Ontem à noite abri uma garrafa de Conquest. Enquanto o Conquest Gran Reserva respirava na taça, eu também tentava respirar.
Lembrei-me da frase atribuída a Pitágoras de Samos:
“Se queres viver muito, guarde um bom vinho e um velho amigo.”
Não sei se foi ele quem disse. Mas, naquele instante, era verdade.
Envelhecer é um privilégio — dizem. Mas ninguém fala que o tempo, quando amadurece em nós, também nos torna mais conscientes das ausências.
A juventude atravessa as perdas como quem atravessa uma rua. A maturidade atravessa as perdas como quem atravessa um cemitério.
Naquele dia, meu corpo decidiu falar.
Calafrios. Suor. Dor. Um travamento inexplicável. O abdômen rígido, a angústia crescente, a sensação de explosão iminente. Eu tinha um compromisso às vinte horas — mas era impossível manter qualquer compromisso quando o próprio corpo se rebela.
Cancelei tudo.
Minha gata, Isabella, me observava com aquela sabedoria silenciosa dos animais. Subia em mim, me cheirava, fixava os olhos nos meus — como se dissesse: “Algo em você dói além do que parece.”
E doía.
Na última terça-feira, às dezesseis horas, recebi a notícia da morte do pai de um grande amigo. Eu queria estar presente. Queria ser abrigo. Mas a vida, com seus horários e compromissos, me limitou. Guardei a dor.
O corpo não guardou.
Na quinta-feira, ainda em repouso, veio outra notícia. Outro amigo partira. Morreu sozinho, em casa. Conforme afirmou a perícia, já estava morto havia dois dias. Só foi encontrado na quinta-feira à noite, já em estado de decomposição. A solidão, às vezes, é mais silenciosa que a própria morte.
Foi ali que compreendi: o que me travou não foi o intestino — foi o impacto. Foi o peso da finitude. Foi o medo silencioso de que o tempo está mais avançado do que gostaríamos de admitir.
Enviei mensagem ao amigo enlutado. Convidei-o para sair, conversar, talvez brindar à memória do pai. Ele agradeceu, mas disse que ainda doía demais. Queria ficar só.
Respeitei.
Então abri o vinho.
O vinho envelhece para melhorar. Nós envelhecemos para sentir mais profundamente. A maturidade não endurece — ela sensibiliza.
Talvez viver muito seja isso:
guardar um vinho para lembrar que o tempo pode apurar a vida;
guardar um amigo, mesmo quando ele escolhe o silêncio;
e guardar a própria saúde emocional — porque o corpo sempre dirá aquilo que tentamos esconder.
Naquela taça, percebi que não temos controle sobre a partida dos outros. Mas temos responsabilidade sobre como vivemos enquanto estamos aqui.
O vinho terminou. O silêncio ficou.
E, dentro dele, uma consciência mais clara do tempo.