FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Nelie foi até a recepção em passos lentos, como quem atravessa o tempo. Diante da máquina de bebidas, hesitou um instante. Depois, selecionou um cappuccino, inseriu o cartão no local indicado e aguardou. Observou, com certa apatia, a máquina dispensar o copo descartável no compartimento abaixo. O barulho da bebida caindo dentro do recipiente ecoou suave, como se marcasse os segundos de uma existência suspensa.

 

Quando o fluxo cessou, pegou o copo com as duas mãos, como se fosse algo frágil — ou como se ela mesma estivesse frágil. Levou-o aos lábios e tomou um pequeno gole. O sabor doce e quente a fez fechar os olhos por um instante, como se aquele simples momento lhe devolvesse um fiapo de humanidade.

 

Caminhou até uma das cadeiras da sala de espera e sentou-se. Ficou ali, imóvel, tomando o cappuccino lentamente, alheia aos ruídos, às conversas, aos passos apressados de médicos e enfermeiros. O mundo parecia distante. Sua mente flutuava, e por alguns minutos ela apenas existiu em silêncio, com o olhar perdido em nada.

 

Foi só quando ouviu a voz chamando seu nome que voltou ao presente:

 

— Sra. Nelie, o Dr. Freud está te chamando.

 

Ela levantou o rosto, acenou com a cabeça e se ergueu com esforço contido. Caminhou até a porta indicada, onde o médico a esperava com semblante sereno.

 

— Aqui está, Nelie — disse ele, entregando-lhe dois papéis. — Esta é a carta que vou encaminhar à direção do hospital, explicando sua situação. E esta, uma receita. Um dos medicamentos vai ajudá-la a dormir; o outro vai mantê-la mais estável durante o dia.

 

Ele fez uma breve pausa e acrescentou, com voz firme, porém afetuosa:

 

— Vamos nos ver daqui a dez dias, por videoconferência. Te mando o link antes da consulta. Até lá, tente descansar de verdade... aproveite esse tempo para cuidar de si. Vá para a praia, sinta o sol, ouça o mar... permita-se respirar.

 

Nelie assentiu, segurando os papéis com dedos trêmulos, como quem segura uma promessa de alívio. Não disse nada, mas seus olhos marejados diziam tudo.

 

Guardou os papéis com cuidado na bolsa, como se fossem documentos sagrados. Despediu-se do doutor Freud com um olhar silencioso e saiu da sala devagar, passando novamente pela recepção. O mundo lá fora parecia mais barulhento do que quando ela entrara — ou talvez fosse o silêncio dentro dela que agora se contrastasse com a vida do lado de fora.

 

 

***

 

Do consultório do Dr. Freud, passou na farmácia próxima e comprou os medicamentos receitados. Depois, foi direto para o hospital. Entregou a carta de diagnóstico à secretária do Dr. Medina e foi embora.

 

Ao atravessar os corredores, cruzou com rostos conhecidos, mas evitou qualquer contato visual. Não queria perguntas, tampouco conselhos. Atravessou a porta de vidro da entrada principal como quem desperta de um longo transe. O sol lhe bateu no rosto com força — ela estreitou os olhos, ofuscada. O calor a envolveu e, por um instante, pareceu derreter o gelo que há dias endurecia seu peito.

 

Do lado de fora, os carros passavam, as pessoas andavam apressadas; algumas riam, outras olhavam fixamente para as telas dos celulares. A vida continuava — e ela estava, de algum modo, voltando para ela.

 

Foi até o carro no estacionamento do hospital. Quando entrou, selecionou o destino na tela do veículo: “Casa”. O carro deslizou pelas dependências do estacionamento e, ao sair para a rua, ela percebeu que não havia trânsito — o que a deixou aliviada.

 

Enquanto o carro percorria a cidade, Nelie deletava as preocupações com os pacientes da cabeça. De vez em quando, observava os prédios, as árvores, as vitrines. Viu uma moça com um bebê no colo e uma senhora alimentando pombos na calçada. Sentiu vontade de chorar, mas não chorou. Ainda não.

 

Ao chegar, estacionou o carro na garagem. Abriu a porta e respirou fundo. A casa parecia mais vazia do que lembrava. Havia silêncios espalhados por todos os cantos. Deixou a bolsa no sofá, tirou os sapatos, foi até a janela da sala e olhou o céu. Uma nuvem grande passava lentamente, como um navio de algodão.

 

Sentou-se no chão, abraçando os próprios joelhos. Fechou os olhos.

 

Ela não sabia ainda como seria o amanhã. Mas, pela primeira vez em muito tempo, teve a sensação de que talvez — só talvez — pudesse encontrar um caminho de volta para si mesma.

 

 

***

 

Francisca vinha da cozinha em direção à sala quando se deparou com Nelie sentada no chão, junto à porta.

 

— Meu Deus! O que houve, senhora Nelie? — exclamou, alarmada.

 

Nelie levantou o rosto, com um ar alheio, e respondeu com suavidade:

 

— Está tudo bem, Fran... Só estou um pouco exausta. Me perdoe, esqueci de passar no mercado — disse, já se levantando. — Você já limpou o que pedi?

 

— Sim, já limpei. Estou preparando o almoço. O senhor Rômulo pediu filé de frango à parmegiana.

 

— Ótimo, Francisca! E o Rômulo está no quarto?

 

— Não, senhora. Está lá nos fundos, deitado na rede.

 

— Que bom... Vou tomar um banho e deitar um pouco. Mais tarde vou ao mercado.

 

— Está bem, senhora Nelie. Assim que o almoço estiver pronto, eu aviso.

 

— Por favor. Ah, e avise o Rômulo que já cheguei.

 

Nelie seguiu para o quarto, entrou no banheiro e ficou sob o chuveiro, deixando a água cair sobre o corpo sem pressa. Enquanto a água escorria, seus pensamentos vagavam: como seria sua vida dali pra frente?

 

De repente, um tremor percorreu seu corpo inteiro, e ela desabou em um choro silencioso, profundo.

 

Depois de terminar o banho, enxugou-se com calma, vestiu o roupão, enrolou uma toalha nos cabelos, tomou o medicamento prescrito para ajudá-la a controlar as emoções ao longo do dia e deitou-se, em busca de algum descanso.

 

Deitada, olhava para o teto como quem busca respostas no branco das paredes. O ventilador girava lento, lançando sombras circulares pelas paredes, como se o tempo se arrastasse com o mesmo peso que ela carregava no peito.

 

Sentia o coração apertado, como se uma angústia invisível estivesse sentada sobre ele. Tentava respirar fundo, mas o ar parecia pesado, denso. Seu corpo estava exausto, mas sua mente insistia em permanecer acordada, rodopiando em pensamentos e lembranças que ela gostaria de silenciar.

 

Fechou os olhos. Por um breve momento, tentou lembrar de algo que lhe trouxesse paz — um sorriso, uma voz, um gesto simples. Pensou em Rômulo. Havia nele um carinho manso, uma força que sempre a acolhera. Mas agora até isso parecia distante, como se até os laços mais firmes tivessem se tornado frágeis.

 

Ouviu um som distante vindo da cozinha — o tilintar de panelas, talvez Francisca finalizando o almoço. A realidade a chamava de volta, mas Nelie queria apenas desaparecer por uns instantes. Apenas o suficiente para não sentir. Só um pouco de silêncio por dentro.

 

Virou-se de lado, abraçando o travesseiro. As lágrimas, agora mais calmas, ainda vinham — mas era um choro sem sobressaltos, quase resignado. Ela sabia que aquele processo não seria fácil. E que talvez ninguém entendesse o que se passava realmente dentro dela.

 

Havia cumprido seu dever, sobrevivera — mas deixara pedaços de si pelo caminho.

 

E naquele fim de manhã silencioso, enquanto o mundo seguia seu curso fora das janelas, Nelie apenas respirava, tentando reunir forças. Era só o começo da reconstrução. Mas, por ora, descansar já era o suficiente.

 

 

CONTINUA 

 

--//--

 

Não deixem de conferir o capítulo 13 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 07/11/2025
Alterado em 07/11/2025
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