FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Depois do enterro, Niele e Rômulo levaram Débora para casa. Niele estava preocupada com a filha: ela estava triste, mas não chorara em momento algum. E isso não era normal para uma filha diante da perda de um pai — por mais que ele não tivesse sido um bom genitor.

 

Em casa, tentou distrair a menina. Falou de tudo o que lhe ocorrera depois da morte da mãe, de como havia conhecido Rômulo… Tomaram duas garrafas de vinho juntas. Foram dormir às duas da manhã.

 

Niele despertou com um sobressalto contido, o coração acelerado, a boca seca. O quarto estava exatamente como antes — o berço no mesmo lugar, a luz suave do abajur, o notebook ainda aberto, à espera.

 

Levantou-se num impulso e foi até Aurora. A filha dormia profundamente, o punho fechado junto ao rosto, intacta, inteira. Niele pousou a mão sobre o peito da menina, sentindo o movimento regular, como quem confirma um fato essencial.

 

Voltou ao notebook. Na tela, uma frase que não lembrava de ter escrito permanecia ali, solitária, no meio da página:

 

“Algumas verdades pesam porque foram carregadas tempo demais em silêncio.”

 

Niele leu, sentiu um arrepio leve — e apagou a frase. Não queria pensar naquilo agora. Apenas começou a digitar o que a mente ditava.

 

 

 

Camilla voltou à caixa uma última vez.

 

Já havia passado por todos os documentos formais — boletins, depoimentos repetidos, relatórios incompletos. O que restava era o fundo. Sempre era ali que as coisas se escondiam.

 

Inclinou a caixa de papelão. Algo deslizou com um som seco e surdo, como um corpo pequeno sendo deslocado. Camilla franziu a testa e ajoelhou-se.

 

Era um embrulho antigo, envolto em papel pardo, preso por um barbante já desfiado. Não havia identificação. Nenhuma data. Nenhum protocolo.

 

Ela desamarrou com cuidado.

 

Dentro, encontrou uma boneca de pano.

 

Antiga. Costuras grosseiras. Vestido simples, de tecido barato, desbotado pelo tempo. Um brinquedo comum demais para merecer estar ali — e, ainda assim, perturbadoramente deslocado.

 

Camilla segurou a boneca pelas pernas. Foi então que sentiu.

 

O tecido estava rígido em uma das laterais.

 

Virou-a lentamente.

 

Havia uma mancha escura, profunda, entranhada no pano. Não parecia recente. Nem superficial. Era antiga. Definitiva. Um vermelho que o tempo não conseguiu apagar — apenas escurecer.

 

Camilla sentiu o estômago contrair.

 

Aquilo não constava em lugar nenhum.

 

Não havia menção a brinquedos. Não havia menção a crianças. Letícia Bandeira tinha vinte e dois anos quando desapareceu. Estudante. Jovem. Mulher.

 

Então por que aquela boneca estava ali?

 

Camilla aproximou o rosto. O cheiro ainda existia — fraco, quase inexistente, mas reconhecível para quem já vira demais: terra úmida misturada à ferrugem.

 

Ela fechou os olhos por um instante.

 

Viu uma cova rasa.

 

Viu pressa.

 

Viu algo sendo enterrado junto — não por descuido, mas por pânico.

 

A boneca não era lembrança.

 

Era erro.

 

Era o tipo de coisa que alguém joga dentro de um buraco quando precisa terminar rápido demais.

 

Camilla abriu os olhos.

 

Ali estava o detalhe que não aparecia em relatórios, que não passava por cartório, que não cabia em depoimentos.

 

Um objeto que não deveria existir naquele contexto — e, exatamente por isso, dizia tudo.

 

Ela embrulhou a boneca novamente, com um cuidado quase reverente. Não como prova, mas como quem recolhe um resto humano.

 

Naquele instante, Camilla entendeu:

 

Letícia não apenas morreu. Ela foi apagada com pressa.

 

E alguém carregou esse erro por tempo demais.

 

Ao fechar a caixa, uma certeza se instalou — silenciosa, pesada, irrecusável:

 

a verdade não estava nos homens que falaram demais.

 

Estava no que foi enterrado junto para nunca ser encontrado.

 

Camilla se levantou.

 

Era tarde.

 

E agora, não havia mais volta.

 

 

***

 

A boneca não saiu da cabeça de Camilla.

 

Ela a levou para casa naquela noite — não oficialmente, não registrada. Sabia que, se entrasse no sistema, desapareceria como tantas outras coisas. Lavou as mãos demoradamente, mas o cheiro parecia ter se alojado dentro dela.

 

No dia seguinte, voltou ao arquivo morto.

 

Agora, não procurava nomes. Procurava padrões.

 

Casos arquivados entre 1996 e 2002. Jovens mulheres. Sempre na região central. Sempre ligadas, direta ou indiretamente, a homens influentes: professores, advogados, empresários, políticos de segundo escalão. Em comum, um detalhe quase invisível: todas haviam tentado denunciar algo.

 

Abuso. Corrupção. Tráfico de influência. Desvio de dinheiro.

 

Nada formalizado. Tudo interrompido.

 

Letícia Bandeira não era exceção.

 

Era o erro.

 

Camilla puxou os relatórios antigos de Sílvio Prado. Não os oficiais — os fiscais, os tributários, os societários. Foi ali que encontrou o fio certo.

 

Sílvio não era apenas advogado.

 

Era operador.

 

Fazia desaparecer processos. Arquivava denúncias antes que chegassem ao protocolo. Intermediava acordos sujos. Protegia homens poderosos em troca de proteção maior ainda.

 

E Letícia… Letícia havia descoberto.

 

Ela estagiava no escritório de um dos clientes de Sílvio. Vira documentos. Cópias. Transferências. Assinaturas que não batiam. Procurou Sílvio achando que ele ajudaria — achando que a lei ainda significava alguma coisa.

 

Foi o último erro dela.

 

O nome surgiu numa folha lateral, quase apagado pelo tempo:

 

Álvaro Mendonça.

 

Promotor aposentado. À época, braço jurídico de um grupo empresarial ligado a obras públicas. Homem discreto. Religioso. Intocável.

 

Álvaro era quem decidia o que seguia adiante e o que morria nos corredores.

 

Sílvio intermediava.

 

Eduardo investigava.

 

Letícia viu demais.

 

Camilla entendeu tudo quando encontrou o relatório final de Eduardo — nunca protocolado.

 

“Mendonça esteve no local antes da remoção. Alegou orientação jurídica. Não havia autorização judicial. Ordem verbal. Pressão direta. Caso encerrado por instância superior.”

 

Eduardo não caiu.

 

Ele foi empurrado para fora.

 

Sílvio viveu mais vinte anos carregando o peso — até começar a falar demais, velho demais, arrependido demais.

 

A carta pedindo perdão não era confissão.

 

Era medo.

 

O motivo não foi crime passional. Não foi acidente. Não foi descontrole.

 

Foi contenção de dano.

 

Letícia precisava desaparecer para que contratos não viessem à tona, nomes não fossem ligados, uma engrenagem inteira não ruísse.

 

Ela não morreu porque era frágil.

 

Morreu porque ousou existir onde não deveria.

 

A boneca foi enterrada junto porque Letícia a carregava na bolsa naquele dia — presente para a sobrinha. Um detalhe humano, banal, que não coube na pressa de quem só via risco.

 

 

***

 

O confronto.

 

Camilla foi até Álvaro Mendonça numa tarde chuvosa. Não levou mandado; levou memória.

 

Colocou a boneca sobre a mesa dele.

 

O velho promotor empalideceu. Não perguntou o que era. Não fingiu ignorância.

 

— Você não devia ter mexido nisso — disse, cansado. — Há coisas que sustentam o mundo do jeito que ele é.

 

— Não — respondeu Camilla. — Há coisas que o apodrecem por dentro.

 

Ele não negou. Disse apenas:

 

— Eu fiz o que precisava ser feito.

 

Foi o suficiente.

 

Camilla saiu dali sabendo que a justiça não seria plena. O sistema protegeria os seus.

 

O nome de Letícia talvez nunca fosse limpo oficialmente, mas algo havia mudado.

 

A verdade não estava mais enterrada.

 

E enquanto Camilla caminhava pela rua, longe dali…

 

 

De súbito, o som do choro de Aurora chamou Niele para a realidade.

 

Aurora acordara, implorando para ser amamentada, sem saber que, naquela mesma hora, uma história — fictícia — finalmente começava a respirar e a caminhar para o ponto final.

 

--//--

Não deixem de conferir a parte II do capítulo 29 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 28/01/2026
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