O aroma do filé à parmegiana começava a se espalhar pela casa, mas Rômulo ainda permanecia na rede, os olhos semicerrados, sentindo a brisa leve que soprava do quintal. O canto de um sabiá o despertou de um breve cochilo. Espreguiçou-se devagar e ficou ali por mais um instante, ouvindo os sons da casa — e do mundo.
Foi então que notou o silêncio vindo do interior.
Niele sempre fora silenciosa, mas havia algo diferente naquele silêncio: espesso, pesado, como se a casa tivesse perdido um pouco da própria cor.
Levantou-se da rede, calçou os chinelos e caminhou devagar em direção ao quarto. Parou na porta entreaberta e viu Niele encolhida na cama, de lado, abraçada ao travesseiro. Ela não dormia, mas tampouco parecia desperta — estava longe, num lugar só dela.
Rômulo não entrou de imediato. Ficou ali, respeitando aquele território invisível de dor que não compreendia por completo, mas que reconhecia. Sabia que Niele carregava muito mais do que as palavras podiam dizer. Havia sobrevivido, sim — mas com cicatrizes que ainda sangravam por dentro.
— Nê... — chamou ele, com doçura.
Ela virou apenas o rosto em sua direção. Os olhos, ainda marejados, denunciavam um cansaço antigo.
— O almoço tá quase pronto... Francisca disse que você quis deitar um pouco. — Fez uma pausa, e a voz lhe saiu mais baixa: — Precisa de alguma coisa?
Niele balançou a cabeça em negativa e forçou um sorriso leve.
— Só ficar aqui um pouquinho... já ajuda.
Rômulo assentiu com um meio sorriso. Entrou no quarto em passos calmos, sentou-se à beira da cama, próximo aos pés dela, e passou a mão devagar sobre a coberta — gesto simples, mas inteiro.
— Tá tudo bem, Nê. Se quiser conversar... ou só ficar em silêncio... eu tô aqui.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Sentia-se segura com ele ali — mesmo sem palavras, mesmo sem explicações. Era como se aquele momento dissesse tudo: que ela não estava sozinha.
E isso, por ora, bastava.
***
O almoço foi silencioso, mas sereno. Francisca serviu os pratos com cuidado, sem forçar conversa. Rômulo e Niele sentaram-se à mesa como quem habita um espaço sagrado — não pelo ritual da comida, mas pelo cuidado mútuo que pairava no ar.
Rômulo puxou a cadeira para ela e esperou que se servisse. Niele quase não comia, mas fez um esforço: picava lentamente o filé no prato, mastigando devagar. O sabor, que em outros tempos despertaria sorrisos e elogios à cozinheira, agora parecia distante. Ainda assim, quis provar. Quis estar ali.
Após a refeição, Francisca recolheu os pratos em silêncio, percebendo que era hora de deixá-los a sós.
Na varanda, o céu começava a adquirir tons dourados, e um vento mais fresco soprava do leste. Rômulo fez um gesto para que Niele se aproximasse, e ela, num impulso quase inconsciente, aceitou.
Sentaram-se lado a lado num banco de madeira sob o alpendre. Ele esticou as pernas, apoiando os braços no encosto; ela cruzou os braços sobre o colo, o roupão trocado por uma roupa leve de algodão. Os cabelos, ainda úmidos, caiam soltos sobre os ombros.
— Tem coisa que a gente não consegue explicar, né, Nê? — disse Rômulo, olhando para o horizonte.
Ela permaneceu em silêncio. Olhava para fora, mas os olhos pareciam voltados para dentro.
— Mas não precisa explicar nada... não agora. Só queria que você soubesse que eu tô vendo. Tô sentindo esse peso... mesmo sem entender direito o que ele é.
Ela respirou fundo. Os olhos marejaram outra vez, mas agora não era dor pura. Havia ali uma fresta — pequena, mas real.
— Eu... não sei mais como voltar — disse, por fim, num fio de voz. — Tudo mudou. Aqui fora parece igual, mas dentro de mim... é como se tivesse passado um furacão. E eu ainda tô catando os cacos. Sozinha.
Rômulo virou-se levemente para ela. Tocou-lhe a mão com delicadeza.
— Não tá sozinha, não. Eu tô aqui. E não vou sair.
Niele desviou o olhar para ele, como quem quer acreditar. Como quem precisa ouvir isso mais de uma vez — todos os dias — até voltar a confiar: na vida, nas pessoas, em si mesma.
— Você é forte, Niele. Mas não precisa ser o tempo todo.
Ela fechou os olhos por um instante, e uma lágrima solitária escorreu-lhe pelo rosto. Rômulo a enxugou com o dorso dos dedos, sem dizer nada. Era o gesto que ela precisava: sem pressa, sem cobrança.
E ali, naquela varanda simples, com o cheiro da tarde e o som das folhas ao vento, Niele sentiu — pela primeira vez em semanas — uma nesga de paz.
Ainda havia um longo caminho.
Mas agora, ela sabia: não precisaria trilhá-lo sozinha.
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Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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