Naquela noite, Niele não dormiu. Escreveu quase até o dia amanhecer.
Às cinco da manhã, Rômulo acordou. Esticou o braço no escuro e, ao não encontrá-la ao seu lado, levantou-se em silêncio. Caminhou até o quarto da bebê, onde a luz suave do notebook iluminava o rosto de Niele.
Ela estava ali, sentada diante da tela, concentrada, com o olhar ainda aceso — mas o corpo cansado denunciava a vigília.
Rômulo a observou por um instante, com admiração e um traço de preocupação nos olhos.
— Você não foi dormir? — perguntou ele, bocejando.
— Não... me perdi no tempo. Comecei a escrever e nem vi a hora passar — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela.
— Tá bem... Vou passar um café. Por que você não salva esse arquivo, toma um banho e depois senta comigo pra comer alguma coisa? Depois você dorme um pouco. Sei que sua cabeça deve estar fervilhando de ideias, mas não é bom ficar tanto tempo sem dormir. Vamos lembrar o que aconteceu em 2018...
Niele assentiu com um sorriso cansado.
— Tá bom... Vou só salvar aqui, tomar um banho, tomar café com você e deitar um pouco. Prometo.
Rômulo se aproximou, passou a mão carinhosamente pelos ombros dela e foi para a cozinha.
Enquanto salvava o arquivo, Niele olhou para a tela uma última vez. A história seguia viva — mas agora era hora de cuidar de si também.
O cheiro do café recém-passado espalhou-se pela casa como um convite silencioso ao aconchego. Niele saiu do banho enrolada no roupão, os cabelos ainda úmidos, os olhos cansados, mas com um brilho sereno.
Na cozinha, Rômulo ajeitava a mesa com um capricho discreto: pão na chapa, frutas picadas, duas xícaras fumegantes. Ao vê-la entrar, ele sorriu com aquele ar de quem conhece cada cansaço dela.
— Sente-se. Você precisa se alimentar melhor — disse, puxando a cadeira com delicadeza.
Niele sentou-se e soltou um suspiro profundo, daqueles que não nascem só do corpo, mas da alma.
— Obrigada, amor... Você sempre sabe o que eu preciso, mesmo quando eu não sei.
— É que eu te conheço até no silêncio — respondeu ele, sentando-se ao lado dela. — E sei que, quando você escreve desse jeito, é porque tem coisa transbordando por dentro.
Ela abaixou os olhos e mexeu o café lentamente, como se procurasse palavras no fundo da xícara.
— Ontem... quando eu estava amamentando a Aurora, tive um estalo. A personagem... aquela que estava me escapando, sabe? De repente, ela se revelou. Como se dissesse: “é por aqui, Niele. É assim que eu sou.”
Rômulo assentiu, ouvindo sem interromper.
— Mas eu me pergunto se tô pronta pra escrever essa história. É mais escura do que as outras. Mais visceral. Às vezes tenho medo de mexer em coisas dentro de mim que eu achava que já estavam resolvidas.
— Talvez seja justamente por isso que você tenha que escrever, Nê. Não porque tá tudo resolvido. Mas porque escrever é o jeito que você encontra de respirar, de entender. Você não escreve só pra contar histórias — você escreve pra se curar.
Ela o olhou por alguns segundos em silêncio, emocionada.
— Obrigada... por me lembrar disso.
Ele pegou a mão dela sobre a mesa e apertou com carinho.
— Agora come. E depois vai descansar. O mundo pode esperar algumas horas.
Niele sorriu. Comeu devagar, sentindo o gosto da comida, o calor do café, a presença do amor. Depois, seguiu para o quarto, deitou-se ao lado do bercinho e, aos poucos, adormeceu — leve, como quem plantou palavras e foi regada por cuidado.
Sonho
Niele caminhava por uma rua antiga, deserta, coberta por uma névoa espessa. Os passos ecoavam nos paralelepípedos molhados, como se estivesse sendo seguida — mas, ao virar, não havia ninguém.
Ela carregava uma mala de couro envelheida, pesada demais para o que parecia conter. A cada passo, sentia o peso aumentar, puxando-a para trás, como se a bagagem quisesse impedi-la de seguir.
À frente, uma mulher a observava. Estava de costas, cabelos presos em um coque frouxo, o vestido escuro esvoaçando com o vento. Não era possível ver-lhe o rosto. Mas Niele sentia que a conhecia. Não com os olhos, mas com a alma.
Tentou chamá-la:
— Ei... espera...
A mulher virou-se lentamente. Tinha o rosto de Niele, só que mais velho. Mais cansado. E, nos olhos, uma dor antiga, escondida demais.
— Você ainda não contou tudo — disse a mulher, com voz firme e baixa. — Se quer entender essa história... vai ter que abrir essa mala.
Niele olhou para a bagagem. Hesitou. Depois se ajoelhou, abriu os fechos e, ao levantar a tampa, encontrou cartas... fotos... uma aliança quebrada... uma boneca de pano manchada de sangue.
O coração disparou. Quis gritar, mas não havia som.
A mulher — seu reflexo mais profundo — já não estava mais ali.
De dentro da mala, uma luz se acendeu, intensa, quase insuportável. E então... silêncio.
Niele despertou com a respiração entrecortada. A luz suave da manhã entrava pelas frestas da cortina. Aurora dormia tranquila no berço.
Ela sentou-se na cama, ainda com o sonho vibrando no peito.
“Essa história quer ser escrita... até nos meus sonhos.”, pensou.
E ali mesmo, pegou o celular no criado-mudo e começou a digitar as primeiras palavras do próximo capítulo. Estava digitando freneticamente quando o celular vibrou. No visor, apareceu o nome Lurdes, sua ex-sogra.
— Alô, dona Lurdes! — disse Niele, meio apreensiva.
— Bom dia, Niele... filha, me desculpe ligar a essa hora, mas o Agnaldo sofreu um acidente de carro há alguns dias...
Lurdes ficou em silêncio por alguns segundos. Niele pôde perceber que ela tentava conter as lágrimas.
— Dona Lurdes, estou ouvindo. O que foi que aconteceu?
— Filha, sei que vocês já estão separados há muito tempo... mas o Agnaldo não está bem. Os médicos dizem que ele talvez não passe de hoje. E ele pediu para falar com você antes de morrer.
— Me dê o endereço que eu vou aí.
— Está bem, filha. Vou te passar o endereço.
Rômulo acordou quando Niele se despedia da ex-sogra.
— Quem era a essa hora? — perguntou ele.
— Era a dona Lurdes, minha ex-sogra. Disse que o Agnaldo sofreu um acidente de carro e que os médicos acham que ele não passa de hoje. O estranho é que ele quer falar comigo.
— E você vai?
— Creio que não tenho muita escolha. Ele está morrendo... vou ver o que ele tem a dizer.
— Quer que eu vá com você?
— Não. Melhor você ficar com a neném, já que hoje é sábado. Aproveita para curtir a bebê um pouco.
— Está bem.
--//--
Não deixem de conferir o capítulo 27 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!