FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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O silêncio foi curto demais para ser assimilado. Apenas o som da respiração de Débora, irregular, tentando compreender o que acabara de ouvir.

 

— Comment ça… décédé? — perguntou, a voz baixa, incrédula. — Non… ce n’est pas possible.

 

Niele fechou os olhos, permitindo que a filha tivesse aquele instante de negação.

 

— Sinto muito, minha filha — disse com suavidade. — Aconteceu hoje cedo. Acabei de receber a notícia no hospital.

 

— Mais… il allait mieux, non? — insistiu Débora, a voz começando a falhar. — Tu m’avais dit qu’il était stable…

 

— Ele estava muito grave, Débora. — Niele escolheu as palavras com cuidado. — Os médicos fizeram tudo o que puderam.

 

Do outro lado da linha, ouviu-se um soluço contido. Depois outro. Débora tentava manter o controle, como aprendera a fazer desde que se mudara para longe.

 

— Mon père… — murmurou, quase para si mesma. — Je n’ai même pas pu lui dire au revoir…

 

Niele sentiu o peso daquela ausência atravessá-la como uma lâmina.

 

— Eu sei… — respondeu. — Eu sei.

 

Houve um silêncio mais longo, denso. Quando Débora voltou a falar, sua voz já não era a mesma.

 

— Et ma grand-mère? — perguntou. — Elle est comment?

 

— Está muito abalada. — Niele respirou fundo. — Acabou de receber um calmante. Estou com ela agora.

 

Débora chorou, sem tentar esconder.

 

— Je veux rentrer… — disse, entre lágrimas. — Je vais voir ce que je peux faire… les billets, le travail…

 

— Faça tudo no seu tempo — respondeu Niele, firme e acolhedora. — Não se cobre agora.

 

— Merci, maman… — disse a filha, com a voz quebrada. — Merci de m’avoir appelée…

 

— Eu te amo, Débora.

 

— Je t’aime aussi.

 

A ligação foi encerrada.

 

Niele permaneceu alguns segundos com o celular ainda junto ao ouvido, encarando o vazio à sua frente. O hospital seguia seu ritmo indiferente — passos apressados, vozes baixas, o tilintar distante de um carrinho metálico.

 

A morte havia chegado. E, como sempre, não pedira licença.

 

***

Débora chegou ao Brasil dois dias depois, exausta da viagem e ainda atordoada pela notícia que não tivera tempo de assimilar. No velório, realizado na Vila Alpina, seu rosto denunciava o cansaço misturado à incredulidade — como se tudo aquilo ainda não lhe pertencesse por completo.

 

O caixão ocupava o centro da sala, cercado por flores simples e pelo silêncio respeitoso de quem não sabia o que dizer. Dona Lurdes permanecia sentada, amparada pelas filhas, irmãs de Agnaldo. Seu choro era baixo, contínuo — um lamento antigo, como se viesse de dentro da terra.

 

Quando Débora entrou, houve uma comoção contida. A mãe abriu os braços, e a filha correu para eles. Ali, o choro rompeu qualquer contenção. Era o luto mais cru: o da filha que perdera o pai à distância, sem despedidas, sem últimas palavras.

 

— Eu queria ter chegado antes… — repetia, entre soluços.

 

Niele permaneceu próxima, mas discreta. Observava tudo em silêncio, o rosto sério, os olhos marejados apenas o suficiente para denunciar tristeza — não desespero. Alguns notaram. Outros não.

 

Ela cumprimentava os parentes, acolhia a filha quando necessário, oferecia apoio a dona Lurdes. Em nenhum momento se afastou, tampouco se colocou no centro da dor. Sua presença era firme, quase serena. E era assim porque precisava ser.

 

Niele já havia chorado por Agnaldo no passado. Chorara quando ainda era esposa — diante das palavras duras, das ausências, das feridas que o tempo não apagara por completo. As lágrimas que lhe cabiam haviam sido derramadas anos antes, na solidão de um casamento que não resistira.

 

Agora, sua vida era outra. Havia Rômulo. Havia reconstrução. Não fazia sentido reviver uma dor que já não lhe pertencia.

 

No crematório, o clima tornou-se ainda mais pesado. O ritual final escancarava a dimensão definitiva da perda. Dona Lurdes precisou ser novamente amparada. As irmãs choravam sem reservas. Débora segurava firme a mão da mãe, os olhos vermelhos, o rosto endurecido pela tentativa de não desmoronar outra vez.

 

Quando o caixão foi conduzido para a cerimônia final, um silêncio espesso tomou o ambiente. O fim não deixava espaço para ilusões.

 

Niele acompanhou tudo de pé, ereta, respeitosa. Quando o procedimento foi concluído, abaixou levemente a cabeça — um gesto simples, íntimo, suficiente.

 

Não era indiferença, era encerramento.

 

A história com Agnaldo estava, enfim, concluída.

 

E ela seguia adiante, sem culpa.

 

--//--

Não deixem de conferir a primeira parte do capítulo 29 da série de contos NO DIVÃ!

 

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 23/01/2026
Alterado em 23/01/2026
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