FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

 

 

Rômulo havia recebido cinco dias de licença para viver o nascimento de seu terceiro filho. Dois eram do primeiro casamento; agora chegava Aurora, fruto de seu amor com Niele. Ele tinha, enfim, duas meninas e um menino. A pequena recém-nascida fora levada ao berçário, enquanto Niele permanecera alguns minutos na sala de recuperação antes de ser transferida para o quarto.

 

Aproveitando aquele intervalo, Rômulo desceu até a lanchonete do hospital. Pediu um lanche de churrasco e um suco de laranja. Estava radiante — pela primeira vez em muito tempo, sentia que a vida finalmente lhe oferecia um sopro de calmaria, um futuro possível. Comeu quase no automático, como quem ainda se alimenta mais de alívio do que de comida. Era como se a alegria o anestesiasse.

 

Depois do lanche, voltou para a maternidade. Ao se aproximar do setor, notou um tumulto súbito: médicos e enfermeiras corriam às pressas, o ar pesado de urgência.

 

— O que está acontecendo? — perguntou a uma das enfermeiras que passava.

 

— Uma paciente teve parada cardíaca — respondeu ela, sem diminuir o passo.

 

O coração de Rômulo errou uma batida. Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando conter a onda de pavor que o atravessava. E se fosse a Niele? Não… não podia ser. Não agora. Não depois de tudo.

 

Sentou-se, atônito, numa das cadeiras em frente ao balcão de enfermagem. O tempo parecia suspenso. Tudo nele era apenas súplica.

 

Os sons ao redor começaram a perder nitidez. Via as pessoas se movendo, ouvia murmúrios e passos apressados, mas era como se estivesse submerso. Sua mente se fixou numa única e terrível possibilidade — e todo o resto se dissolveu.

 

“Não pode ser a Niele… não pode ser.”

Repetia isso para si mesmo, mas suas mãos tremiam sem controle. As pernas estavam frias. Cada minuto parecia uma eternidade.

 

Uma médica surgiu no corredor, jaleco branco amassado pela pressa. Rômulo levantou-se num sobressalto.

 

— Doutora, por favor… é sobre a minha esposa? A Niele… ela está bem?

 

Ela hesitou um instante.

 

— Seu nome, por favor?

 

— Rômulo. Rômulo de Oliveira. Minha esposa é a Niele. Ela acabou de ter nossa filha, Aurora.

 

A médica consultou sua prancheta. Em seguida, um leve suspiro de alívio suavizou sua expressão.

 

— A paciente que teve parada cardíaca não é sua esposa, senhor Rômulo. Ela está estável, já no quarto.

 

As pernas dele cederam. Sentou-se de novo, o coração batendo forte pelo alívio que o invadiu.

 

— Obrigado… meu Deus, obrigado… — murmurou, cobrindo o rosto com as mãos.

 

Ficou ali por alguns minutos, respirando fundo, até sentir que podia se levantar. Precisava ver Niele. Precisava olhar nos olhos dela e agradecer por ela estar viva.

 

Ali, naquele corredor de hospital, compreendeu o amor com uma clareza dolorosa: amor era esperança e pavor, era desespero e salvação. Era ela. Sempre fora ela.

 

***

 

Não demorou para que uma enfermeira se aproximasse:

 

— Senhor Rômulo, sua esposa está chamando.

 

Ele assentiu, ainda sob o peso da emoção, e a acompanhou pelo corredor iluminado. Cada passo parecia o compasso de um coração finalmente em paz.

 

Ao entrar no quarto, encontrou Niele deitada, pálida, mas com o sorriso suave que conhecia tão bem — um sorriso cansado, porém cheio de luz.

 

— Amor… — disse ele, aproximando-se com todo o cuidado do mundo.

 

Niele estendeu a mão para ele.

 

— Rômulo… nossa Aurora… ela é linda, não é?

 

Ele segurou a mão dela e a beijou com ternura.

 

— Sim… é linda. Mas nada se compara a ver você aqui… comigo… viva.

 

Ela franziu levemente a testa, tentando compreender a intensidade de suas palavras.

 

— Aconteceu alguma coisa?

 

— Achei que tinha te perdido — confessou, a voz embargada. — Havia médicos correndo, disseram que uma paciente teve parada cardíaca… achei que fosse você.

 

Niele apertou a mão dele, firme, doce.

 

— Mas não foi. Estou aqui. Com você. Com nossa filha.

 

— Eu não suportaria te perder… não agora. Não depois de tudo.

 

Ela o fitou com ternura e certeza.

 

— Nós não vamos nos perder, Rômulo. A vida pode tremer ao nosso redor, mas o que temos é maior que qualquer sombra.

 

Ele se inclinou e a abraçou, com a reverência de quem abraça o próprio destino.

 

Foi então que a porta se abriu, e uma enfermeira entrou com Aurora nos braços.

 

— Hora do primeiro colo, papai.

 

Os olhos de Rômulo marejaram quando recebeu a filha. Tão pequena, tão perfeita, adormecida sob mantas cor-de-rosa.

 

Ele a levou até Niele, que abriu os braços para acomodar a menina junto ao peito.

 

Ali, naquele quarto simples de hospital, tudo era sagrado: amor, renascimento, esperança. Eles não eram mais dois — eram três. Uma família inteira, pronta para viver os dias que viriam, com sonhos novos e a certeza de que, apesar das dores, o amor sempre os faria resistir.

 

--//--

Não deixem de conferir o capítulo 22 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 10/12/2025
Alterado em 15/12/2025
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