FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Naquela noite, a igreja permanecia iluminada por lampiões. Pedro estava em seu pequeno gabinete, preparando o sermão.

 

O tema: pureza.

 

As palavras fluíam com facilidade. Mas sua mente… não. Uma batida leve na porta interrompeu seus pensamentos.

 

— Entre.

 

Era Marta.

 

Vestida de escuro, como sempre. Mas havia algo diferente em sua expressão.

 

— Pastor… perdoe-me por incomodar.

 

Pedro fechou o livro lentamente.

 

— Não incomoda.

 

Ela entrou. Fechou a porta atrás de si. O gesto foi simples, porém carregado de significado.

 

— Tenho pensado muito em suas palavras — disse ela.

 

Pedro levantou-se.

 

— E isso é bom.

 

Mas Marta deu um passo à frente.

 

— Nem sempre.

 

O silêncio que se seguiu era denso.

 

Quando ela se aproximou mais… Pedro já não era apenas o pastor. Era um homem diante de uma tentação que, pela primeira vez, não desejava evitar.

 

Naquela mesma noite, em pontos diferentes da cidade… duas histórias avançavam na mesma direção.

 

Numa hospedaria discreta, Judith atravessava uma porta que mudaria sua vida. Nos braços de Rafael, descobria sensações que nunca havia experimentado. Era como um balé — ora de pé, ora entrelaçados no leito — uma dança de movimentos e descobertas que ultrapassavam tudo o que ela imaginara possível.

 

Numa igreja silenciosa, Pedro fechava os olhos para a própria consciência. Nenhum dos dois sabia. Mas ambos estavam, naquele exato momento… caindo em tentação — ou em desgraça.

***

No Rio de Janeiro de 1912, quedas não eram apenas pessoais. Eram públicas… e raramente perdoadas.

 

Por mais que tentassem, ninguém vivia sozinho. As ruas observavam. As janelas julgavam. E as pessoas… lembravam.

 

Naquela noite, quando Judith deixou a hospedaria ao lado de Rafael, acreditava estar protegida pelo anonimato da cidade grande.

 

Mas o Rio não era tão anônimo quanto parecia. Do outro lado da rua, uma senhora descia de uma carruagem.

 

Era Dona Alzira — membro antiga da congregação, respeitada e atenta a tudo. Seus olhos repousaram sobre Judith… e não desviaram. Reconheceu-a de imediato.

 

Embora Judith usasse um véu negro sobre a cabeça… os olhos não mentiam. Alzira tinha certeza. Aquela era a esposa do pastor. Saindo de uma hospedaria, e nao estava sozinha, estava acompanhada.

 

Dona Alzira não disse nada, mas naquele instante, Judith deixava de carregar apenas um segredo. Passava a carregar um escândalo.

 

Dona Alzira permaneceu imóvel por alguns segundos. O som distante das rodas da carruagem ainda ecoava na rua de pedras, mas sua atenção estava inteira na cena que acabara de presenciar.

 

Judith…

 

Ela repetiu o nome em pensamento, como se quisesse ter certeza. Não havia dúvida. A postura. O jeito de caminhar. Os olhos. Mesmo sob o véu… era ela.

 

Dona Alzira apertou o o medalhão com a imagem de Jesus que pendia de seu pescoço por entre os dedos. Não por devoção naquele momento… mas por contenção.

 

Havia coisas que não podiam ser ignoradas. E havia coisas… que não podiam ser guardadas.

 

Continua....

 

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Não deixem de conferir os capítulos 1 e 2 da série de contos O SILÊNCIO DE JUDITH!

 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 01/04/2026
Alterado em 01/04/2026
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