FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

 

 

Há silêncios que dizem mais do que mil palavras, e ausências que, mesmo invisíveis, preenchem todos os espaços. O tempo, senhor paciente das memórias, não apaga o que foi vivido; apenas o reviste com a delicadeza da saudade. É assim com aqueles que partem — deixam o corpo, mas permanecem no gesto, no olhar, no cheiro do café coado ao amanhecer.

 

Carrego comigo a lembrança de duas presenças que moldaram o que sou: minha avó paterna e meu avô materno. Duas almas distintas, unidas pelo mesmo fio de ternura e simplicidade.

 

Minha avó era uma mulher de gestos miúdos e coração imenso. No rosto, um sorriso que cabia o mundo; nas mãos, o costume de fazer o bem sem alarde. Toda vez que recebia o aposento, trazia-me um pacote de bolacha amanteigada — sua maneira singela de dizer: “eu lembrei de você”. Era o presente mais doce que um neto poderia receber. E, naquelas tardes dos anos setenta, entre uma bolacha e outra, eu aprendia o significado mais puro da palavra amor.

 

Ela fazia um tutu de feijão com couve, ovos e banana frita que, só de lembrar, me dá água na boca. Sinto o cheiro, a textura dos ovos fritos, o estalar das bananas dourando na frigideira. Ela sempre deixava os ovos passar um pouco do ponto, o que os tornava crocantes nas bordas — um detalhe simples, mas inesquecível.

 

Meu avô, por sua vez, era um homem de ofício e suor. Rústico, porém honesto como o barro que moldava. Fabricava montarias — arreios, cabrestos, cangalhas — e entendia os animais com a sabedoria dos que vivem em harmonia com a natureza. Mas sua verdadeira arte era a olaria. Dos seus braços fortes e calejados nasciam os tijolos que ergueram suas oito casas. Casas simples, mas erguidas com a dignidade de quem transforma terra em abrigo e sonho em realidade.

 

Se fecho os olhos, ainda o vejo na lida: o rosto sereno, o chapéu de couro de abas largas, gasto pelo sol, e aquele sorriso discreto de quem encontra paz no próprio trabalho. Era um artesão da vida, um escultor de dias honestos.

 

Hoje, ao caminhar pela memória, encontro duas cadeiras vazias em meu coração. Cadeiras que o tempo não preenche, porque pertencem a eles — e a tudo o que representam. Nas paredes, as fotografias penduradas me lembram que a presença não se mede pela distância, mas pela eternidade do sentimento.

 

Há quem diga que o amor morre com o corpo; eu prefiro acreditar que ele se transfere para outro plano — o das lembranças, onde o tempo não tem poder e o afeto se eterniza.

 

Duas cadeiras vazias me olham todos os dias. E, mesmo sem som, me ensinam que a verdadeira herança não se guarda em cofres, mas no coração de quem recorda.

 

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Não deixem de conferir o capítulo 12 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la. 

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 04/11/2025
Alterado em 05/11/2025
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