Pouco depois do segundo mês de Aurora, com a rotina mais estabilizada, Niele começou a sentir o chamado da inspiração. Não era apenas vontade — era necessidade. Escrever.
Certa noite, depois que o bebê dormiu, enquanto a sogra e Rômulo assistiam à televisão na sala, e a casa mergulhava num silêncio parcial, ela se sentou diante do notebook. Passou os dedos pelas teclas, hesitante. Fazia tempo que não escrevia algo maior. Tinha páginas soltas, ideias espalhadas, mas nada que a puxasse como agora.
Rômulo apareceu à porta do quarto com um copo de chá nas mãos.
— Pensei que estivesse cansada demais pra escrever — disse, entregando o chá com um sorriso.
— Também pensei. Mas minha cabeça não para. Acho que preciso voltar… escrever é como respirar pra mim.
— Vai ser sobre o quê?
Ela o olhou por cima da borda da caneca, os olhos já acesos por aquele brilho criativo.
— Um romance policial. Diferente de tudo que já escrevi. Quero mistério, suspense, e um toque psicológico. Algo que me tire da zona de conforto. Que me desafie.
— Já tem personagem?
— Sim… uma detetive. Mas não uma qualquer. Ela é mãe, já passou por perdas, carrega marcas no corpo e na alma. Tem um passado que ainda a persegue. Vai investigar um crime na região central de São Paulo, num pequeno condomínio, onde todos se conhecem — e escondem segredos.
Rômulo sorriu, admirado.
— Parece que já está tudo aí, dentro de você.
— Está — respondeu ela, encostando-se na cadeira.
— Porque escrever me salva. Me cura. Me reconecta. Sinto que cada palavra tem um peso novo. É como se a vida me dissesse: “escreva enquanto está viva”. E eu vou obedecer.
***
Na tela, o cursor piscava, aguardando o primeiro parágrafo. E ele veio, quase sozinho:
A garoa caía fina sobre a Avenida São João quando Camilla Ventura desceu do carro de aplicativo, bem no começo da avenida. O motorista, apressado, nem se despediu. A cidade continuava o mesmo organismo inquieto — buzinas, passos apressados, luzes vermelhas piscando. Mas ela não. Camilla já conhecia o silêncio por dentro.
Ali estava de novo, diante de um velho prédio no centro de São Paulo, a dois quarteirões da delegacia onde tudo começara — e terminara.
Puxou a alça da mala e subiu os degraus do velho prédio, sem dizer uma palavra. A fachada decadente guardava memórias que não queria revisitar. O letreiro apagado anunciava “Residencial Colina da Sé”, ironicamente o mesmo nome de um antigo caso mal resolvido, arquivado entre os segredos da cidade e os pesadelos dela.
Na recepção, uma moça jovem e entediada lhe entregou a chave.
— Quarto 304. Elevador vive quebrado, melhor subir pela escada mesmo.
Camilla agradeceu com um aceno. A escada cheirava a mofo e cigarro velho. Cada degrau ecoava, como se os sons insistissem em lembrá-la de que estava sozinha.
No quarto, jogou a mala num canto e foi direto à janela. Do alto, avistava prédios em ruínas, telhados úmidos, becos invisíveis entre os edifícios. O centro de São Paulo era um personagem por si só — e ela sabia disso. Nada ali era o que parecia. Nunca fora.
O celular vibrou. Mensagem de Lívia Mendes, delegada, ex-colega de Camilla e agora comandante do 18º Distrito.
“Corpo encontrado no Largo do Arouche. Carta no bolso. Xícara ainda quente. Não parece suicídio. Preciso de você.”
Camilla sentou-se na beira da cama, os ombros tensos. Estava de volta. Não por escolha. Mas porque algo a puxava — como sempre puxara.
Levantou a manga da camisa. A cicatriz no braço esquerdo continuava ali. A lembrança do dia em que perdeu mais que um parceiro. Perdeu o direito de confiar. Perdeu a si mesma por um tempo.
O telefone fixo do quarto tocou. Ela estranhou. Ninguém sabia que estava ali.
Atendeu em silêncio.
A voz era abafada, masculina. Quase um sussurro:
— A cidade lembra de você, Camilla.
A ligação caiu.
Ela ficou imóvel por alguns segundos. Depois se levantou, pegou o caderno de anotações do bolso da jaqueta e escreveu apenas uma linha:
“Quando a cidade sussurra, é porque alguém grita por trás.”
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Não deixem de conferir o capítulo 24 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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