fez um gesto discreto com a cabeça em direção à porta.
— É melhor você me acompanhar.
Ela avaliou rapidamente as possibilidades. Fugir? Impossível. Gritar? Inútil. Estavam em alto-mar. Sozinha.
— Eu não vou a lugar nenhum sem saber o que está acontecendo.
O homem suspirou, como quem lida com uma criança teimosa.
— Você realmente não se lembra de nada?
A pergunta ficou suspensa entre eles. Por um segundo, algo vacilou dentro dela. Uma imagem rápida: uma sala branca. Um monitor piscando. A própria voz dizendo algo que não conseguia compreender. Piscou. A visão desapareceu.
— Não — respondeu, mais ríspida do que pretendia.
Ele a observou como se esperasse exatamente essa resposta.
— Então talvez esteja na hora de lembrar.
O navio balançou levemente, fazendo o metal vibrar sob seus pés. Ele deu dois passos em direção à porta e parou.
— Se eu quisesse te machucar, você nem teria acordado.
Era uma verdade desconfortável.
Niele se levantou devagar. A tontura já não era tão intensa, mas o corpo ainda estava pesado. Aproximou-se da porta, mantendo certa distância dele.
— Se isso for algum tipo de jogo… — começou.
Ele a interrompeu com um olhar.
— Não é um jogo, Niele. É uma escolha. E você já fez essa escolha antes.
O coração dela falhou uma batida.
Antes? - perguntou ela a si mesma em pensamento.
Ele saiu do contêiner. Depois de um breve instante, ela o seguiu.
Do lado de fora, o vento era mais forte. O céu continuava cinza. O mar se estendia em todas as direções. Já não havia sinal da costa.
Eles caminharam por corredores estreitos entre os contêineres, subiram uma escada metálica e atravessaram o convés. Dois homens armados estavam próximos à entrada de uma área fechada do navio — mas não eram os do estacionamento.
Quando passaram, os homens apenas a observaram. Sem hostilidade. Sem curiosidade.
Como se já a conhecessem. O homem parou diante de uma porta reforçada. Bateu duas vezes. Uma pausa. Depois, abriu. Virou-se para ela.
— Ele está esperando.
O motor do navio parecia mais alto ali, vibrando sob a estrutura.
Niele sentiu que, ao atravessar aquela porta, nada voltaria a ser como antes. Respirou fundo, e entrou.
CONTINUA….
—//—
Não deixem de ler o Capítulo 2 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.
Boa leitura!