FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


O retorno da editora. A resposta não veio no dia seguinte. Nem na semana seguinte.

 

Niele tentou não contar os dias, mas eles se acumulavam sozinhos. O livro agora existia fora dela — e isso era um alívio e um medo ao mesmo tempo. Às vezes pensava ter ido longe demais. Em outras, sentia que não tinha ido o suficiente.

 

Naquela manhã, Aurora dormia no carrinho ao lado do sofá. A casa estava silenciosa quando o celular vibrou.

 

Um e-mail.

 

O nome da editora apareceu simples, direto, sem entusiasmo excessivo. Niele respirou fundo antes de abrir.

 

Leu devagar.

 

“Niele,

 

Li o manuscrito inteiro. Não de uma vez — porque não é um texto que permita pressa.

 

Há ali algo raro: uma narrativa que não pede permissão para existir.

 

Não é um livro confortável. Nem deveria ser.

 

Quero conversar com você. Não para saber ‘de onde veio a história’, mas para entender até onde você está disposta a ir com ela.

 

Se concordar, marcamos.”

 

Niele fechou o e-mail. Não releu. Não precisou.

Não sorriu.

 

Também não chorou.

 

Apenas sentiu algo firme se acomodar dentro dela.

 

— como quando se segura um filho no colo e entende, de uma vez, que não há mais como voltar a ser quem se era antes.

 

Olhou para Aurora.

 

— A gente vai seguir — disse, em voz baixa.

 

***

 

Chegou o dia inevitável. Débora iria voltar para a Espanha.

 

O aeroporto estava cheio demais para despedidas longas. Débora caminhava alguns passos à frente, mala puxada com a naturalidade de quem já se despediu por dentro. O casaco claro contrastava com o movimento constante ao redor. Paris a esperava do outro lado do oceano — outra vida, outra língua, outro fuso, mas a mesma história carregada no corpo.

 

Niele segurava Aurora no colo. A filha estava desperta, olhos atentos, como se tentasse compreender aquele mundo amplo demais para caber nela.

 

Rômulo abraçava as duas, o braço firme ao redor dos ombros de Niele, a mão protegendo as costas da bebê. Não dizia nada. Não precisava.

 

Débora parou antes do controle de embarque. Virou-se. Sorriu — um sorriso inteiro, sem dramatização.

 

— Agora é com vocês — disse.

 

Niele assentiu.

 

Camadas de coisas ficaram sem ser ditas. Mas estavam entendidas.

 

Débora se virou e seguiu.

 

Caminhou sem olhar para trás.

 

Niele a acompanhou com os olhos até a figura desaparecer entre outras, até que se tornasse apenas mais alguém indo embora — como tantas pessoas fazem todos os dias.

 

Aurora se mexeu no colo. Niele a ajustou, sentindo o peso pequeno, real, vivo. O coração da filha batia tranquilo, alheio a partidas, verdades e livros. Rômulo apertou o abraço.

 

— Está tudo bem — disse.

 

Niele encostou a cabeça no peito dele. Olhou ao redor. Aviões decolavam. Pessoas chegavam. Outras iam embora.

 

A vida seguia — não indiferente, mas insistente.

 

Ela fechou os olhos por um instante. Entre o que foi perdido e o que ainda estava começando, Niele entendeu:

 

algumas histórias precisam ser contadas para que outras possam continuar.

 

E ficou ali. Inteira. Com o futuro nos braços.

 

***

 

Três meses depois. Enfim, chegou o dia do lançamento de seu mais novo livro.

 

O local escolhido pela editora era um tanto inusitado: um espaço reservado no piso térreo do Shopping Tatuapé. Quem adquirisse o livro na livraria Disal Tatuapé e fosse até o local para pegar o autógrafo ganhava um voucher que dava direito a um café na cafeteria em frente ao estande.

 

A capa do livro estava belíssima. Trazia a imagem de uma mulher caminhando rumo ao horizonte por uma rua do centro velho de São Paulo. Vez ou outra, viam-se rostos curiosos nas sacadas, observando a personagem. Em letras grandes, lia-se o título:

 

 

 

 

O evento teve início às 14 horas de um sábado. Niele estava nervosa, mas demonstrava serenidade, sempre com um sorriso no rosto. A sessão de autógrafos terminou às 20 horas.

 

Quando Niele caminhava para o carro, no estacionamento, dois homens vestidos de ternos pretos a abordaram.

 

— Niele Nunes Machado.

 

Ela se virou, de súbito.

 

— Sim…

 

— A senhora vem conosco.

 

Fim.

 

 

 

Nota aos leitores

 

A personagem principal desta série de contos, Niele, é inspirada em uma pessoa real. No entanto, a ambientação da história — cidades, contextos e cenários — foi alterada.

 

As cenas que dizem respeito à família de origem de Niele são cerca de cinquenta por cento verídicas.

 

Já o segundo romance escrito por ela, apresentado nas partes finais, é inteiramente fictício.

 

O que se segue posteriormente em O Silêncio das Estruturas é obra de pura ficção.

 

Dentro de aproximadamente um mês, retornarei com a continuidade da série de contos. A personagem Niele não será mais o centro das atenções; Camila passará a ocupar um lugar de maior evidência na narrativa.

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 03/02/2026
Alterado em 04/02/2026
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