O SILÊNCIO DAS ESTRUTURAS - capítulo 2 ( série de contos policial)
Niele despertou com um sobressalto.
O teto baixo, de metal, devolvia um frio que parecia atravessar a pele. O cheiro de ferrugem misturado a óleo queimado impregnava o ar. Ela estava deitada sobre um colchonete fino, áspero, colocado diretamente no chão metálico. A cabeça latejava. A língua, pesada. O corpo, lento demais para obedecer.
- Fui dopada.
A constatação veio antes da memória. Forçou-se a sentar. O mundo girou. As paredes estreitas pareciam se aproximar e se afastar ao mesmo tempo. Respirou fundo, tentando controlar a vertigem. O som grave e constante de motores vibrava sob seus pés — um tremor contínuo, quase imperceptível, mas presente. Ela não estava em terra firme.
Com cuidado, levantou-se e apoiou a mão na parede fria para manter o equilíbrio. À frente, uma porta de metal. Entreaberta.
- Por que deixariam aberta? – perguntou para si mesma.
Aproximou-se devagar. Cada passo ecoava baixo demais, como se o próprio som estivesse sendo engolido pelo aço ao redor. Empurrou a porta com a ponta dos dedos. A luz externa lhe agrediu a visão.
O céu estava encoberto, cinzento, pesado. Fileiras intermináveis de contêineres coloridos formavam corredores estreitos. O vento trazia cheiro de sal e combustível. Ao longe, guindastes gigantes recortavam o horizonte. Ela estava em um porto.
O chão vibrava sob seus pés. Não era só o motor — havia movimento. Um balanço quase imperceptível.
Ela caminhou entre os contêineres, tentando manter a respiração controlada. Subiu alguns degraus metálicos e então viu: água por todos os lados.
Estava em um navio cargueiro. Já estavam navegando.
O coração disparou. Tentou localizar a costa, algum ponto reconhecível. Ao longe, sombras de estruturas portuárias. Aquilo lhe parecia familiar demais.
- Santos? – disse a si mesma.
A tontura voltou com força. Precisava pensar. Precisava de tempo.
Se alguém a tivesse levado até ali, provavelmente estaria esperando que ela acordasse. Ou talvez estivessem observando.
Não, ela não podia demonstrar que já sabia onde estava.
Voltou pelo mesmo caminho, contando os passos, memorizando curvas, portas, escadas. Ao chegar à caixa de metal, deitou-se novamente no colchonete, fechou os olhos e desacelerou a respiração. Fingiu inconsciência.
O motor continuava roncando sob o casco. E, pela primeira vez, o medo deu lugar a algo mais inquietante: um pressentimento. Ela não estava ali por acaso. E muito em breve descobriria o motivo.
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Não deixem de ler o Capítulo 1 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
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Boa leitura!
— Felipe F. Falcão