Niele adentrou o hospital por volta das nove da manhã. O cheiro característico de antisséptico atravessou-lhe as narinas como um aviso antigo, quase esquecido. Na recepção, informou-se sobre o leito de Agnaldo. Enquanto ainda trocava algumas palavras com a atendente, ouviu alguém chamar seu nome.
— Niele!
A voz vinha carregada de surpresa.
Era Edith, agora enfermeira-chefe — passos firmes, expressão cansada de quem já vira demais.
— Bom dia, Edith… há quanto tempo — disse Niele, com um sorriso breve, mais educado que espontâneo.
Abraçaram-se. Um abraço rápido, respeitoso.
— O que você faz por aqui? — perguntou Edith, baixando o tom.
— Vim visitar meu ex-marido. Disseram que ele sofreu um acidente… e que o estado é grave.
Edith assentiu, o rosto sério.
— Ele deu entrada aqui há uns quinze dias. O quadro não é bom. Está cego… infecção interna avançada. — Fez uma pausa curta, como quem mede as palavras. — Vem comigo. Eu te levo até ele.
O caminho até o leito pareceu mais longo do que realmente era. Cada passo ecoava dentro de Niele, trazendo lembranças que acreditava ter sepultado: palavras duras, silêncios cruéis, noites de choro contido. Sentia o peito apertado — não de saudade, mas de algo mais complexo, uma mágoa antiga que nunca cicatrizara por completo.
Agnaldo estava imóvel na cama. O corpo emagrecido, a pele opaca, os olhos cobertos por bandagens. Não havia ali o homem que a ferira tantas vezes — restava apenas alguém quebrado, à beira do fim.
— Agnaldo… — disse ela, quase num sussurro.
Ele moveu levemente a cabeça, reconhecendo a voz.
— Niele… você veio… — a fala saiu fraca, entrecortada. — Eu não vejo mais nada… mas sei que é você.
Ela permaneceu em silêncio. O silêncio, desta vez, não era defesa — era respeito.
— Eu… — ele respirou fundo, como se cada palavra lhe custasse esforço. — Eu fiz você sofrer. Eu sei. Fui cruel, egoísta… destruí o que a gente tinha. — A voz embargou. — Se ainda houver em você um resto de misericórdia… me perdoa.
Niele fechou os olhos. A mágoa ainda existia — pesada, real —, mas já não ardia como antes. O tempo fizera o que a razão não conseguira: transformara dor em cicatriz.
Ela aproximou-se da cama e, com cuidado, segurou-lhe a mão.
— Você me machucou, Agnaldo. Muito. — Sua voz era firme, sem rancor. — E nada apaga o que eu vivi… Mas eu não quero carregar isso comigo até o fim da vida.
Ele chorava em silêncio.
— Eu te perdoo. Não por você… mas por mim.
Agnaldo apertou-lhe a mão com a pouca força que lhe restava.
Niele soltou-se devagar. Não havia amor ali. Tampouco esquecimento. Havia apenas um encerramento — tardio, imperfeito, mas necessário.
Ao sair do quarto, sentiu algo que não sentia havia anos: leveza. Como se, enfim, tivesse deixado para trás não apenas um homem, mas a versão ferida de si mesma.
***
Niele mal havia cruzado a porta da recepção quando foi surpreendida por um vulto que se aproximou apressado. Antes que pudesse reagir, braços trêmulos envolveram-na num abraço apertado.
— Niele… graças a Deus você veio — disse dona Lurdes, a voz embargada.
Ela estava mais envelhecida do que Niele se lembrava. Os cabelos grisalhos e ralos, o rosto vincado por noites sem sono, os olhos inchados de tanto chorar.
— Dona Lurdes… — respondeu Niele, devolvendo o abraço com cuidado.
— Obrigada… obrigada por vir ver meu filho — disse a mulher, segurando-lhe as mãos como se precisasse de apoio para não cair. — Ele falava de você… mesmo assim… mesmo depois de tudo.
Niele não soube o que responder. Limitou-se a baixar a cabeça, respeitando aquela dor que não lhe pertencia, mas que agora a envolvia.
Enquanto ainda conversavam, um homem de jaleco branco aproximou-se. O semblante sério anunciava a notícia antes mesmo das palavras.
— A senhora é dona Lurdes? — perguntou o médico.
Ela assentiu, esperançosa e aterrada ao mesmo tempo.
— Sinto muito… fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. — Ele respirou fundo. — O senhor Agnaldo não resistiu. O óbito foi confirmado há poucos minutos.
O mundo pareceu suspender-se por um instante.
Dona Lurdes soltou um gemido curto, como um animal ferido, e desabou em prantos. O choro veio forte, convulsivo, rasgando o silêncio da recepção.
— Meu filho… meu filho… — repetia, sem forças.
Niele permaneceu em silêncio. Não havia palavras possíveis. Apenas envolveu a ex-sogra num abraço firme, sustentando-lhe o corpo enquanto ela chorava, agarrada ao vazio que a morte deixara.
Uma enfermeira aproximou-se com cuidado, administrou um calmante e ajudou a conduzir dona Lurdes até uma cadeira. Aos poucos, o choro foi cedendo, transformando-se em soluços espaçados, cansados.
Foi então que Niele se afastou alguns passos. Retirou o celular da bolsa com as mãos levemente trêmulas. Havia uma ligação que ninguém mais poderia fazer.
Discou o número com cuidado.
Do outro lado da linha, após alguns segundos, a chamada foi atendida.
— Allô? — disse a voz feminina, com leve sotaque francês.
Niele fechou os olhos por um instante antes de responder.
— Débora… sou eu. Sua mãe.
Houve um breve silêncio. Débora percebeu que havia algo errado naquela ligação.
— Mamãe? Qu’est-ce qui s’est passé? — perguntou a filha, ainda num tom despreocupado, alheio ao que estava por vir.
Niele inspirou fundo.
— Seu pai… o Agnaldo… faleceu hoje pela manhã.
Do outro lado da linha, o silêncio agora era outro — pesado, definitivo.
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Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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