Rômulo envolvia os ombros de Niele com carinho, mantendo-a acolhida em seu abraço. Ela parecia encontrar abrigo naquele gesto, como se finalmente pudesse repousar parte do peso que carregava. Ele estava curioso para saber o que havia acontecido na sessão com o psicólogo, mas não tinha coragem de perguntar diretamente. Deslizou a mão pela dela, em silêncio por um instante, antes de indagar com suavidade:
— Querida… o que aconteceu lá no psicólogo? Por que voltou tão cedo pra casa?
Niele suspirou, apoiando ainda mais o corpo sobre o peito dele. A voz saiu baixa, mas firme:
— Fui diagnosticada com Burnout. A partir de hoje estou de licença... por trinta dias.
— Burnout? — repetiu ele, franzindo o cenho. — O que exatamente é isso?
Ela fez uma breve pausa antes de explicar:
— É a Síndrome de Burnout... também chamada Síndrome do Esgotamento Profissional. É um colapso emocional causado por estresse crônico no trabalho. A pessoa vai se esgotando aos poucos, até não conseguir mais lidar com a rotina. Sabe aquela sensação de estar sempre no limite? É isso... Cansaço extremo, ansiedade, sensação de fracasso… tudo misturado. Não acontece de um dia pro outro — vai se acumulando.
Os olhos de Niele se umedeceram.
— No meu caso, o doutor Freud acredita que foi porque tudo aconteceu de uma vez só... minha separação, a crise hospitalar que quase tirou você de mim... Tudo numa sequência quase ininterrupta. Esses três meses em que você ficou internado, eu quase não dormi.
Rômulo apertou a mão dela com mais firmeza, como quem tenta passar segurança só com o toque.
— Eu te agradeço por ter cuidado de mim, Niele. Devo minha vida a você... Mas esse tal de Burnout tem cura?
— Depende... varia de pessoa pra pessoa. O tratamento é multidisciplinar: psicoterapia, mudanças de hábitos e, às vezes, remédios. No meu caso, o doutor Freud já me passou antidepressivo, ansiolítico e recomendou terapia cognitivo-comportamental. Tomei o primeiro comprimido assim que cheguei.
Ele a olhou com ternura.
— Tenho certeza de que você vai superar isso. Você é uma guerreira, Niele.
Ela esboçou um sorriso cansado.
— Espero... O doutor disse que é importante eu fazer o que gosto, relaxar, respirar. Até sugeriu que eu fosse pra praia, que aproveitasse a vida um pouco.
— Então vamos! Vamos hoje mesmo! — disse ele, com entusiasmo repentino.
Ela riu de leve, balançando a cabeça.
— Calma... melhor amanhã. Ainda não sei como meu corpo vai reagir à medicação. E você ainda não está cem por cento… não pode dirigir. Vamos com calma, Rômulo.
— Tá certo… você tem razão.
Ele a abraçou mais forte, como se aquele gesto pudesse protegê-la do mundo.
O silêncio se estendeu por alguns segundos, quebrado apenas pelo som suave da chuva fina que começava a cair lá fora, tamborilando na vidraça da varanda. O céu, nublado desde o início da tarde, agora tingia o ambiente com uma luz acinzentada e morna, como se o mundo lá fora compartilhasse da mesma exaustão que Niele sentia por dentro.
Ela recostou a cabeça no ombro de Rômulo, os olhos fixos em nada. O coração batia mais calmo, como se o simples fato de estar ali, naquele abraço, trouxesse um alívio imediato.
— Sabe… — disse ela, com voz baixa, quase um sussurro — eu me sentia culpada por estar cansada. Como se fosse fraqueza... como se fosse errada por não aguentar tudo.
— Você não tem culpa de nada, Niele — respondeu ele, com firmeza e doçura ao mesmo tempo. — Ninguém aguentaria tanto por tanto tempo. Você passou por meses de guerra. Só que, em vez de tiros e bombas, foram plantões, sirenes, dores e despedidas.
Ela virou o rosto e repousou a testa no peito dele.
— Às vezes, eu sinto que falhei com tanta gente. Com os pacientes, com você, comigo mesma...
— Ei... — ele a interrompeu, levantando delicadamente o queixo dela para que se olhassem.
— Você salvou vidas. Quantas pessoas te agradeceram? Quantas famílias voltaram inteiras pra casa por causa de você? Se isso é falhar... então o mundo está de cabeça pra baixo.
Uma lágrima escorreu silenciosa dos olhos dela. Mas não era de dor — era de alívio. Um desabafo mudo, o tipo de lágrima que vem quando, enfim, alguém nos enxerga por dentro.
— Obrigada por estar aqui... — murmurou ela.
— Sempre estive. Mesmo quando você estava longe, no hospital, esgotada... eu continuava lá, sem saber se iria sobreviver. Esperando, hora após hora.
Niele fechou os olhos e suspirou longo, como quem permite que um peso escorregue dos ombros.
Do lado de fora, o barulho da chuva agora se misturava ao canto esporádico de um sabiá que insistia em permanecer no jardim. A casa, simples e acolhedora, parecia envolta por um casulo de paz momentânea.
— Amanhã a gente vai pra praia — disse ele, com um leve sorriso. — Vamos ver o mar, sentir a brisa no rosto, molhar os pés na areia… esquecer do mundo por um instante. Nos recuperar dessa calamidade que se abateu sobre nossas vidas.
— Eu adoraria... — respondeu ela, mais serena. — Faz tempo que não vejo o mar. Talvez ele me lembre quem eu sou sem o jaleco, sem o cansaço, sem a pressa.
Rômulo encostou os lábios na testa dela, num beijo lento, silencioso. Um gesto de cuidado. De amor sem pressa.
Ficaram ali por mais alguns minutos, abraçados na varanda, enquanto a casa mergulhava no som ritmado da chuva. Pela primeira vez em semanas, Niele se permitiu sentir um fio de esperança.
— Essa manhã eu compus uma nova música — disse Rômulo, quebrando o silêncio. — Quer ouvir? Os acordes ainda não estão prontos, mas...
— Toque pra eu ouvir.
***
— Dona Niele, desculpe incomodar... mas já estou indo — disse Francisca. — Deixei o jantar pronto, é só esquentar.
— Obrigada, Fran. O dinheiro está em cima da mesa da sala. E não precisa vir na semana que vem... nós vamos para a praia amanhã e provavelmente ficaremos uns trinta dias por lá. Mas não se preocupe, você vai receber direitinho toda semana. Pode deixar sua chave Pix anotada sobre a mesa, ou me mandar pelo WhatsApp se preferir.
— Dona Francisca — disse Rômulo — poderia me trazer o violão que está na sala?
— Sim, senhor Rômulo.
Em segundos, Francisca voltou com o instrumento.
— Aqui está, senhor Rômulo. Boa viagem pra vocês.
— Obrigada, Fran, por tudo — disse Niele.
Rômulo pegou o violão e começou a tocar.
— É um blues romântico. Progressão base: clássico blues de 12 compassos em E. Imagino uma introdução de oito compassos — guitarra com leve slide e gaita em notas longas. Com a banda toda vai soar bem... mas, por ora, só tenho o violão.
Ele tocou alguns acordes introdutórios e começou a cantar:
Você tá tão calada,
Fala comigo, amor...
Não guarde seus segredos,
Deixa o coração compor...
Fale comigo, bebê,
A noite é fria demais,
Que tal um blues bem suave,
E o vinho pra gente brindar...
Vem balançar comigo, amor,
Deixa o corpo soltar o calor,
Sente o ritmo, sente o som,
Deixa o blues curar a dor...
Yeah, vem comigo, amor,
Hoje o mundo é só nós dois...
Niele olhava para Rômulo com admiração. Por um momento, ela se permitiu esquecer os problemas.
— É lindo esse blues. Vai ser sucesso.
— Fiz pensando em você.
— Obrigada.
Eles se beijaram, e Rômulo continuou a cantar.
Na manhã seguinte, bem cedo, acordaram ao som do despertador. O céu ainda estava em tons pálidos, anunciando o nascer do sol. Tomaram um café leve, conferiram os últimos detalhes e, com as malas prontas, partiram rumo à praia — animados com a ideia de descanso e recomeço.
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Não deixem de conferir o capítulo 14 parte 2 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível
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