O livro foi um sucesso inesperado. A primeira tiragem, de vinte mil exemplares, parecia mais um voto de confiança tímido da editora, que não apostava alto numa autora iniciante. Mas Niele surpreendeu a todos. Em apenas trinta dias, os exemplares desapareceram das prateleiras, obrigando a editora a correr com uma nova impressão — desta vez ousada: oitenta mil cópias.
Desde então, a rotina de Nelie se transformou. Quase todos os fins de semana eram tomados por viagens, eventos e sessões de autógrafos em diversos estados. O tempo para si mesma evaporara, como areia escorrendo entre os dedos.
Naquela noite, após dois dias exaustivos no Rio de Janeiro e uma sessão de autógrafos concorrida, Nelie finalmente atravessou o saguão do hotel. Passava das onze. Assim que entrou no quarto, tirou os sapatos com um suspiro de alívio. Valéria, sua empresária, que a acompanhava, sorriu:
— Enfim, a agenda desta semana está fechada. Só resta um último evento no dia vinte e três de dezembro, na Livraria Nobel, no shopping Anália Franco.
Nelie se jogou na cama, rendendo-se ao silêncio como quem reencontra o próprio lar, ainda que longe dele.
— Que maravilha... — murmurou. — Finalmente vou poder ficar um pouco quieta. Curtir meu marido com calma, sem hora pra sair.
***
Era uma manhã comum, dessas em que a casa ainda dorme enquanto o sol tenta furar a neblina. Nelie preparava café quando sentiu um leve enjoo. Imaginou ser apenas o estômago vazio ou o efeito de noites maldormidas. Mas os dias passaram, e os enjoos insistiam. Veio o atraso menstrual, as tonturas, uma sensibilidade estranha no corpo.
— Será que... — murmurou, temendo completar o pensamento.
Tinha 42 anos. Já não cogitava mais a possibilidade de ser mãe — por escolha e por tempo. Não que não houvesse desejo; ele existia, discreto, guardado em alguma gaveta da alma. Mas depois de tudo o que vivera — o trauma, o esgotamento — achava que esse capítulo já estava encerrado.
Fez o teste numa tarde chuvosa, o coração disparado.
Positivo.
O primeiro a reagir foi o silêncio. Depois vieram as lágrimas — uma mistura de susto, medo e uma alegria sem nome.
Quando Rômulo chegou, ela nada disse. Apenas colocou o teste nas mãos dele. Ele leu, levantou o rosto e, sem palavras, a abraçou forte, como quem segura o mundo inteiro.
— Vai dar tudo certo — disse, firme. — A gente já passou por tanta coisa... Agora é vida que vem.
***
Logo nas primeiras consultas, a médica foi direta:
— É uma gestação que requer atenção. A idade aumenta os riscos, e há um histórico importante de estresse físico e emocional.
Vieram os exames, o repouso, a dieta rigorosa. Os primeiros meses foram tensos. Havia dias em que Nelie sentia medo até de respirar. O fantasma da perda rondava suas madrugadas insones. Rômulo se mantinha firme, embora também enfrentasse seus próprios temores — escondidos atrás de livros, longas caminhadas, orações, dedilhados no violão e momentos silenciosos de reflexão.
— Estamos gerando um milagre — ele repetia quando ela chorava. — E milagres, às vezes, chegam vestidos de luta.
Aos cinco meses, ela precisou de repouso absoluto. A escrita foi deixada de lado, assim como palestras e convites. Mas, em troca, ganhou tempo para ouvir os batimentos do bebê, observar o corpo se transformar e escrever longas cartas para a filha que crescia dentro dela.
Sim, era uma menina. Souberam no sexto mês.
— Vai se chamar Aurora — disse Nelie, com os olhos úmidos. — Porque ela veio depois das noites mais escuras das nossas vidas.
***
O parto aconteceu numa manhã de verão, cercado de tensão, mas também de mãos experientes e orações sussurradas. Foi cesárea, como planejado. E quando o choro ecoou pela sala cirúrgica, Nelie sentiu o mundo inteiro desabar dentro de si — de forma doce, como a chuva que chega depois da seca.
Aurora nasceu pequena, mas forte. Os olhos fechados, os punhos cerrados, como quem anuncia: “Cheguei. E vim pra ficar.”
Rômulo, ao pegá-la no colo pela primeira vez, chorou como nunca chorara. Não segurava apenas a filha — segurava a promessa de que a vida insiste, mesmo depois do abismo.
Nelie, ainda grogue da cirurgia, observou os dois e murmurou, num fio de voz:
— Agora somos três.
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Não deixem de conferir o capítulo 21 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!