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Dizem que todo romance começa com um personagem em busca de si mesmo, de uma aventura ou de uma explicação para a própria existência. Edson Falcão, sinceramente, não acreditava nessa baboseira. Para ele, a vida era feita de acasos e ocasos.
Recém-formado em Direito, Edson era apenas um sujeito cheio de sonhos. Não tinha muito — apenas alguns trocados no bolso e, no banco… bem, no banco havia um monte de zeros. No positivo e no negativo. Preferia não comentar.
Morava em um apartamento à beira-mar, herança de família. O pai morrera havia quinze anos; a mãe, cinco. Tinha uma gata — sua alegria diária. Sempre fazia festa quando ele chegava em casa, como se ele fosse alguém importante.
A vida de Edson Falcão era pacata. Estudava, corria no calçadão todas as manhãs. Nada de fantástico, nada de extraordinário. Havia ainda um fundo de investimento que seu pai deixara, do qual ele só podia retirar os rendimentos. O dinheiro estava atrelado a uma condição: ele precisava se formar em Direito e passar na OAB.
Não era muito, mas era suficiente para sobreviver sem sobressaltos.
Estagiava em um escritório de advocacia. O salário não era lá grande coisa — três mil reais. Ainda assim, para ele já dava para mercado, combustível e condomínio. A mesada de vinte mil reais que recebia do fundo deixado pelo pai estava sendo usada na construção do seu próprio escritório.
Dirigia um Corolla 2015, herança da mãe.
Não tinha namorada — quer dizer… até aquele momento.
Até então, a existência de Edson Falcão seguia assim: organizada demais para ser interessante, simples demais para ser invejada. Ele gostava dessa previsibilidade. Ela lhe dava uma falsa sensação de controle, como se nada pudesse sair do eixo.
Naquela manhã, Edson acordou antes do despertador. O mar estava particularmente barulhento — ou talvez fosse apenas sua cabeça procurando ruído onde não havia.
Sua gata, Isabela, dormia estirada sobre o sofá, ignorando solenemente qualquer filosofia existencial que ele estivesse ensaiando.
Edson preparou o café, abriu a janela e deixou o vento salgado entrar sem cerimônia — herança boa aquela, a do vento que não cobrava aluguel.
Correu no calçadão como de costume. As mesmas pessoas, os mesmos passos, os mesmos rostos anônimos fingindo que corriam de algo maior do que o sedentarismo.
Ele corria sem pressa, mais por hábito do que por saúde. O Direito lhe ensinara a argumentar bem, mas não a entender o coração humano — muito menos o próprio.
Voltou para casa, tomou banho e vestiu uma camisa qualquer.
Não tinha audiências. Não precisava assessorar nenhum advogado babaca querendo lhe ensinar o ofício. Não tinha compromissos urgentes. Não tinha ninguém esperando por ele.
Abriu o notebook mais por culpa do que por necessidade e releu alguns currículos enviados na semana anterior. Escritórios grandes exigiam ambição; Edson exigia apenas paz.
Talvez por isso ainda estivesse à margem — confortável, mas à margem.
Foi então que o telefone tocou.
Não era um número conhecido.
Edson pensou em ignorar. Sempre pensava. Mas atendeu.
Do outro lado, uma voz pausada — profissional demais para ser íntima, informal demais para ser protocolar — disse:
— Edson Falcão?
Ouvir o próprio nome completo sempre lhe causava um leve desconforto, como se alguém tivesse acesso a uma parte sua que ele não autorizara.
A ligação durou pouco.
Muito pouco para o estrago que fez.
Edson desligou o telefone e ficou alguns segundos olhando para a tela apagada, tentando encaixar aquela informação em sua vida organizada.
Não combinava.
Não fazia sentido. E, justamente por isso, parecia real demais para ser ignorada.
Foi ali que Edson entendeu — não daquelas formas bonitas que rendem frases de efeito — que a vida não começa quando estamos prontos.
Ela começa quando algo nos tira do lugar confortável onde achávamos que estávamos seguros.
Ele se levantou devagar, pegou as chaves do Corolla e, antes de sair, Isabela finalmente veio até ele, roçando nas suas pernas, como se pressentisse que algo estava prestes a mudar.
Talvez aquele fosse o começo de uma história.
Ou talvez fosse apenas mais um acaso.
Naquele momento, Edson Falcão ainda não sabia.
CONTINUA….
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Não deixem de ler o Capítulo 2 da série policial O Silêncio das Estruturas.
Foi uma grande aventura escrever este romance, repleto de mistérios, segredos e reviravoltas. Espero que a leitura seja tão envolvente para vocês quanto a escrita foi para mim.
Depois da leitura, deixem seus comentários e feedback. A opinião de cada leitor é muito importante e ajuda a tornar esta jornada literária ainda mais especial.
Boa leitura!
— Felipe F. Falcão