Aquela quarta-feira amanheceu prometendo calor.
Niele levantou-se cedo, preparou o café e pôs a mesa. Rômulo ainda dormia — continuava afastado do trabalho, por orientação médica. Segundo o médico, ele precisaria fazer ao menos dez sessões de fisioterapia antes de uma nova reavaliação, para saber se estaria apto a retomar suas atividades.
Em casa, porém, vinha se recuperando bem. Com a ajuda de uma bengala, já conseguia ir ao banheiro sem auxílio. O banho, no entanto, ainda precisava ser tomado sentado, numa cadeira própria. Faltava-lhe firmeza nas pernas e paciência para lidar com a lentidão da própria melhora.
Quando Niele foi ao quarto chamá-lo, ele já estava no banheiro, escovando os dentes.
— Amor — disse ela —, o café está na mesa. Vai demorar aí? Preciso ir ao psicólogo.
— Não, querida — respondeu ele, com a boca cheia de espuma. — Já estou terminando.
Minutos depois, Rômulo se sentava à mesa. Nélia o serviu com o cuidado de sempre. Enquanto tomavam café, Francisca, a faxineira, chegou.
— Bom dia, dona Niele. Bom dia, seu Rômulo. Desculpe a demora... hoje os ônibus estavam lotados. Tive que esperar três passarem até conseguir entrar num.
Francisca depositou a bolsa sobre a cadeira da varanda e, num gesto automático, prendeu os cabelos num coque improvisado. No rosto, trazia o cansaço das calçadas e a pressa dos horários perdidos — mas ainda assim sorria com gentileza.
— Hoje o calor vai castigar — disse ela, já dobrando as mangas. — E o povo ainda insiste em fechar as janelas dos ônibus. Um horror!
Nélia respondeu com um sorriso cansado. Seus olhos, embora doces, carregavam preocupações que vinham se acumulando havia semanas. A recuperação de Rômulo exigia mais dela do que estava disposta a admitir.
— Sente-se, Fran, toma um café antes de começar. Eu preciso sair, mas deixei a lista de tarefas na geladeira, está bem? Tenho sessão às nove. Depois vou direto para o trabalho. Se der tempo, passo no mercado na volta.
— Obrigada, dona Niele, mas eu tomei café antes de sair de casa — disse Francisca, já arregaçando as mangas com mãos calejadas de tantas manhãs iguais àquela.
Rômulo, observando as duas, sorriu com um misto de gratidão e constrangimento. Ainda era difícil aceitar o papel de paciente. Acostumado a sair cedo, trabalhar o dia todo, resolver tudo com as próprias mãos... agora dependia de fisioterapia e de uma bengala para chegar até o banheiro. A vida tinha um senso de ironia cruel.
— Vai com Deus, meu bem — disse ele, quando Nélia pegou a bolsa.
Ela se aproximou, beijou-lhe a testa com delicadeza.
— Se cuida. E, por favor, nada de bancar o herói. Qualquer coisa, chama a Francisca.
— Pode deixar, minha linda. Você se importa se o pessoal da banda vier aqui me ver?
— Claro que pode, amor. Aqui é sua casa — respondeu ela, sorrindo.
Saiu apressada, os saltos marcando o compasso firme sobre o piso da varanda. O som do portão se fechando atrás dela anunciou o início de mais um dia.
Na cozinha, Francisca já varria os cantos, cantarolando uma canção antiga de rádio. Rômulo permaneceu à mesa por alguns minutos, olhando o fundo vazio da xícara e deixando-se levar pelos pensamentos. O silêncio da casa agora era só dele.
A vida andava mais devagar, mas talvez fosse exatamente disso que ele precisava: de tempo. Tempo para reaprender o corpo, a rotina — e o amor. Porque, nos olhos de Nélia, mesmo cansados, ainda havia um brilho que ele não via há anos. E isso, sim, era a melhor parte da cura.
***
— Bom dia, doutor Freud — cumprimentou Nélia ao entrar.
— Bom dia, Niele. Pensei que não a veria mais em meu humilde consultório.
— Doutor...
— Perdão — disse ele, sorrindo. — Sei que passou por maus momentos, que quase perdeu o namorado... ou seria o namorido? Mas, à parte disso, tornou-se uma pequena celebridade: entrevistas, jornais... Ouvi dizer até que recebeu um convite para escrever um livro.
— Não deixa de ser verdade — respondeu ela. — Mas isso é assunto para o futuro. Não vim aqui pra falar disso.
— Perfeito. Então me diga: como tem se sentido, depois de tudo o que passou?
Nélia hesitou antes de responder.
— Nada bem, doutor. Já não durmo direito desde o começo dessa história. Às vezes deito, mas as imagens vêm... Vejo as pessoas se contorcendo de dor, as macas saindo com corpos — um atrás do outro... Tenho quase quinze anos de enfermagem, mas nunca perdi tantos pacientes em tão pouco tempo.
O doutor inclinou-se na poltrona, ajustando os óculos com dedos finos.
— Imagino o peso que tudo isso carrega. Você estava na linha de frente, não é?
Ela assentiu, com os olhos marejados.
— Era como estar numa guerra. Cada plantão, uma batalha. Às vezes eu achava que ia desmaiar de cansaço... Mas seguia, porque alguém precisava cuidar deles. Só que agora... quem cuida de mim?
Ele silenciou por um instante, depois falou baixo:
— Uma pergunta poderosa, Niele. Quem cuida da cuidadora?
Ela respirou fundo. A voz tremia.
— Eu não sei mais separar o que vivi do que ainda estou vivendo. Parece que continuo lá... ouvindo os gritos, sentindo o cheiro de álcool, vendo os olhos dos que imploravam por ar. E os que se foram... às vezes me visitam nos sonhos.
— E nesses sonhos... você se sente culpada?
— Às vezes, sim. Mesmo sabendo que fiz tudo que podia. Mas me pergunto: será que poderia ter feito mais? — baixou o olhar. — A verdade, doutor, é que estou cansada. E assustada. Não com o que aconteceu, mas comigo mesma.
— Com você mesma?
— Sim... com o que me tornei depois de tudo isso. Antes eu acreditava que podia salvar o mundo. Agora não sei nem se consigo me salvar.
O doutor ficou em silêncio, respeitando a dor que transbordava ali.
— Você não está sozinha, Niele. E é exatamente por isso que está aqui. A primeira forma de se salvar é aceitar que precisa de ajuda. E você já deu esse passo.
Ela o fitou com olhos úmidos.
— O senhor acha que um dia eu vou voltar a ser quem eu era?
— Não — respondeu ele, com firmeza serena. — Você não vai voltar a ser quem era. Mas pode se tornar alguém mais forte, mais consciente... e viva. Isso é o que chamamos de resiliência.
— Às vezes sinto raiva. Depois vem a culpa. Um peso enorme no peito... Às vezes acordo suando, com o coração disparado. Tem dias em que mal consigo levantar da cama.
— Você teve burnout, Niele. Um colapso físico e emocional. Agora está vivendo as consequências: insônia, ansiedade, culpa... talvez até depressão. Isso é sério. Mas você veio até aqui. Está buscando ajuda. E isso já é parte da cura.
Ela entrelaçou os dedos, como quem busca firmeza.
— Eu não queria ser a enfermeira que deu entrevistas. Nem a sobrevivente. Só queria ser a Nélia de antes... que ria das pequenas coisas, que conseguia ver um futuro.
— Ninguém sai ileso de algo assim — disse ele com ternura. — Mas isso não te torna fraca, te torna humana. A Niele de antes talvez não volte... mas a de agora ainda pode aprender a viver — e a ser feliz de novo. E, quem sabe, até escrever esse livro que andam te pedindo.
Ela sorriu, entre lágrimas.
— Um livro?
— Por que não? Você tem muito o que contar. Convite para tanto, você já tem. Talvez, ao escrever, encontre um modo de organizar essa dor. A escrita pode ser uma forma de respirar fora do caos.
Niele olhou pela janela. O dia estava claro, mas ela ainda se sentia em sombras.
— E se eu não conseguir?
— A gente vai juntos. Um passo de cada vez.
Ela respirou fundo. Pela primeira vez em meses, sentiu que talvez — só talvez — houvesse saída daquele labirinto.
— A primeira coisa que você vai fazer é tirar férias — disse o doutor, firme e compassivo. — Vou escrever uma carta para a direção do hospital, explicando tudo. Vou prescrever trinta dias de licença. Nesse período, quero que venha me ver três vezes. Aproveite para descansar, ir à praia, reencontrar o silêncio.
— Mas como vou à praia se terei que vê-lo três vezes nesse período?
— Não se preocupe — respondeu ele, sorrindo. — Podemos fazer as consultas por videoconferência.
— Perfeito, doutor.
— Me dê quinze minutos; já preparo o laudo e a carta para o hospital. Se quiser, pode ir à recepção tomar um café. Assim que terminar, eu te chamo.
— Ok, doutor Freud.
Ao sair, Niele sentiu o sol tocar-lhe o rosto.
O calor prometido naquela manhã finalmente se cumpria — e, quem sabe, fosse também o prenúncio de um novo tempo, dentro e fora dela.
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-Não deixem de conferir o capítulo 12 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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