FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Niele adentrou o hospital por volta das nove da manhã. O cheiro característico de antisséptico atravessou-lhe as narinas como um aviso antigo, quase esquecido. Na recepção, informou-se sobre o leito de Agnaldo. Enquanto ainda trocava algumas palavras com a atendente, ouviu alguém chamar seu nome.

 

— Niele!

 

A voz vinha carregada de surpresa.

 

Era Edith, agora enfermeira-chefe — passos firmes, expressão cansada de quem já vira demais.

 

— Bom dia, Edith… há quanto tempo — disse Niele, com um sorriso breve, mais educado que espontâneo.

 

Abraçaram-se. Um abraço rápido, respeitoso.

 

— O que você faz por aqui? — perguntou Edith, baixando o tom.

 

— Vim visitar meu ex-marido. Disseram que ele sofreu um acidente… e que o estado é grave.

 

Edith assentiu, o rosto sério.

 

— Ele deu entrada aqui há uns quinze dias. O quadro não é bom. Está cego… infecção interna avançada. — Fez uma pausa curta, como quem mede as palavras. — Vem comigo. Eu te levo até ele.

 

O caminho até o leito pareceu mais longo do que realmente era. Cada passo ecoava dentro de Niele, trazendo lembranças que acreditava ter sepultado: palavras duras, silêncios cruéis, noites de choro contido. Sentia o peito apertado — não de saudade, mas de algo mais complexo, uma mágoa antiga que nunca cicatrizara por completo.

 

Agnaldo estava imóvel na cama. O corpo emagrecido, a pele opaca, os olhos cobertos por bandagens. Não havia ali o homem que a ferira tantas vezes — restava apenas alguém quebrado, à beira do fim.

 

— Agnaldo… — disse ela, quase num sussurro.

 

Ele moveu levemente a cabeça, reconhecendo a voz.

 

— Niele… você veio… — a fala saiu fraca, entrecortada. — Eu não vejo mais nada… mas sei que é você.

 

Ela permaneceu em silêncio. O silêncio, desta vez, não era defesa — era respeito.

 

— Eu… — ele respirou fundo, como se cada palavra lhe custasse esforço. — Eu fiz você sofrer. Eu sei. Fui cruel, egoísta… destruí o que a gente tinha. — A voz embargou. — Se ainda houver em você um resto de misericórdia… me perdoa.

 

Niele fechou os olhos. A mágoa ainda existia — pesada, real —, mas já não ardia como antes. O tempo fizera o que a razão não conseguira: transformara dor em cicatriz.

 

Ela aproximou-se da cama e, com cuidado, segurou-lhe a mão.

 

— Você me machucou, Agnaldo. Muito. — Sua voz era firme, sem rancor. — E nada apaga o que eu vivi… Mas eu não quero carregar isso comigo até o fim da vida.

 

Ele chorava em silêncio.

 

— Eu te perdoo. Não por você… mas por mim.

 

Agnaldo apertou-lhe a mão com a pouca força que lhe restava.

 

Niele soltou-se devagar. Não havia amor ali. Tampouco esquecimento. Havia apenas um encerramento — tardio, imperfeito, mas necessário.

 

Ao sair do quarto, sentiu algo que não sentia havia anos: leveza. Como se, enfim, tivesse deixado para trás não apenas um homem, mas a versão ferida de si mesma.

 

 

***

 

Niele mal havia cruzado a porta da recepção quando foi surpreendida por um vulto que se aproximou apressado. Antes que pudesse reagir, braços trêmulos envolveram-na num abraço apertado.

 

— Niele… graças a Deus você veio — disse dona Lurdes, a voz embargada.

 

Ela estava mais envelhecida do que Niele se lembrava. Os cabelos grisalhos e ralos, o rosto vincado por noites sem sono, os olhos inchados de tanto chorar.

 

— Dona Lurdes… — respondeu Niele, devolvendo o abraço com cuidado.

 

— Obrigada… obrigada por vir ver meu filho — disse a mulher, segurando-lhe as mãos como se precisasse de apoio para não cair. — Ele falava de você… mesmo assim… mesmo depois de tudo.

 

Niele não soube o que responder. Limitou-se a baixar a cabeça, respeitando aquela dor que não lhe pertencia, mas que agora a envolvia.

 

Enquanto ainda conversavam, um homem de jaleco branco aproximou-se. O semblante sério anunciava a notícia antes mesmo das palavras.

 

— A senhora é dona Lurdes? — perguntou o médico.

 

Ela assentiu, esperançosa e aterrada ao mesmo tempo.

 

— Sinto muito… fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. — Ele respirou fundo. — O senhor Agnaldo não resistiu. O óbito foi confirmado há poucos minutos.

 

O mundo pareceu suspender-se por um instante.

 

Dona Lurdes soltou um gemido curto, como um animal ferido, e desabou em prantos. O choro veio forte, convulsivo, rasgando o silêncio da recepção.

 

— Meu filho… meu filho… — repetia, sem forças.

 

Niele permaneceu em silêncio. Não havia palavras possíveis. Apenas envolveu a ex-sogra num abraço firme, sustentando-lhe o corpo enquanto ela chorava, agarrada ao vazio que a morte deixara.

 

Uma enfermeira aproximou-se com cuidado, administrou um calmante e ajudou a conduzir dona Lurdes até uma cadeira. Aos poucos, o choro foi cedendo, transformando-se em soluços espaçados, cansados.

 

Foi então que Niele se afastou alguns passos. Retirou o celular da bolsa com as mãos levemente trêmulas. Havia uma ligação que ninguém mais poderia fazer.

 

Discou o número com cuidado.

 

Do outro lado da linha, após alguns segundos, a chamada foi atendida.

 

— Allô? — disse a voz feminina, com leve sotaque francês.

 

Niele fechou os olhos por um instante antes de responder.

 

— Débora… sou eu. Sua mãe.

 

Houve um breve silêncio. Débora percebeu que havia algo errado naquela ligação.

 

— Mamãe? Qu’est-ce qui s’est passé? — perguntou a filha, ainda num tom despreocupado, alheio ao que estava por vir.

 

Niele inspirou fundo.

 

— Seu pai… o Agnaldo… faleceu hoje pela manhã.

 

Do outro lado da linha, o silêncio agora era outro — pesado, definitivo.

 

 

--//--

 

Não deixem de conferir o capítulo 28da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 21/01/2026
Alterado em 23/01/2026
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