FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

 

 

 

 

Ah! Como te quero, minha musa — e não nego, pois negar-te seria negar o próprio sangue que me corre.

 

Há em tuas curvas um convite silencioso, desses que não se fazem com palavras, mas com o simples aceno do corpo, como quem diz:

 

“aproxima-te, se tens coragem”. E eu, que nunca fui homem de recuar diante de um bom mistério, deixo-me levar.

 

Navegar por teus contornos dá-me prazer que não ouso disfarçar. O perfume que exalas — misto de flor noturna e promessa ardente — chega a mim como vento favorável às velas de um navio mercante, desses que cruzam mares distantes trazendo histórias, especiarias e tentações que o mundo finge desconhecer. E, tal qual mastruz firme sob o sopro constante, fico eu amarrado ao encanto de teu calor, sem intenção alguma de soltar-me.

 

Teu arfar em cada beijo trocado revela mais do que teus lábios admitiriam. E quando meus dentes, um tanto levianos, pousam em teu dorso, sinto o estremecer que te percorre, como se o próprio espírito resolvesse abandonar a razão por alguns instantes. É ali, nesse breve intervalo entre o pudor e o desejo, que percebo teu arquejo mais sincero.

 

E tu, em murmúrios que parecem temer o ouvido do mundo, sussurras-me baixinho:

 

— Aiii... devagar, amor... não vou fugir.

 

Ora, quem disse que eu queria que fugisses? Se o destino, sempre caprichoso, alinhou nossos passos, que culpa tenho eu de querer-te inteira — com teus receios, teus rubores e tua chama escondida? E tu, que finges delicadeza enquanto o coração pulsa descompassado, bem sabes que esse pedido — “devagar” — nada mais é do que a mais deliciosa das provocações.

 

E assim seguimos: tu entregue ao momento, eu entregue a ti — ambos culpados, ambos inocentes, como costuma acontecer nas coisas que realmente valem a pena.

 

 

 

A Voz da Musa

 

Não sei ao certo quando ele começou a me observar assim: com esse cuidado de quem lê um livro raro, virando cada página com receio de rasgá-la. Talvez tenha sido naquela tarde em que o sol, atrevido como sempre, resolveu beijar minhas espáduas sem aviso. Ou talvez antes, quando meus olhos — que dizem ser oblíquos, mas não confirmo — se demoraram um segundo além do permitido nos olhos dele. Um segundo apenas, e pronto: nasceu ali um incêndio que ambos fingimos não perceber.

 

Ele vem com esse jeito de homem que se julga dono de si, mas se entrega sem notar. Toca minhas curvas como quem tacteia um mapa antigo: com medo de perder a rota e, ao mesmo tempo, desejoso de se perder nela. E eu permito — claro. Com a condição tácita de que ele acredite que sou eu quem cede, quando na verdade conduzo. Mas isso não se comenta; seria descortesia revelar o truque.

 

Quando seus lábios roçam os meus, sinto algo que não digo — e não direi. A mulher que revela tudo perde metade do encanto. Eu, que aprendi cedo o valor de uma meia-verdade, deixo que ele descubra apenas o suficiente para desejar o resto. E o resto… ah, isso guardo comigo, como fazem as marés com seus segredos.

 

Ele morde meu dorso, e meu corpo, traidor, responde antes que eu ordene silêncio. Arquejo — por que negar? — mas o faço com elegância. Há estremecimentos mais convincentes quando suavemente disfarçados. A entrega absoluta é para tolas; eu prefiro o abismo calculado.

 

E então lhe peço, num murmúrio quase tímido — quase — que vá devagar. Não por medo, entenda, mas porque há prazeres que nascem justamente da espera. A arte da antecipação, se quiser um termo. Ele acredita que peço calma por delicadeza; deixo-o acreditar. Aos homens é preciso conceder certas ilusões para que se sintam heróis de um romance que, no fundo, quem escreve somos nós.

 

E se digo que não vou fugir, é porque realmente não fugirei — mas não por submissão, nunca. Fico porque quero, porque me agrada o modo como ele me deseja: essa mistura de força contida e ardor mal disfarçado. Fico porque, no balanço das horas, ele me diverte. E divertir uma mulher é, muitas vezes, o primeiro passo para que ela se apaixone — ou diga que sim, ainda que pensando em talvez.

 

No fim, sigo ali: entregue e senhora de mim ao mesmo tempo, permitindo que ele pense que conduz. Pois o encanto maior, meu querido, é deixar o jogo correr enquanto sorrimos, sabendo que poderíamos mudá-lo a qualquer instante.

 

 

 

 

A Partida

 

— Então é isso… — diz ele, com ar de tristeza. — Amanhã, ao romper da aurora, sigo viagem. Negócios, compromissos… essas palavras secas que o mundo inventa para separar o que o coração quer juntar.

 

— Eu sei. — diz ela — Mas já sinto… veja só que tolice… uma saudade que nem direito nasceu e já dói. Parece que meu peito, traidor de sempre, clama por teu regresso antes que teus passos sequer deixem o portão.

 

— Saudade antecipada? — ele sorri. — Essa é nova. Não te bastavam as que o tempo traz naturalmente?

 

Ela sorri com aqueles olhos que nunca dizem tudo:

 

— Não sou responsável pelo que sinto, apenas pelo que permito que vejam. E agora… por mais que eu finja leveza, por dentro há um golpezinho — desses que não matam, mas incomodam o resto do dia.

 

— Se eu pudesse, cancelaria tudo — diz ele. — Mas há dívidas antigas que cobram presença. A vida, minha querida, não aceita fiador.

 

— Eu sei… — diz ela, com pesar. — E não te impeço, nem quero. Apenas…

 

Abaixa os olhos.

 

— … saber que vais, sem data certa para voltar, deixa-me meio desalinhada por dentro, como vestido que se amarrota ao vento.

 

— Hei de voltar — diz ele, firme. — E se soubesses como me custa partir…

 

Aproxima-se e segura-lhe o queixo com suavidade.

 

— Não imaginas o peso escondido por trás de cada mala arrumada.

 

— Imagino, sim — diz ela. — Ou finjo imaginar — o que, convenhamos, produz quase o mesmo efeito.

 

Respira fundo.

 

— Deixa eu confessar uma indiscrição: esta noite, quando te vi adormecer, tive vontade de segurar tua mão, só para ter certeza de que ainda estava ali… como se o sono já fosse uma espécie de partida.

 

— E por que não o fizeste? — pergunta ele.

 

— Porque não queria que acordasses e me achasses frágil — diz ela, com charme no olhar. — Mulher que demonstra demais perde metade do encanto, já te disse isso.

 

— Pois eu te digo outra verdade — diz ele. — O encanto maior está justamente no que tentas esconder.

 

Ela solta um riso breve, quase tímido:

 

— Então estás perdido, meu caro. Porque o que sinto agora…

 

Toca o próprio peito.

 

— … não passa por disfarce algum. É simples, claro, imprudente: vou sentir tua falta. E muito antes da hora.

 

— Então prometo que volto — diz ele, com consternação. — E quando voltar, quero encontrar esse mesmo olhar… o que diz sem dizer, o que pede sem pedir.

 

— Volta logo — diz ela — ou meu coração vai te escrever cartas sem papel.

 

— E eu as lerei todas — diz ele — ainda que não existam.

 

Aproximam-se. O beijo é lento, de despedida que já anuncia reencontro. Ela apoia o rosto no peito dele; ele respira fundo, como quem tenta guardar o perfume para levar consigo.

 

— Vai… — sussurra ela — antes que eu invente um pretexto para te prender aqui.

 

Ele sorri:

 

— Já estou preso. E não reclamo das correntes.

 

 

 

Nota ao Leitor 

 

Estava eu à beira-mar com minha esposa, aproveitando um dia de praia neste feriado prolongado no litoral de São Paulo. Não sou dado a me aventurar pelas águas; prefiro permanecer sentado, sob o abrigo generoso de um guarda-sol, lendo um bom livro. Desta vez, relia O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

 

Tinha ao alcance das mãos uma água com gás e uma caipvodka bem feita — vodka, limão, gelo e açúcar — enquanto acompanhava, mais uma vez, a intensa história de Edmond Dantès e sua amada Mercédès Mondego, talvez o par romântico mais marcante do romance.

 

Entre um capítulo e outro, observava o movimento da praia: gente indo e vindo, corpos belos, delineados, outros nem tanto — todos, porém, mergulhados em suas próprias histórias. Foi então que me veio a ideia de compor a narrativa que você acaba de ler.

 

A vida, como sempre, imitando a arte — ou talvez a arte dando forma ao que a vida sussurra.

 

--//--

 

Obrigado nobre mestre RickSteindorfer, por sua interação.

 

Felipe, teu conto é mar que encanta,

é voz que sussurra, é verso que canta.

Entre o Monte Cristo e o sopro do mar,

teu texto é viagem, é ponte a sonhar. 

 

Tu crias imagens de pura beleza,

com rima que dança, com alma acesa.

Cada palavra é chama que guia,

cada linha é luz, é pura poesia. 

 

Teu conto é farol na noite serena,

é arte que toca, é força que acena.

Felipe, amigo, tua escrita é flor,

um dom que consola e espalha amor. 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 23/11/2025
Alterado em 24/11/2025
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