FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Dias depois, Judith saiu para fazer compras.

 

O mercado municipal era um dos poucos lugares onde a cidade parecia pulsar de verdade. Homens carregavam caixas, vendedores anunciavam seus produtos, e o cheiro de frutas, peixe e especiarias misturava-se ao ar quente.

 

Judith caminhava com sua cesta, observando os preços com atenção.

 

Foi então que aconteceu.

 

Um jovem que organizava mercadorias perdeu o equilíbrio ao subir em um pequeno caixote. Escorregou… e caiu sobre ela. O impacto foi rápido, inesperado.

 

Por um instante, os dois permaneceram no chão.

 

O rapaz tentou se levantar, visivelmente nervoso.

 

— Perdoe-me, senhora… foi um descuido…

 

Mas demorou um segundo além do necessário.

 

E, nesse segundo…

 

os olhos deles se encontraram.

 

Judith sentiu algo estranho. Um calor súbito. Uma presença que jamais experimentara. E percebeu, com um constrangimento que lhe subiu ao rosto, que o corpo daquele jovem reagira ao contato. Ele se levantou rapidamente, envergonhado. Mas, para Judith… algo já havia mudado. Algo que nem mesmo ela compreendia.

 

***

Nos dias que se seguiram, Judith percebeu uma inquietação que não lhe era familiar. A rotina da casa permanecia a mesma — o fogão aceso nas horas certas, a roupa bem dobrada, o silêncio respeitoso à chegada do marido.

 

Mas, dentro dela, algo já não obedecia à mesma ordem.

 

Na semana seguinte, voltou ao mercado. Disse a si mesma que precisava de farinha. Mas sabia que não era apenas isso.

 

O movimento era intenso. Carroças passavam rangendo, homens anunciavam mercadorias, senhoras negociavam preços com firmeza. E então, entre as barracas… ela o viu.

 

O jovem.

 

Desta vez, não houve queda. Apenas um olhar que se reconheceu.

 

Ele se aproximou com cautela.

 

— Senhora… fico aliviado em vê-la bem.

 

Judith assentiu, contendo o próprio nervosismo.

 

— Foi apenas um susto.

 

— Meu nome é Rafael — disse ele.

 

Ela hesitou por um breve instante.

 

— Judith.

 

A simplicidade daquela troca parecia banal. Mas não era. Naquele tempo, uma mulher casada não trocava nomes com estranhos. E ambos sabiam disso.

 

***

As semanas avançaram. Os encontros tornaram-se menos acidentais. Mais… escolhidos.

 

Conversavam à beira das barracas, sempre com cuidado, sempre atentos aos olhares alheios. Até que, numa tarde abafada, Rafael falou em tom mais baixo:

 

— Não é seguro ficarmos aqui conversando assim.

 

Judith sentiu o peso da frase.

 

— E o que sugere?

 

Ele olhou ao redor, certificando-se de que ninguém prestava atenção. Apontou discretamente para o outro lado da rua, onde uma carruagem de aluguel aguardava passageiros. Sinalizou para o irmão cuidar do estabelecimento.

 

— Podemos apenas… dar uma volta.

 

Judith sabia o que aquilo significava.

 

Naquele tempo, uma mulher casada entrar numa carruagem com um homem que não fosse seu marido era mais do que impróprio. Era condenável. E, ainda assim… ela caminhou.

 

Quando ia subir na carruagem, murmurou quase em segredo:

 

— É inapropriado sairmos juntos… Encontre-me hoje, à tardinha, na hospedaria Três Marias.

 

Ele assentiu.

 

Judith entrou na carruagem e se sentou. O cocheiro estalou as rédeas, e o veículo seguiu pelas ruas da cidade. O som das rodas no calçamento parecia marcar o compasso de uma decisão sem retorno.

 

***

Às quatro da tarde, Rafael deixou o estabelecimento aos cuidados do irmão, tomou uma carruagem e partiu para o local indicado por Judith.

 

A cidade foi ficando para trás. As ruas tornaram-se mais silenciosas.

 

A carruagem parou diante de uma pequena hospedaria. Um lugar simples, quase escondido, onde viajantes de passagem raramente faziam perguntas.

 

Rafael desceu devagar. Observou a fachada. Sentiu o coração acelerar. Lembrou-se do aviso do irmão:

 

"o beijo de mulher casada tem sabor de morte. Judith já estava no quarto, ansiosa."

 

Durante anos, sua vida fora guiada por normas rígidas, por olhares atentos, por uma moral que não permitia desvios.

 

Mas, naquele instante… ninguém a observava. Ou assim ela acreditava.

 

Rafael bateu à porta.

 

Por um momento, Judith pensou em fingir que não havia ninguém ali.

 

Mas abriu.

 

Ao vê-la, ele disse em voz baixa:

 

— Por um momento pensei que você tivesse desistido.

 

Judith apenas o observava, sem dizer nada.

 

— Se quiser desistir… — continuou ele — ainda há tempo.

 

Judith olhou para o corredor silencioso da hospedaria. Pensou na casa. No marido. Na igreja.

 

Pensou na vida inteira que vivera sem jamais escolher por si mesma. E então disse, quase em um sussurro:

 

— Entre.

 

 

CONTINUA...

 

--//--

 

Não deixem de conferir o capítulo 1 da série de contos O SILÊNCIO DE JUDITH!

 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 26/03/2026
Alterado em 02/04/2026
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