FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Os dias que se seguiram foram de encantamento e exaustão. Aurora dormia por poucas horas seguidas, como todo recém-nascido. O silêncio da madrugada era interrompido pelo chorinho miúdo da pequena, e Niele, mesmo cansada, levantava-se com uma ternura quase sagrada.

 

Rômulo fazia o que podia — trocava fraldas, preparava mamadeiras, organizava a casa. Sua mãe, Ana Clara, veio ficar com eles por alguns dias para ajudar durante o resguardo. Encantada com a netinha, disputava com o filho quem poderia segurá-la por mais tempo, sempre sob o olhar atento e carinhoso da mãe coruja, Niele.

 

Na terceira noite em casa, enquanto todos dormiam, Niele permaneceu acordada, sentada na poltrona do quarto, com Aurora no colo. A bebê mamava lentamente, os olhinhos semicerrados. No silêncio da casa, Niele se pegou chorando baixinho.

 

Não era tristeza. Era tudo ao mesmo tempo: o cansaço acumulado, o medo ainda pulsando nos poros, o alívio por estar viva e aquela estranha sensação de estar sendo transformada mais uma vez. A maternidade, apesar dos problemas e temores vividos durante a gravidez, a deixava profundamente feliz.

 

Rômulo acordou, notando a ausência dela na cama. Foi até o quarto da bebê e a encontrou ali, sozinha, com Aurora nos braços e lágrimas no rosto.

 

— Ne… tá tudo bem? — perguntou em voz baixa, aproximando-se.

 

Ela olhou para ele, emocionada.

 

— Tá… agora tá. Eu só precisava sentir… tudo isso. A vida, a fragilidade… essa menininha aqui, nos meus braços, que veio depois de tanto… depois de quase nada.

 

Rômulo se ajoelhou ao lado dela, encostando a cabeça em seu joelho.

 

— Você é forte demais, amor. Eu me assustei tanto naquele dia… fiquei sem chão.

 

Ela passou a mão pelos cabelos dele com carinho.

 

— Também tive medo… mas agora eu só quero viver cada momento. Cada madrugada em claro, cada suspiro, cada sorriso dessa menina.

 

Aurora terminou de mamar e adormeceu nos braços da mãe. Rômulo pegou a bebê com delicadeza e a colocou no berço, ajeitando as cobertas. Depois, estendeu a mão para Niele.

 

— Vem deitar. Eu fico de olho nela agora. Você precisa descansar.

 

Ela aceitou a mão dele e se deixou conduzir até a cama. Antes de fechar os olhos, murmurou:

 

— Obrigada por estar comigo. Obrigada por ser meu porto seguro.

 

— Sempre serei — respondeu ele, beijando-lhe a testa.

 

E naquela noite, como em tantas outras que viriam, o amor deles foi o fio invisível que costurava o cansaço, os medos e as alegrias. Seguiram lado a lado, mais fortes do que nunca.

 

 

***

 

O primeiro mês de Aurora passou como um sopro — intenso, delicado, transformador.

 

A casa se adaptou à nova rotina: silêncios temporários, choros intercalados, sorrisos inesperados. Rômulo acordava mais cedo para preparar o café da manhã antes de sair para o trabalho, enquanto Niele se dedicava à amamentação e aos cuidados com a bebê, ainda com o corpo em recuperação e as emoções em constante fluxo. A sogra, sempre prestativa, cuidava das roupas e das refeições do dia. Francisca, que antes vinha a cada quinze dias para a limpeza da casa, passou a vir uma vez por semana.

 

Nos fins de tarde, todos se reuniam na sala. Aurora, quase sempre nos braços de Niele, tornara-se o centro das atenções. Ana Clara, a avó coruja, aproveitava esses momentos para curtir a neta um pouquinho mais.

 

Rômulo chegava por volta das 18h30. Após o banho, jantavam e ficavam assistindo à televisão enquanto Aurora dormia. Ele se deitava por volta das 21h, e Niele permanecia na sala, conversando com a sogra sobre amenidades da vida.

 

Desde o nascimento da bebê, Niele não realizara nenhuma atividade de divulgação de seu livro Depois da Última Noite. Também não escrevera nada novo. Ainda assim, sentia que precisava, aos poucos, retomar suas atividades.

 

Naquela noite, escreveu em seu caderno — aquele onde, às vezes, desabafava ou deixava bilhetes para si mesma:

 

 “Aurora trouxe mais do que luz. Trouxe a consciência do tempo, da fragilidade e da bênção que é cada segundo vivido com quem amamos. O amor verdadeiro é esse que acorda de madrugada, que embala com braços cansados, que responde perguntas sinceras e abraça com o peito aberto. Não sou mãe de primeira viagem — esta é minha segunda filha —, mas ainda estou tentando compreender a emoção e o privilégio desse presente de Deus que é ter um filho depois dos 40.”

 

 

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Não deixem de conferir o capítulo 23 da série de contos NO DIVÃ!

 

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível

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Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 13/12/2025
Alterado em 15/12/2025
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