FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Na manhã seguinte, o sol nasceu como em qualquer outro dia. Mas nem tudo era igual.

 

Na feira, entre bancas de frutas e vozes altas, Dona Alzira caminhava lentamente. Cumprimentava aqui, observava ali. Esperava… até que, por fim, encontrou.

 

— Dona Célia… que surpresa.

 

A outra mulher sorriu, curiosa.

 

— Dona Alzira! Há quanto tempo…

 

Um silêncio breve. Calculado. Então, como quem não quer nada:

 

— A senhora ainda frequenta a igreja do pastor Pedro, não é?

 

— Frequento, sim… por quê?

 

Alzira inclinou levemente a cabeça.

 

— Nada demais… apenas pensei ter visto a esposa do pastor ontem à noite… pelas redondezas da Rua do Ouvidor. Como é mesmo o nome dela?

 

— Judith… mas não creio… não… a senhora deve ter se confundido.

 

Alzira sorriu. Um sorriso pequeno. Contido.

 

— Talvez eu esteja mesmo. Afinal… à noite, certos enganos acontecem.

 

Fez uma pausa.

 

— Principalmente quando se sai de certos lugares.

Dona Célia franziu a testa.

 

Não disse mais nada.

 

Mas guardou aquilo — como quem reconhece o valor de uma boa história.

 

A semente estava plantada.

***

 

O Rio de Janeiro acordava.

 

Mas, silenciosamente… começava a sussurrar. E o que começa em sussurro… raramente termina em silêncio.

 

Naquela época, uma mulher não era julgada apenas por seus atos, mas por sua reputação. E reputação… era tudo.

 

Nos dias que se seguiram, Judith começou a perceber mudanças sutis. As vizinhas já não a cumprimentavam com o mesmo calor. Algumas cochichavam ao vê-la passar. Outras simplesmente viravam o rosto. Nada era dito abertamente — mas tudo era entendido.

 

Judith sentia o peso daquele julgamento invisível. E, pela primeira vez, percebeu algo cruel: naquela sociedade, o erro de uma mulher não era apenas um erro.

 

Era uma marca.

 

***

Enquanto Judith se tornava o assunto principal entre vizinhas e fiéis da igreja do pastor Pedro, o próprio Pedro também atravessava seu caminho de queda.

 

Os encontros com Marta tornaram-se mais frequentes. Mais arriscados. Menos justificáveis. O que começara como consolo espiritual transformara-se em algo impossível de negar.

 

Mas Pedro carregava uma ilusão perigosa: acreditava que, por estar dentro da igreja, seus atos permaneciam protegidos. Esquecia-se de que Deus estava vendo.

 

Esquecia-se de que, naquele tempo, o maior escândalo não era o pecado em si — mas a hipocrisia. E essa… era imperdoável.

 

***

 

Numa tarde abafada, Judith caminhava pela rua quando cruzou com Dona Alzira. O encontro foi inevitável.

 

As duas pararam. O tempo pareceu suspenso.

 

— Boa tarde, irmã Judith — disse a idosa, com uma voz que misturava formalidade e julgamento.

 

— Boa tarde.

 

Judith tentou manter a compostura. Mas suas mãos estavam frias. No íntimo, queria esbofetear a idosa por espalhar fofocas… embora soubesse que nem tudo era mentira.

 

Dona Alzira aproximou-se um pouco mais. E disse, em tom baixo:

 

— A cidade vê mais do que a senhora imagina.

 

O coração de Judith disparou. Ela não respondeu de imediato. Não precisava.

 

Porque, naquele momento… sabia que havia sido vista.

 

Mas precisava reagir. Com firmeza, disse:

 

— Dona Alzira, é sempre um prazer encontrá-la. Fonte de tanto saber… mas a vida a dois só quem conhece é quem vive entre quatro paredes.

 

Deu um leve sorriso, frio.

 

— Antes de sair espalhando inverdades, por que a senhora não vai para casa  pedir a Deus perdão por ter uma língua tão grande?

 

Aproximou-se um pouco mais.

 

— Ademais… sabemos que seu falecido marido, que Deus o tenha, nunca foi santo. E a senhora também não fica atrás.

 

A velha arregalou os olhos.

 

Judith continuou, agora com voz firme e cortante:

 

— Dizem, à boca pequena, que seu primeiro filho é de outro homem… e que, para preservar a reputação da família, casou-se apenas por aparência.

 

Fez uma pausa, encarando-a.

 

— Veja bem, Dona Alzira… todos temos histórias. A diferença é quem escolhe contá-las.

 

O silêncio caiu pesado entre as duas.

 

A velha se calou.

 

Virou-se abruptamente e saiu apressada, sacudindo o corpo com irritação — mais rápida que uma gazela — até desaparecer como poeira ao vento.

 

--//--

Não deixem de conferir o capítulo 3 da série de contos O SILÊNCIO DE JUDITH!

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 09/04/2026
Alterado em 10/04/2026
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