FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Depois de dez minutos ao peito, Aurora a largou, dando a entender que já estava satisfeita. Niele ficou ali, olhando para a filha — linda, indefesa —, mas o semblante tranquilo da bebê transmitia segurança. Aurora abriu um bocão, num gesto quase viajante, sinal claro de que dormiria novamente.

 

Naquele instante, Rômulo chegou à porta do quarto.

 

— Como estão as coisas por aqui?

 

— Tudo bem… — disse Niele, quase sussurrando. — Ela mamou. Acho que vai dormir de novo.

 

— Ok. Já são quase vinte e três horas. Vou deitar, tenho que levantar cedo.

 

— Está bem, vai… Eu vou esperar ela dormir e escrever um pouco mais.

 

Rômulo se aproximou das duas, correu os dedos pelos cabelos da filhinha, deu-lhe um beijinho na testa. Depois, beijou os lábios de Niele disse:

 

— Boa noite, minhas princesas.

 

Em seguida, saiu do quarto da bebê e foi dormir.

 

Quando Aurora já estava em sono profundo, Niele a devolveu ao berço e voltou para o notebook. Continuou a digitar a história.

 

***

 

O cheiro da delegacia não havia mudado.

Papel velho, suor contido e café requentado. Camilla passou pela portaria do 9º Distrito como quem entra num santuário profanado — ou num templo abandonado. A recepcionista lançou-lhe um olhar vago. Não a reconheceu. Melhor assim.

 

No segundo andar, o arquivo morto permanecia num corredor estreito, mal iluminado, com prateleiras de ferro abarrotadas de caixas empilhadas sem método ou misericórdia.

 

“Se quiser respostas, vá até o fim do corredor. Última sala à esquerda.”

 

Era o que Lívia dissera. E Camilla obedeceu.

 

Ao empurrar a porta, sentiu o bafo quente do lugar — abafado, denso, como se o passado tivesse mesmo respiração própria.

 

Acendeu a luz. Três lâmpadas fluorescentes despertaram com estalos incômodos.

 

Ali estavam os casos esquecidos. Os que não renderam manchete. Os que ninguém quis resolver.

 

Sentou-se diante da velha mesa de metal. Puxou a caixa com a etiqueta gasta, onde mal se lia: BANDEIRA, LETÍCIA / 1998 / SP-CENTRO.

 

Dentro, havia a pasta do desaparecimento. Faltavam documentos — isso ela percebeu de imediato. Fichas soltas, sem ordem cronológica. Fotografias da jovem Letícia: uma em estúdio, outra na porta da faculdade. Um depoimento da mãe, chorando. Testemunhas afirmando tê-la visto entrar num carro branco, mas sem convicção.

 

E, no fim da pasta, um relatório escrito à mão. Pela letra, Camilla reconheceu de imediato: Eduardo Varella.

 

“Há inconsistências no depoimento de Silvio P. A jovem não era aluna dele, como afirma. Investigação deve continuar. Motivos pessoais possíveis. Apagamento de rastros?”

 

Assinatura: E. Varella

Data: 28/09/98

 

Mas não havia qualquer relatório posterior. Nada. Como se a investigação tivesse sido interrompida no exato ponto em que Eduardo começara a cavar mais fundo.

 

Camilla recostou-se na cadeira. Os fios se uniam: Letícia desapareceu em 1998. Silvio Prado, o advogado encontrado morto, fora o último a vê-la. Eduardo desconfiou. Pouco depois, saiu da polícia. E agora, mais de vinte anos depois, Silvio morre, deixando uma carta pedindo perdão a ela — a Camilla.

 

Por quê?

 

Ela folheou novamente a pasta, em busca de qualquer detalhe. Então encontrou. Um cartão esquecido entre as páginas.

“Consultório Psicológico — Dra. Rebeca I. Bandeira.

 

Av. Angélica, 1873.”

 

Bandeira. O mesmo sobrenome da jovem desaparecida.

 

Letícia teria uma irmã? Uma prima? Uma filha?

 

Camilla guardou o cartão, fechou a pasta e levantou-se.

 

Ao sair da sala, ouviu passos no corredor. Mas, ao virar-se, não havia ninguém. Apenas o ranger das estantes e a sensação incômoda de estar sendo observada.

 

Na rua, São Paulo seguia pulsando, indiferente às verdades ocultas.

 

Mas Camilla não.

 

Ela estava de volta — e agora, não pararia.

 

O consultório da Dra. Rebeca I. Bandeira ocupava o terceiro andar de um edifício discreto na Avenida Angélica, entre consultórios médicos e escritórios de advocacia. Camilla subiu pela escada — o elevador estava em manutenção, segundo o aviso na portaria.

 

Havia uma paz ensaiada no lugar. Móveis minimalistas, cheiro de lavanda, paredes claras com quadros abstratos. Mas algo chamou sua atenção: um único quadro vazio. A moldura estava ali, mas o espaço dentro era branco. Uma ausência emoldurada.

 

Ela esperou em silêncio até que uma porta se abriu e uma mulher elegante, de cerca de quarenta anos, surgiu.

 

— Camilla Ventura? — perguntou com gentileza.

 

— Sim.

 

— Por favor, entre.

 

O consultório era iluminado por luz natural, acolhedor, mas sem afetação. Camilla preferiu não se sentar de imediato.

 

— Seu sobrenome é Bandeira. Você tem alguma relação com Letícia?

 

A psicóloga assentiu, com um ar contido.

 

— Letícia era minha irmã mais velha. Desapareceu em 1998. Eu tinha dezesseis anos.

 

Camilla finalmente sentou-se.

 

— O caso dela foi arquivado. Estive com o inquérito hoje. A última pessoa que a viu foi Silvio Prado.

 

Rebeca ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, devagar:

 

— Meus pais morreram em 2002. Nunca superaram. Decidi estudar psicologia para tentar entender… o que a dor não explicava. Durante muitos anos tentei reabrir o caso. Ninguém quis ouvir. Diziam que Letícia fugira com alguém. Ou que não queria ser encontrada.

 

— E você? O que acha?

 

Rebeca encarou Camilla com olhos que já haviam chorado tudo o que podiam.

 

— Acho que ela morreu. Mas não por escolha. E alguém muito influente garantiu que nada fosse descoberto.

 

Camilla tirou do bolso uma fotografia plastificada e a colocou sobre a mesa.

 

— Reconhece esta imagem?

 

Rebeca a pegou com mãos trêmulas. Ao ver o rosto da irmã, engasgou. Levou a foto ao peito, respirando fundo.

 

— Essa foto… eu nunca vi. Essa roupa… esse dia… meu Deus…

 

— Ela está ao fundo. Três homens à frente. O da direita é Silvio Prado. O do centro é Eduardo Varella — um investigador da polícia, meu ex-superior. Ele desapareceu pouco depois de escrever um relatório dizendo que havia algo errado no depoimento de Silvio.

 

— E o terceiro homem? — perguntou Rebeca, apontando.

 

Camilla balançou a cabeça.

 

— Ainda não identifiquei. Mas alguém matou Silvio e usou o nome da sua irmã como aviso. A carta deixada com o corpo dizia:

 

“Que Camilla Ventura me perdoe.”

 

Rebeca permaneceu em silêncio. Então levantou-se, foi até uma pequena estante e voltou com uma pasta de couro.

 

— Há algo que talvez ajude. Recebi isto há alguns meses. Sem remetente. Só dizia:

 

“Guarde. Um dia você vai entender.”

 

Ela entregou a carta a Camilla.

 

A letra era a mesma da carta encontrada com o corpo de Silvio. Mas o conteúdo era mais direto:

 

“Ela sabia demais. Estava no lugar errado. Não era para ser com ela. Eu tentei impedi-los, mas já era tarde. Eles me ameaçaram. Sumiram com o corpo. Enterraram mais que uma jovem — enterraram a verdade. Não tive coragem de continuar. Se encontrar isto um dia, saiba: não foi acidente. E eu não fui o único.” — S.P.

 

Camilla guardou a carta com cuidado. O coração pesava, mas a mente já se movia em direções mais sombrias.

 

— Rebeca… posso lhe prometer uma coisa?

 

— O quê?

 

— Vou encontrar quem fez isso com sua irmã. E com Eduardo. Nem que eu tenha que abrir cada cova desta cidade.

 

--//--

 

Não deixem de conferir o capítulo 26 da série de contos NO DIVÃ.

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 09/01/2026
Alterado em 09/01/2026
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