O retorno da editora. A resposta não veio no dia seguinte. Nem na semana seguinte.
Niele tentou não contar os dias, mas eles se acumulavam sozinhos. O livro agora existia fora dela — e isso era um alívio e um medo ao mesmo tempo. Às vezes pensava ter ido longe demais. Em outras, sentia que não tinha ido o suficiente.
Naquela manhã, Aurora dormia no carrinho ao lado do sofá. A casa estava silenciosa quando o celular vibrou.
Um e-mail.
O nome da editora apareceu simples, direto, sem entusiasmo excessivo. Niele respirou fundo antes de abrir.
Leu devagar.
“Niele,
Li o manuscrito inteiro. Não de uma vez — porque não é um texto que permita pressa.
Há ali algo raro: uma narrativa que não pede permissão para existir.
Não é um livro confortável. Nem deveria ser.
Quero conversar com você. Não para saber ‘de onde veio a história’, mas para entender até onde você está disposta a ir com ela.
Se concordar, marcamos.”
Niele fechou o e-mail. Não releu. Não precisou.
Não sorriu.
Também não chorou.
Apenas sentiu algo firme se acomodar dentro dela.
— como quando se segura um filho no colo e entende, de uma vez, que não há mais como voltar a ser quem se era antes.
Olhou para Aurora.
— A gente vai seguir — disse, em voz baixa.
***
Chegou o dia inevitável. Débora iria voltar para a Espanha.
O aeroporto estava cheio demais para despedidas longas. Débora caminhava alguns passos à frente, mala puxada com a naturalidade de quem já se despediu por dentro. O casaco claro contrastava com o movimento constante ao redor. Paris a esperava do outro lado do oceano — outra vida, outra língua, outro fuso, mas a mesma história carregada no corpo.
Niele segurava Aurora no colo. A filha estava desperta, olhos atentos, como se tentasse compreender aquele mundo amplo demais para caber nela.
Rômulo abraçava as duas, o braço firme ao redor dos ombros de Niele, a mão protegendo as costas da bebê. Não dizia nada. Não precisava.
Débora parou antes do controle de embarque. Virou-se. Sorriu — um sorriso inteiro, sem dramatização.
— Agora é com vocês — disse.
Niele assentiu.
Camadas de coisas ficaram sem ser ditas. Mas estavam entendidas.
Débora se virou e seguiu.
Caminhou sem olhar para trás.
Niele a acompanhou com os olhos até a figura desaparecer entre outras, até que se tornasse apenas mais alguém indo embora — como tantas pessoas fazem todos os dias.
Aurora se mexeu no colo. Niele a ajustou, sentindo o peso pequeno, real, vivo. O coração da filha batia tranquilo, alheio a partidas, verdades e livros. Rômulo apertou o abraço.
— Está tudo bem — disse.
Niele encostou a cabeça no peito dele. Olhou ao redor. Aviões decolavam. Pessoas chegavam. Outras iam embora.
A vida seguia — não indiferente, mas insistente.
Ela fechou os olhos por um instante. Entre o que foi perdido e o que ainda estava começando, Niele entendeu:
algumas histórias precisam ser contadas para que outras possam continuar.
E ficou ali. Inteira. Com o futuro nos braços.
***
Três meses depois. Enfim, chegou o dia do lançamento de seu mais novo livro.
O local escolhido pela editora era um tanto inusitado: um espaço reservado no piso térreo do Shopping Tatuapé. Quem adquirisse o livro na livraria Disal Tatuapé e fosse até o local para pegar o autógrafo ganhava um voucher que dava direito a um café na cafeteria em frente ao estande.
A capa do livro estava belíssima. Trazia a imagem de uma mulher caminhando rumo ao horizonte por uma rua do centro velho de São Paulo. Vez ou outra, viam-se rostos curiosos nas sacadas, observando a personagem. Em letras grandes, lia-se o título:

O evento teve início às 14 horas de um sábado. Niele estava nervosa, mas demonstrava serenidade, sempre com um sorriso no rosto. A sessão de autógrafos terminou às 20 horas.
Quando Niele caminhava para o carro, no estacionamento, dois homens vestidos de ternos pretos a abordaram.
— Niele Nunes Machado.
Ela se virou, de súbito.
— Sim…
— A senhora vem conosco.
Fim.
Nota aos leitores
A personagem principal desta série de contos, Niele, é inspirada em uma pessoa real. No entanto, a ambientação da história — cidades, contextos e cenários — foi alterada.
As cenas que dizem respeito à família de origem de Niele são cerca de cinquenta por cento verídicas.
Já o segundo romance escrito por ela, apresentado nas partes finais, é inteiramente fictício.
O que se segue posteriormente em O Silêncio das Estruturas é obra de pura ficção.
Dentro de aproximadamente um mês, retornarei com a continuidade da série de contos. A personagem Niele não será mais o centro das atenções; Camila passará a ocupar um lugar de maior evidência na narrativa.