Capítulo 3 – A Casa do Meio-Fio
Era uma casa simples, com o reboco gasto nas laterais e um quintal onde cresciam pitangueiras... e silêncios. Clara morava ali desde que a memória lhe alcançava. A mãe costumava dizer que aquela casa tinha cheiro de tempo e de lembranças boas, mas Clara sempre achou que o cheiro era outro — cheiro de espera, de ausência, de saudade encostada no batente.
Depois que Davi adoeceu, a casa se recolheu sobre si mesma. Os passos dele desapareceram dos cômodos, e a porta do quarto transformou-se num muro. Clara passava horas sentada na escada dos fundos, encarando o céu como quem tenta decifrar um enigma. Escutava, atenta, qualquer rumor vindo de dentro. Mas nada. Nem a respiração dele. Nem os soluços contidos da mãe. Era como se o tempo tivesse suspendido o fôlego e esquecido de passar por ali.
Na última noite, ela o ouviu cantar. Era uma cantiga antiga, daquelas que os dois ouviam quando o rádio chiava na cozinha da infância. A voz dele era baixa, quase quebradiça, mas Clara soube — imediatamente — que ali estava a despedida. Davi se despedia pela voz. E quando a canção terminou, o silêncio voltou. Um silêncio definitivo, daqueles que fecham portas que nunca mais se abrem.
Niele parou de digitar. Os olhos, marejados, tornavam a tela um borrão. Sabia que a história de Clara e Davi era invenção... mas não completamente. Era também um modo de se despedir do que nunca teve tempo de dizer adeus: perdas silenciosas, rostos guardados como segredo.
Fechou o notebook com delicadeza. Lá fora, o sol se dissolvia em nuvens cor de cobre. Rômulo estava sentado na rede, com um livro aberto no colo, mas o olhar distante viajando pelo horizonte. Quando ela se aproximou, ele a recebeu entre os braços, sem precisar de palavras.
— Você escreveu hoje — disse ele, após um longo silêncio.
— Escrevi.
— E doeu?
— Um pouco. Mas de um jeito diferente... sinto que estou dando voz a alguém além de mim.
Rômulo beijou-lhe a testa.
— Então continue. Você está plantando esperança em terra ferida.
O sorriso dela foi pequeno, mas verdadeiro. Percebeu, naquele instante, que seu livro não era fuga. Era retorno. Era reencontro. E, mesmo que ainda houvesse noites densas, ela já não caminhava sozinha no escuro.
***
Os dias seguiram num ritmo manso, quase imperceptível. O inverno anunciava sua chegada em manhãs frias e ventos que assoviavam entre as frestas. Niele mantinha sua rotina quase ritualística: acordava cedo, preparava café forte, regava as plantas que insistiam em viver na varanda e se sentava diante do notebook.
O livro ganhava forma, carne, respiração. Clara já era mais que personagem — tornara-se presença. Amiga íntima. Niele a ouvia em pensamentos, sonhava com ela, como se ambas dividissem o mesmo teto. A história crescia devagar, como uma planta nascida no concreto das rachaduras — frágil, porém teimosa.
Rômulo acompanhava tudo com atenção silenciosa. Sabia reconhecer, nos ombros dela, o peso dos dias difíceis. Quando percebia seu cansaço, sugeria uma caminhada, preparava um almoço mais cuidadoso, ou apenas se sentava ao lado, respeitando o silêncio do processo. Ele não lia o livro — não ainda. Ela preferia que ele o visse inteiro, não pelas metades. E ele entendia.
Foi numa tarde chuvosa que ela escreveu o fim do penúltimo capítulo.
***
Capítulo 12 – A Última Carta
Clara achava que não conseguiria seguir adiante. Imaginava que a dor viria como um vendaval, arrancando-a novamente para os porões onde demorou tanto a encontrar a saída. Mas não foi assim. A dor veio como garoa: silenciosa, persistente, íntima. E foi caminhando debaixo dessa garoa que ela descobriu que é possível não se molhar inteira.
Na carta que escreveu ao irmão — e que jamais enviaria, porque ele já não estava em nenhum lugar alcançável — ela disse:
“Hoje cuidei das plantas, como você me mostrou.
Ri ao ver um casal discutindo por causa de um guarda-chuva.
Comprei um livro novo. E, pela primeira vez em muito tempo, tomei um café sem pressa. Você ainda está em mim, Davi. Mas agora, coube você — e o mundo inteiro.”
Quando terminou a última linha, Niele chorou. Mas era um choro limpo, libertador, diferente dos que a prendiam. Levantou-se e foi até a cozinha, onde encontrou Rômulo preparando uma sopa quente.
— Acabei — murmura ela.
— Acabou? O livro?
— Sim. Falta revisar… mas a história chegou onde precisava chegar.
O sorriso dele era cheio de ternura. Abraçou-a longamente, como quem segura uma alma que acaba de voltar para casa.
— Tenho orgulho de você.
***
Uma semana depois, Niele enviou o manuscrito para a editora. Era a primeira vez que sentia medo — não do julgamento, mas porque aquele livro não era apenas papel. Era parte dela.
A resposta veio dois dias depois, por videochamada. A editora do outro lado da tela estava visivelmente emocionada.
— Niele... é um livro forte, sensível, verdadeiro. Tem apenas 148 páginas, mas é grandioso. Queremos publicá-lo. Já temos até um título em mente: “Depois da Última Noite”. O que acha?
Niele respirou fundo e sorriu, emocionada.
— Pensei em algo mais psicológico... talvez “No Divã”.
— “No Divã” é impactante — disse a editora — mas não conversa com a alma da história.
Niele assentiu devagar.
— Tem razão. “Depois da Última Noite” é mais fiel ao que escrevi.
— Perfeito. Vamos trabalhar na capa e na revisão final. Fique atenta. Em breve enviamos tudo para sua aprovação.
— Obrigada — respondeu Niele, sentindo o coração descansar.
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Não deixem de conferir o capítulo 20 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!