FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

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Rômulo envolvia os ombros de Niele com carinho, mantendo-a acolhida em seu abraço. Ela parecia encontrar abrigo naquele gesto, como se finalmente pudesse repousar parte do peso que carregava. Ele estava curioso para saber o que havia acontecido na sessão com o psicólogo, mas não tinha coragem de perguntar diretamente. Deslizou a mão pela dela, em silêncio por um instante, antes de indagar com suavidade:

 

— Querida… o que aconteceu lá no psicólogo? Por que voltou tão cedo pra casa?

 

Niele suspirou, apoiando ainda mais o corpo sobre o peito dele. A voz saiu baixa, mas firme:

 

— Fui diagnosticada com Burnout. A partir de hoje estou de licença... por trinta dias.

 

— Burnout? — repetiu ele, franzindo o cenho. — O que exatamente é isso?

 

Ela fez uma breve pausa antes de explicar:

 

— É a Síndrome de Burnout... também chamada Síndrome do Esgotamento Profissional. É um colapso emocional causado por estresse crônico no trabalho. A pessoa vai se esgotando aos poucos, até não conseguir mais lidar com a rotina. Sabe aquela sensação de estar sempre no limite? É isso... Cansaço extremo, ansiedade, sensação de fracasso… tudo misturado. Não acontece de um dia pro outro — vai se acumulando.

 

Os olhos de Niele se umedeceram.

 

— No meu caso, o doutor Freud acredita que foi porque tudo aconteceu de uma vez só... minha separação, a crise hospitalar que quase tirou você de mim... Tudo numa sequência quase ininterrupta. Esses três meses em que você ficou internado, eu quase não dormi.

 

Rômulo apertou a mão dela com mais firmeza, como quem tenta passar segurança só com o toque.

 

— Eu te agradeço por ter cuidado de mim, Niele. Devo minha vida a você... Mas esse tal de Burnout tem cura?

 

— Depende... varia de pessoa pra pessoa. O tratamento é multidisciplinar: psicoterapia, mudanças de hábitos e, às vezes, remédios. No meu caso, o doutor Freud já me passou antidepressivo, ansiolítico e recomendou terapia cognitivo-comportamental. Tomei o primeiro comprimido assim que cheguei.

 

Ele a olhou com ternura.

 

— Tenho certeza de que você vai superar isso. Você é uma guerreira, Niele.

 

Ela esboçou um sorriso cansado.

 

— Espero... O doutor disse que é importante eu fazer o que gosto, relaxar, respirar. Até sugeriu que eu fosse pra praia, que aproveitasse a vida um pouco.

 

— Então vamos! Vamos hoje mesmo! — disse ele, com entusiasmo repentino.

 

Ela riu de leve, balançando a cabeça.

 

— Calma... melhor amanhã. Ainda não sei como meu corpo vai reagir à medicação. E você ainda não está cem por cento… não pode dirigir. Vamos com calma, Rômulo.

 

— Tá certo… você tem razão.

 

Ele a abraçou mais forte, como se aquele gesto pudesse protegê-la do mundo.

 

O silêncio se estendeu por alguns segundos, quebrado apenas pelo som suave da chuva fina que começava a cair lá fora, tamborilando na vidraça da varanda. O céu, nublado desde o início da tarde, agora tingia o ambiente com uma luz acinzentada e morna, como se o mundo lá fora compartilhasse da mesma exaustão que Niele sentia por dentro.

 

Ela recostou a cabeça no ombro de Rômulo, os olhos fixos em nada. O coração batia mais calmo, como se o simples fato de estar ali, naquele abraço, trouxesse um alívio imediato.

 

— Sabe… — disse ela, com voz baixa, quase um sussurro — eu me sentia culpada por estar cansada. Como se fosse fraqueza... como se fosse errada por não aguentar tudo.

 

— Você não tem culpa de nada, Niele — respondeu ele, com firmeza e doçura ao mesmo tempo. — Ninguém aguentaria tanto por tanto tempo. Você passou por meses de guerra. Só que, em vez de tiros e bombas, foram plantões, sirenes, dores e despedidas.

 

Ela virou o rosto e repousou a testa no peito dele.

 

— Às vezes, eu sinto que falhei com tanta gente. Com os pacientes, com você, comigo mesma...

 

— Ei... — ele a interrompeu, levantando delicadamente o queixo dela para que se olhassem.

 

— Você salvou vidas. Quantas pessoas te agradeceram? Quantas famílias voltaram inteiras pra casa por causa de você? Se isso é falhar... então o mundo está de cabeça pra baixo.

 

Uma lágrima escorreu silenciosa dos olhos dela. Mas não era de dor — era de alívio. Um desabafo mudo, o tipo de lágrima que vem quando, enfim, alguém nos enxerga por dentro.

 

— Obrigada por estar aqui... — murmurou ela.

 

— Sempre estive. Mesmo quando você estava longe, no hospital, esgotada... eu continuava lá, sem saber se iria sobreviver. Esperando, hora após hora.

 

Niele fechou os olhos e suspirou longo, como quem permite que um peso escorregue dos ombros.

 

Do lado de fora, o barulho da chuva agora se misturava ao canto esporádico de um sabiá que insistia em permanecer no jardim. A casa, simples e acolhedora, parecia envolta por um casulo de paz momentânea.

 

— Amanhã a gente vai pra praia — disse ele, com um leve sorriso. — Vamos ver o mar, sentir a brisa no rosto, molhar os pés na areia… esquecer do mundo por um instante. Nos recuperar dessa calamidade que se abateu sobre nossas vidas.

 

— Eu adoraria... — respondeu ela, mais serena. — Faz tempo que não vejo o mar. Talvez ele me lembre quem eu sou sem o jaleco, sem o cansaço, sem a pressa.

 

Rômulo encostou os lábios na testa dela, num beijo lento, silencioso. Um gesto de cuidado. De amor sem pressa.

 

Ficaram ali por mais alguns minutos, abraçados na varanda, enquanto a casa mergulhava no som ritmado da chuva. Pela primeira vez em semanas, Niele se permitiu sentir um fio de esperança.

 

— Essa manhã eu compus uma nova música — disse Rômulo, quebrando o silêncio. — Quer ouvir? Os acordes ainda não estão prontos, mas...

 

— Toque pra eu ouvir.

 

***

 

— Dona Niele, desculpe incomodar... mas já estou indo — disse Francisca. — Deixei o jantar pronto, é só esquentar.

 

— Obrigada, Fran. O dinheiro está em cima da mesa da sala. E não precisa vir na semana que vem... nós vamos para a praia amanhã e provavelmente ficaremos uns trinta dias por lá. Mas não se preocupe, você vai receber direitinho toda semana. Pode deixar sua chave Pix anotada sobre a mesa, ou me mandar pelo WhatsApp se preferir.

 

— Dona Francisca — disse Rômulo — poderia me trazer o violão que está na sala?

 

— Sim, senhor Rômulo.

 

Em segundos, Francisca voltou com o instrumento.

 

— Aqui está, senhor Rômulo. Boa viagem pra vocês.

 

— Obrigada, Fran, por tudo — disse Niele.

 

Rômulo pegou o violão e começou a tocar.

 

— É um blues romântico. Progressão base: clássico blues de 12 compassos em E. Imagino uma introdução de oito compassos — guitarra com leve slide e gaita em notas longas. Com a banda toda vai soar bem... mas, por ora, só tenho o violão.

 

Ele tocou alguns acordes introdutórios e começou a cantar:

 

 

Você tá tão calada,

Fala comigo, amor...

Não guarde seus segredos,

Deixa o coração compor...

 

Fale comigo, bebê,

A noite é fria demais,

Que tal um blues bem suave,

E o vinho pra gente brindar...

 

Vem balançar comigo, amor,

Deixa o corpo soltar o calor,

Sente o ritmo, sente o som,

Deixa o blues curar a dor...

Yeah, vem comigo, amor,

Hoje o mundo é só nós dois...

 

 

Niele olhava para Rômulo com admiração. Por um momento, ela se permitiu esquecer os problemas.

 

— É lindo esse blues. Vai ser sucesso.

 

— Fiz pensando em você.

 

— Obrigada.

 

Eles se beijaram, e Rômulo continuou a cantar.

 

Na manhã seguinte, bem cedo, acordaram ao som do despertador. O céu ainda estava em tons pálidos, anunciando o nascer do sol. Tomaram um café leve, conferiram os últimos detalhes e, com as malas prontas, partiram rumo à praia — animados com a ideia de descanso e recomeço.

 

 

 

--//--

 

Não deixem de conferir o capítulo 14 parte 2 da série de contos NO DIVÃ!

 

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível

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Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 12/11/2025
Alterado em 17/11/2025
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