FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Niele, depois de alimentar Aurora, foi para a cozinha. A empregada já havia posto a mesa do café da manhã. Débora ainda dormia, e Niele decidiu não acordá-la. Sentou-se à mesa e tomou o café sem pressa. Rômulo já havia ido para o trabalho. Ela não tinha nenhuma atividade urgente.

 

Depois do café, voltou ao notebook. Seguiu digitando o resumo final de sua história.

 

***

A primeira notícia saiu pequena.

 

Uma nota de rodapé em um jornal econômico de domingo:

 

“Promotor aposentado é citado em investigação sobre arquivamentos irregulares nos anos 1990.”

 

Nada de nomes grandes. Nenhuma palavra como “assassinato”. Ainda.

 

Camilla leu a nota sentada à mesa da cozinha, o café frio ao lado. Não sorriu. Não sentiu alívio. Sabia que o sistema nunca cai de uma vez — ele cede.

 

Nos dias seguintes, vieram outras matérias. Um blog jurídico. Depois, uma coluna política. Sempre cuidadosas, sempre cheias de condicionais. Mas o nome Álvaro Mendonça começou a circular novamente. E, com ele, antigos silêncios começaram a ranger.

 

Um ex-assessor falou.

 

Um delegado aposentado “confirmou pressões”.

 

Um relatório perdido reapareceu.

 

Até que a manchete veio:

 

“Ministério Público reabre apuração sobre desaparecimento de jovem em 1998.”

 

Camilla foi chamada para depor. Não como heroína. Como testemunha incômoda.

 

Na audiência pública, Mendonça estava lá. Mais velho. Menor do que ela se lembrava. Sentado, mãos cruzadas, olhar baixo. Não negou tudo. Não confessou nada.

 

Disse apenas:

 

— Eram outros tempos.

 

Camilla pediu a palavra.

 

— Não — disse, olhando diretamente para ele. — Eram as mesmas pessoas. Só acreditavam mais no silêncio.

 

A sala ficou muda.

 

Dias depois, o Conselho Nacional do Ministério Público anunciou a abertura de um procedimento disciplinar póstumo de carreira. O termo era ridículo, quase cínico. Mas, pela primeira vez, o nome de Letícia Bandeira foi dito em voz alta, em uma sessão oficial.

 

Não devolveram a vida dela. Não devolveram Eduardo. Mas também não conseguiram mais fingir que nada havia acontecido.

 

Mendonça se recolheu.

 

Os jornais perderam o interesse. O sistema seguiu mancando. Mas algo ficara claro:

 

algumas verdades, quando vêm à tona, não derrubam prédios. Derrubam máscaras.

 

***

O ponto final veio em uma madrugada comum.

 

Aurora dormia. Rômulo respirava pesado ao lado. A casa estava inteira — como se nada no mundo estivesse fora do lugar.

 

Niele leu o último parágrafo três vezes. Não mexeu em nada. Não corrigiu. Não suavizou. Fechou o notebook. Sentiu medo. Não do livro. Mas do que vinha depois.

 

Nos dias seguintes, releu tudo em silêncio. Reconheceu ali coisas que nunca vivera — e outras que, sem saber, sempre soubera. Havia mortes, havia ausências, havia mães que esperavam. Mas havia também algo que insistia em atravessar cada página: a recusa em aceitar o esquecimento.

 

Preparou o manuscrito como quem prepara um corpo para a despedida. Revisou margens. Organizou capítulos. Salvou em dois pendrives. Imprimiu uma cópia.

 

Quando escreveu o e-mail para a editora, hesitou apenas na frase de apresentação. Apagou tudo o que parecia explicação demais.

 

Ficou só com isto:

 

“Este é um livro sobre o que tentam esconder — e sobre o que insiste em nascer.”

 

Anexou o arquivo. Enviou.

 

O som do e-mail saindo foi seco. Simples. Irreversível.

 

Niele fechou os olhos por um instante. Depois foi até o quarto de Aurora. A filha dormia tranquila, alheia a tudo. Niele tocou-lhe o rosto com cuidado extremo, como se o mundo pudesse se quebrar ali.

 

— Está tudo bem — sussurrou.

 

Não sabia se falava para a filha ou para si mesma.

 

--//--

Não deixem de conferir o capítulo 30 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 02/02/2026
Alterado em 02/02/2026
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