FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Dois anos haviam se passado desde o casamento de Rômulo e Niele. A vida, apesar de mais estável, ainda carregava os ecos dos dias difíceis que enfrentaram.

 

Rômulo voltara ao trabalho havia um ano e meio. Mas já não era mais o mesmo. As sequelas deixadas pelo envenenamento alimentar ainda lhe impunham limites. O corpo não reagia como antes. O vigor que outrora o sustentava nos longos turnos como motorista parecia ter ficado para trás. Por recomendação médica — e após muita resistência interior — aceitara um novo posto no setor administrativo da empresa. Era uma mudança difícil, porém necessária. No fundo, sentia-se grato por ainda estar vivo. Por poder voltar todos os dias para casa, abraçar Niele e partilhar com ela os pequenos momentos de paz.

 

Niele, por sua vez, já não frequentava o consultório do psicólogo. As consultas haviam cessado meses antes, não por falta de necessidade, mas porque, segundo ela, já podia caminhar com as próprias pernas. Os medicamentos também haviam sido reduzidos. Restara apenas o noturno, para ajudá-la nas noites em que o sono insistia em não vir — algo que ainda acontecia com frequência.

 

A editora com a qual mantinha contato desde os tempos da crise sanitária insistia para que escrevesse um livro.

 

“As pessoas precisam saber”, diziam. “Sua história pode ajudar muita gente.”

 

Mas Niele recusava-se a reviver aquela dor. Não queria escrever sobre corpos sem nome, corredores lotados, nem sobre o desespero nos olhos dos colegas. Não queria transformar a dor em espetáculo.

 

Apesar disso, certa manhã, de volta ao litoral durante as férias de Rômulo, ao caminhar sozinha pela orla, sentiu algo se acender dentro de si — um lampejo de criação, como se enfim pudesse respirar por outras palavras. Teve uma ideia. Não um relato, mas uma ficção. Uma história sobre recomeços, silêncio e esperança. Apresentou o projeto à editora, quase sem acreditar que o aceitariam. Para sua surpresa, a proposta foi recebida com entusiasmo.

 

Agora, afastada do hospital, Niele dedicava-se integralmente à escrita. Acordava cedo, preparava um café forte, sentava-se na varanda com o notebook no colo e escrevia. As palavras vinham aos poucos, com delicadeza — como quem aprende novamente a caminhar após muito tempo deitada.

 

Mas havia algo que a inquietava: o prazo. Um tempo que escorria como areia entre os dedos. O contrato previa a entrega do manuscrito em três meses — e dois já se haviam passado. Ela sabia que ainda faltava muito para concluir o livro, não por falta de ideias, mas porque havia dias em que simplesmente não conseguia escrever. Os fantasmas antigos ainda rondavam. Em certos momentos, ela só queria calar-se.

 

Rômulo, sempre atento, percebia o peso nos olhos da esposa. Às vezes a abraçava em silêncio, apenas para lembrá-la de que não precisava carregar tudo sozinha.

 

E assim, entre pausas e recomeços, entre noites insones e manhãs de esperança, Niele tentava cumprir sua missão: escrever, sim — mas sem ferir novamente a própria alma.

 

 

***

 

Naquela tarde, o céu estava coberto por nuvens finas, como um véu cinzento cobrindo o azul. O mar, ao longe, parecia quieto, como se respeitasse a história que se desenrolava dentro daquela casa de varanda branca.

 

Niele estava sentada à mesa de madeira, o notebook aberto à sua frente. As mãos pairavam sobre o teclado, mas não se moviam. Ao lado, uma caneca com o café já morno. Na parede, um quadro antigo — presente da mãe — exibia uma inscrição bordada: “Escreve, filha, mesmo quando doer.”

 

As palavras não vinham com facilidade naquele dia.

 

Ela tentava escrever um trecho delicado de sua ficção: uma personagem que perdia o irmão durante uma epidemia. Era ficção, sim, mas por trás dos nomes e lugares inventados havia vestígios reais — lembranças que ela jurara não reviver. E, no entanto, ali estavam.

 

Fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. Ouviu os passos leves de Rômulo na cozinha. Ele preparava algo — talvez panquecas, talvez o chá de camomila que aprendera a fazer para ajudá-la a dormir.

 

Ela o amava de forma serena, madura. Ele era uma presença firme e silenciosa, como um farol que permanece aceso mesmo quando o barco se afasta da costa. Nos piores dias, ele apenas lhe segurava a mão. Em outros, contava histórias bobas para fazê-la sorrir. Não fazia perguntas demais — e isso era precioso. Sabia que o silêncio, às vezes, era o único consolo possível. Às vezes, pegava o violão, dedilhava as cordas, gravava melodias no celular e, mais tarde, apresentava-lhe uma nova canção. E os dias seguiam assim.

 

Naquela tarde, ao vê-lo surgir na porta com um prato de frutas e um sorriso calmo, Niele se deu conta de algo: mesmo sem escrever sobre a crise, sem revisitar os horrores que viveu, ela estava, de certo modo, escrevendo sobre sobrevivência. Sobre o que vem depois. Sobre como o amor pode florescer mesmo no solo seco da dor.

 

— Está difícil hoje? — ele perguntou, colocando o prato ao lado dela.

 

— Um pouco — respondeu, com um sorriso cansado. — Tem dias em que a história pesa... mesmo sendo inventada.

 

— Então deixa ela descansar um pouco — sugeriu ele, acariciando de leve seu ombro. — Vai dar uma volta, respira. Às vezes, as palavras voltam com o vento.

 

Niele assentiu. Levantou-se e caminhou descalça até a grade da varanda. A brisa fria tocou seu rosto. Lá embaixo, as folhas das árvores dançavam sem pressa. Ela observou por um tempo. Depois, voltou para dentro e abriu um novo arquivo no computador. Nele escreveu:

 

“Talvez sobreviver seja isso: aprender a falar de outras coisas, sem esquecer o que nos calou.”

 

E, naquele instante, a história voltou a fluir.

 

 

--//--

Não deixem de conferir o capítulo 19 da série de contos NO DIVÃ.

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 28/11/2025
Alterado em 29/11/2025
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