O Largo do Arouche estava cercado por viaturas e fita amarela da perícia. Eram pouco mais de sete da manhã. A cidade já pulsava, indiferente à morte como a tudo mais. O movimento seguia nos bares ao redor, camelôs montavam suas bancas, e casais caminhavam de mãos dadas sob as árvores. A vida seguia — sempre seguia.
Camilla chegou a pé, capuz sobre a cabeça, olhar afiado. Passou sob a faixa de isolamento com um gesto seco para um dos agentes. Muitos ainda a reconheciam, mesmo fora da ativa. Ainda a chamavam de “inspetora”, mesmo sem farda. O respeito persistia — ou talvez fosse o receio.
A delegada Lívia Mendes estava ao lado do corpo, agachada, falando com o perito. Ao vê-la, levantou-se.
— Você veio rápido.
— Uma ligação misteriosa e uma mensagem com uma xícara ainda quente? Não resisti — respondeu Camilla, sem humor.
Lívia sorriu, cansada.
— Temos um homem de sessenta e poucos anos, identificado como Silvio Prado. Advogado aposentado, vivia só. Morava num prédio ali na esquina. Foi encontrado por uma funcionária da limpeza, sentado nesse banco. Aparentemente, morte natural. Mas tem coisa errada.
Camilla aproximou-se. O corpo estava composto, a cabeça inclinada para o lado, olhos fechados. Havia serenidade demais. No colo, uma manta cuidadosamente dobrada. Sobre o banco, um jornal e uma xícara — ainda úmida de chá escuro.
— A carta? — perguntou Camilla.
Lívia retirou um saco plástico. Dentro, uma folha dobrada, escrita à mão, com letra firme e pausada.
“Não posso mais conviver com o que fiz. Que a cidade me perdoe. Que Camilla Ventura me perdoe.”
Camilla não disse nada. O rosto permaneceu inalterado, mas o sangue lhe gelou.
— Você o conhecia? — perguntou Lívia.
Camilla respondeu com a voz seca:
— Não diretamente. Mas esse nome não me é estranho. E esse pedido de perdão… ele sabia quem eu era. Isso muda tudo.
— Suicídio encenado? — questionou Lívia.
Camilla assentiu.
— Sim. Alguém quer que pensemos que foi ele. Mas ele provavelmente sabia demais. E alguém se adiantou.
A perita se aproximou, com um envelope plástico na mão.
— Encontramos isto no bolso do casaco, atrás da carta.
Camilla pegou. Era uma fotografia antiga. Em preto e branco. Três homens e uma jovem sorrindo ao fundo. Os rostos não estavam identificados. Mas um deles… ela reconhecia. Não lembrava o nome. Só o rosto. Um rosto de outro tempo, de outro caso.
Camilla sentiu algo se mover dentro do peito. Não era medo. Era o início da verdade. E a verdade sempre doía.
Niele se empolgou tanto na digitação que esqueceu do chá que Rômulo lhe havia trazido. Pegou a xícara e levou à boca; ao sorver um pequeno gole, sentiu que o chá estava gelado. Foi até a cozinha, aqueceu-o por três minutos no micro-ondas e voltou para a frente do notebook. Tomou outro gole e retomou a digitação. As palavras fluíam freneticamente.
Camilla saiu do perímetro do crime em silêncio, com o envelope contendo a fotografia no bolso do casaco. O sol começava a romper a neblina da manhã, mas a cidade parecia mais cinza do que nunca.
Caminhou até uma cafeteria discreta na Rua Bento Freitas. Paredes de tijolo, cheiro de pão quente, um rádio antigo tocando jazz instrumental. Sentou-se no fundo do salão, pediu um café preto e abriu a foto sobre a mesa.
Quatro pessoas. Três homens, uma mulher ao fundo.
Um dos homens — o da direita, alto, com expressão segura e paletó bem cortado — era Silvio Prado. Jovem, provavelmente no final dos anos 90. Ao centro, um homem sorridente, cabelos grossos e olhos muito vivos. O terceiro… era ele. Eduardo Varella.
A memória explodiu como vidro quebrando dentro do peito.
Eduardo fora seu superior na antiga divisão de homicídios. Um investigador brilhante, respeitado. Também o homem por trás do caso que fizera Camilla deixar a corporação. Oficialmente, ele desaparecera após pedir exoneração. Não havia rastros. Não havia respostas.
Mas agora ele estava ali. Naquela foto. Ao lado do morto.
Camilla pegou seu caderno e anotou:
“Silvio, Eduardo, mais um homem e uma mulher. E um segredo que sobreviveu a todos esses anos.”
Voltou ao rosto feminino na imagem. Era jovem. Sorria. Mas o olhar… aquele olhar. Ela já o tinha visto antes. No mural de vítimas da delegacia central.
Letícia Bandeira.
Desaparecida em 1998. Caso arquivado por “falta de provas”. Mas Letícia não tinha apenas sumido — ela havia sido esquecida.
Camilla encostou-se à cadeira. A cidade não sussurrava mais. Gritava. E agora ela ouvia.
O celular vibrou.
Lívia:
“Acabamos de receber uma ligação anônima. Disseram que você está ‘mexendo no que estava enterrado’. E que vai se arrepender.”
Camilla fechou os olhos por um instante. Inspirou fundo. Então respondeu:
“Pior do que desenterrar é fingir que não há corpos sob nossos pés.”
***
De repente, Niele ouviu o choro de uma criança ao fundo. Ainda mergulhada nas emoções da personagem que criava, levou alguns segundos para perceber que aquele som não vinha da imaginação — era real.
Aurora havia acordado.
Quase no modo automático, guiada pelo instinto de mãe, ela se levantou e foi até o berço. Pegou a bebê nos braços com cuidado, encostando-a ao peito, sentindo o calorzinho familiar que a acalmava.
— Pronto, passou, minha princesa… O que foi, minha bonequinha? Tá com fome, é? — murmurou, enquanto se sentava na poltrona e ajeitava a bebê para amamentar.
Ali, com Aurora no colo, a personagem e a ficção sumiram. Restava apenas o agora — simples, verdadeiro e cheio de amor.
O cursor piscava na tela, ansioso.
Niele encarava aquela luz intermitente como quem olha para dentro de si. Tentava encontrar o fio que ligava a dor da personagem à sua própria vivência — memórias dos plantões exaustivos, da solidão em meio à crise sanitária, da perda, da reconstrução.
Agora, com Aurora aninhada em seus braços, sugando o leite com calma, Niele observava o quarto em penumbra. Havia ali um tipo de silêncio que não se ouvia — o silêncio da entrega. Do milagre cotidiano.
Ela passou os dedos pelos cabelos finos da filha e sorriu. Era incrível como, mesmo nos dias mais cansativos, ainda conseguia sentir gratidão.
Sua mente voltou à história.
Talvez fosse ali, naquele instante, com Aurora em seu colo, que estivesse a chave da personagem. A mulher do livro também tinha perdido muito — mas agora teria alguém por quem lutar. Um amor novo, inesperado, que a faria se reconstruir.
Niele ergueu os olhos para a tela adormecida do notebook. Ainda não podia escrever, mas dentro dela a história continuava a pulsar, viva.
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Não deixem de conferir o capítulo 25 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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