O sol já ia alto quando Agnaldo se levantou. Por estar desempregado, agora acordava sempre tarde. Só apareceu à mesa do café da manhã depois das nove. Estava tomando café quando a campainha tocou. Sua mãe foi atender. Alguns minutos depois, voltou com um envelope branco na mão, escrito em letras grandes:
ADVOCACIA MENDES — Direito da Vara da Família e Trabalhista
— É para você, Agnaldo — disse ela, entregando-lhe o envelope.
Ele largou a xícara de lado e pegou o envelope. Observou o remetente, conferiu o destinatário e o abriu. Retirou a folha de dentro, leu devagar, fez uma expressão de decepção, bufou e deixou o papel sobre a mesa.
Agnaldo olhou para a janela da cozinha, onde o sol batia forte, iluminando uma casa que, de repente, parecia grande demais para ele. Os risos, as brigas, a rotina… tudo tinha ficado para trás, e o vazio que sobrara mal cabia no peito.
— Eu só queria um pouco de sossego… — disse por fim. — Um dia em que eu pudesse acordar sem ter uma bomba dessas pra resolver.
Sua mãe suspirou, com a calma de quem já enfrentou muitas tempestades.
— A vida nem sempre pergunta se a gente está preparado, meu filho. Só exige que a gente siga. Toda ação tem consequência; a gente colhe o que planta.
Ele esboçou um sorriso sem humor.
— Fácil falar, né, mãe?
— Não, meu filho. Não é fácil. Mas é preciso.
Agnaldo dobrou o comunicado, apoiou os cotovelos na mesa e ficou ali, quieto, como quem tenta entender em que momento tudo havia se perdido.
— Quer que eu faça um café fresco? — perguntou ela, tentando amenizar o peso da notícia.
— Não… — respondeu ele, levantando-se devagar. — Acho que vou dar uma volta. Preciso esfriar a cabeça.
Pegou a chave do carro em cima do balcão, passou a mão pela nuca e caminhou até a porta. Antes de sair, sua mãe ainda o chamou:
— Agnaldo… seja forte, viu? Isso tudo vai passar.
Ele assentiu, sem olhar para trás.
— Tomara, mãe… tomara.
Entrou no seu Onix sedan e saiu. O sol lá fora parecia mais quente do que de costume — ou talvez fosse apenas o peso do dia queimando demais o coração dele. Dirigia sem destino certo.
***
Niele estava na varanda da casa de praia enquanto seu notebook iniciava. Observava os transeuntes indo e vindo. Assim que a tela abriu, foi verificar seus e-mails. Entre os mais recentes estava o comunicado do escritório de advocacia. A audiência para o divórcio havia sido marcada para o dia vinte e oito do mês seguinte.
Ela esboçou um sorriso de contentamento.
— Até que enfim… vou estar livre de vez para seguir em frente, reconstruir minha vida — murmurou.
***
Os dias na praia seguiram serenos. Pela manhã, Niele e Rômulo caminhavam na areia molhada. À tarde, liam sob o guarda-sol, dividindo goles de água de coco e trocando olhares silenciosos. À noite, deixavam-se embalar pelo som do mar e das estrelas, como se o tempo tivesse diminuído o passo só para que pudessem se curar.
Em uma dessas noites, Niele despertou no meio da madrugada. O quarto estava mergulhado na penumbra, mas a luz azulada da lua invadia pelas frestas da cortina. Ela se levantou devagar, pegou uma manta fina e foi até a varanda da casa.
Sentou-se numa cadeira de vime e ficou ali, ouvindo o barulho das ondas. Pela primeira vez em meses, sentiu vontade de chorar — mas não de dor. Eram lágrimas de alívio, como se o corpo finalmente aceitasse que podia descansar.
Minutos depois, sentiu os passos suaves de Rômulo se aproximando.
— Está tudo bem? — perguntou ele, em voz baixa, quase num sussurro.
Niele o olhou com os olhos ainda marejados.
— Acho que sim… Pela primeira vez em muito tempo, acho que está começando a ficar tudo bem. Não te disse, mas ontem recebi um e-mail do escritório de advocacia. A audiência do divórcio já tem data marcada.
Ele se sentou ao lado dela, em silêncio. Pegou sua mão e entrelaçou os dedos nos dela. Ficaram assim por um longo tempo, sem pressa, como quem sabe que a cura não vem de uma vez — mas vem.
— Como é a vida… — disse Niele, enxugando as lágrimas com o dorso da mão. — Minha mãe, quando comprou esta casa, sonhava em passar aqui o resto dos dias. Mas a verdade é que quase não teve tempo de aproveitar…
Fez uma pausa, respirou fundo e continuou:
— Ela sofreu um AVC, morreu num leito de hospital. Houve um período em que pensei em vender tudo. Achava que não fazia mais sentido ficar. Mas uma amiga me aconselhou a alugar a casa por temporada… e, no fim, acabei ouvindo.
Os olhos de Niele se perderam por um instante, como se revivesse a cena.
— E hoje, pouco antes de acordar, sonhei com ela. Me abraçava forte, como fazia quando eu era criança, e me disse: “Vai passar, filha… Descer um degrau não é o fim. O que importa é seguir subindo, um passo de cada vez.”
Rômulo a envolveu com um abraço silencioso. Por um instante, nenhuma palavra foi necessária. Apenas o som do mar, o calor da memória e a certeza de que o amor — mesmo ausente — seguia presente, costurando os dias com esperança.
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Não deixem de conferir o capítulo 16 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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