Eitor saiu ainda moço
Da terra que lhe viu nascer,
Levava pouca bagagem
Mas um mundo pra vencer.
Queria voltar com respeito,
Com dignidade e poder.
Trabalhou feito quem luta
Contra a fome e contra o chão,
Teve noite sem descanso,
Teve dor no coração.
Cada moeda guardada
Era promessa e oração.
Pensava sempre na volta,
Na mãe à luz do lampião,
Nos avós, na velha casa,
Na porteira do sertão.
Todo sábado sonhava
Com esse reencontrão.
Quando achou que já bastava
O que juntou com sacrifício,
Fez a mala, tomou estrada,
Queria o Natal de ofício.
Mas a cidade mudou,
E mudou sem compromisso.
As casas eram as mesmas,
Mas não eram os olhares,
Tinha sombra nas esquinas,
Tinha mal nos becos pares.
Onde havia só amizade,
Hoje havia outros ares.
Chegou, mas não foi pra casa,
Parou antes no balcão.
Queria ver velho amigo,
Celebrar a ocasião.
— Eu disse que voltava —
Disse abrindo o coração.
Bebeu riso, bebeu fala,
Contou luta e provação,
Mostrou o fruto do esforço
Sem medir a exposição.
Quem viu dinheiro sem dono
Já pensou em traição.
— Isso aqui é suor meu —
Disse com voz de vitória.
— Você venceu na vida —
Ouviu falso na memória.
Onze da noite deu o tempo,
Levantou com emoção:
— Minha mãe deve estar acordada
Me esperando em oração.
Levava fogos na mão
Pra avisar da sua chegada,
Coisa simples de quem ama,
De alma limpa e esperada.
Mas o destino não dorme
E a noite estava armada.

Na porteira o vento gemeu,
A madeira deu sinal.
Ele acendeu o primeiro
Como anúncio de Natal.
O céu brilhou por um instante…
Depois ficou funeral.
Dois tiros rasgaram o escuro
Sem pedir explicação.
Eitor caiu na porteira
Sem entrar no seu chão.
Chegou até a fronteira,
Mas não cruzou o portão.
Lá na casa, a mãe ouviu
E sorriu sem saber:
— É meu filho que chegou,
Eu vou lá pra receber.
Esperou outro estouro,
Esperou confirmação.
Mas o silêncio respondeu
Com pesada negação.
Quando a notícia bateu,
Bateu feito punhalada.
Ela caiu de joelhos
Com a camisa ensanguentada.
— Por que não entrou, meu filho?
— Eu te esperei madrugada…
A porteira ficou aberta,
O vale guardou o som,
A estrada levou a vida
E não devolveu dom.
O fogo que era alegria
Virou aviso final.
E a porteira da chegada
Virou fronteira fatal.
Ele voltou pra sua terra,
Isso é verdade também…
Mas ficou do lado de fora,
Pra nunca mais ir além.
E na véspera do Natal
Uma mãe falou com Deus:
— Como celebro essa data
Se enterraram os sonhos meus?
O que me resta nesta noite
Além de chorar os seus?

Bom dia, amigos.
Por este ano, provavelmente, é só.
Em janeiro, retomarei a sequência do conto “No Divã”.
Muito obrigado pela companhia, pelo carinho nos comentários e pela leitura dos meus humildes textos.
Levo comigo cada palavra de incentivo.
Abraços e até breve.
Se você ainda não leu a série de contos Da personagem NIELE. Não deixem de conferir o capítulo 24 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!