FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Ontem à noite abri uma garrafa de Conquest. Enquanto o Conquest Gran Reserva respirava na taça, eu também tentava respirar.

 

Lembrei-me da frase atribuída a Pitágoras de Samos:

 

“Se queres viver muito, guarde um bom vinho e um velho amigo.”

 

Não sei se foi ele quem disse. Mas, naquele instante, era verdade.

 

Envelhecer é um privilégio — dizem. Mas ninguém fala que o tempo, quando amadurece em nós, também nos torna mais conscientes das ausências.

 

A juventude atravessa as perdas como quem atravessa uma rua. A maturidade atravessa as perdas como quem atravessa um cemitério.

 

Naquele dia, meu corpo decidiu falar.

 

Calafrios. Suor. Dor. Um travamento inexplicável. O abdômen rígido, a angústia crescente, a sensação de explosão iminente. Eu tinha um compromisso às vinte horas — mas era impossível manter qualquer compromisso quando o próprio corpo se rebela.

 

Cancelei tudo.

 

Minha gata, Isabella, me observava com aquela sabedoria silenciosa dos animais. Subia em mim, me cheirava, fixava os olhos nos meus — como se dissesse: “Algo em você dói além do que parece.”

 

E doía.

 

Na última terça-feira, às dezesseis horas, recebi a notícia da morte do pai de um grande amigo. Eu queria estar presente. Queria ser abrigo. Mas a vida, com seus horários e compromissos, me limitou. Guardei a dor.

 

O corpo não guardou.

 

Na quinta-feira, ainda em repouso, veio outra notícia. Outro amigo partira. Morreu sozinho, em casa. Conforme afirmou a perícia, já estava morto havia dois dias. Só foi encontrado na quinta-feira à noite, já em estado de decomposição. A solidão, às vezes, é mais silenciosa que a própria morte.

 

Foi ali que compreendi: o que me travou não foi o intestino — foi o impacto. Foi o peso da finitude. Foi o medo silencioso de que o tempo está mais avançado do que gostaríamos de admitir.

 

Enviei mensagem ao amigo enlutado. Convidei-o para sair, conversar, talvez brindar à memória do pai. Ele agradeceu, mas disse que ainda doía demais. Queria ficar só.

 

Respeitei.

 

Então abri o vinho.

 

O vinho envelhece para melhorar. Nós envelhecemos para sentir mais profundamente. A maturidade não endurece — ela sensibiliza.

 

Talvez viver muito seja isso:

 

guardar um vinho para lembrar que o tempo pode apurar a vida;

 

guardar um amigo, mesmo quando ele escolhe o silêncio;

 

e guardar a própria saúde emocional — porque o corpo sempre dirá aquilo que tentamos esconder.

 

Naquela taça, percebi que não temos controle sobre a partida dos outros. Mas temos responsabilidade sobre como vivemos enquanto estamos aqui.

 

O vinho terminou. O silêncio ficou.

 

E, dentro dele, uma consciência mais clara do tempo.

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 14/02/2026
Alterado em 15/02/2026
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