FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

 

 

O dia da prisão de Carlos Vinícius foi de alívio para muitos, mas também de reflexões sombrias. O país inteiro comentava o ocorrido. As redes sociais ferviam com teorias, análises e, claro, ataques de toda ordem.

 

No hospital, quando Nélie recebeu a notícia, estava ao lado de Rômulo. Pela primeira vez em dias, ele havia aberto os olhos com mais firmeza.

 

— Amor... me disseram que pegaram o cara — murmurou ele, com a voz rouca.

 

Ela assentiu com um sorriso leve, mas os olhos ainda carregavam o cansaço.

 

— Pegaram. E agora você só precisa focar em ficar bem. O resto a gente enfrenta juntos.

 

A recuperação foi lenta. Rômulo ainda sofreria semanas com os efeitos da substância, mas o risco de morte havia passado. Já podia se alimentar em pequenas porções, falar e até rir de algumas piadas sem perder o fôlego.

 

A mídia, no entanto, não dava trégua. Em poucos dias, Nélie passou de enfermeira-chefe a figura pública. Uma repórter de um telejornal nacional pediu uma entrevista. Ela recusou, mas depois, refletindo, aceitou com uma condição:

 

— Eu não quero virar celebridade. Quero usar essa visibilidade para falar sobre saúde pública, sobre os riscos que corremos todos os dias e ninguém vê. E, principalmente, sobre a força dos profissionais que seguram o caos com as mãos nuas.

 

No programa, vestida com discrição e sem maquiagem de estúdio, falou com clareza e convicção. Sua voz embargou ao mencionar os dias de desespero ao lado de Rômulo, mas não hesitou ao criticar a falta de fiscalização sanitária, a carência de investimentos e a fragilidade emocional que profissionais da saúde carregam em silêncio.

 

— A sociedade só olha pra gente quando acontece uma tragédia. Mas há anos salvamos vidas enquanto pedimos socorro sem sermos ouvidos.

 

A repercussão foi enorme. Vieram convites: palestras, debates em universidades, encontros com secretários de saúde. O hospital lhe ofereceu um novo cargo: coordenadora do núcleo de crises e emergências. Ela hesitou, mas Rômulo foi quem a encorajou:

 

— Você tem algo que poucos têm, Nélie: coragem com propósito. Vai lá e faz a diferença.

 

Mas, por dentro, ela sabia: também precisava cuidar de si mesma — da exaustão, dos traumas, dos dias sem dormir e da constante sensação de que, a qualquer momento, tudo poderia ruir.

 

Voltou à terapia. Não mais como profissional tentando lidar com o luto por perda de pacientes, mas como uma mulher marcada por batalhas vividas na carne — e, ainda assim, inteira.

 

 

***

 

Foram noventa dias entre máquinas, sondas e incertezas. Noventa dias em que o tempo parecia escorrer devagar, como se o mundo lá fora tivesse parado para esperá-lo. Mas não parou. Lá fora, a vida seguia — impiedosa e veloz. Amigos partiram. Outros resistiram. E ele, agora, cruzava aquela porta como quem renascia.

 

Ao sair do hospital, Rômulo respirou fundo. O ar fresco da tarde bateu-lhe no rosto como um carinho antigo. Por um instante, fechou os olhos e escutou apenas os aplausos — não como um espetáculo, mas como um abraço coletivo da vida que insistia em ficar.

 

Os repórteres se aproximaram, mas ele não se assustou. Estava cansado, sim, mas era um cansaço de quem venceu.

 

— Sr. Rômulo, Henrique, do Hoje em Dia — disse o repórter, aproximando o microfone com cuidado. — Como se sente após noventa dias praticamente entre a vida e a morte?

 

Rômulo olhou para o alto, como quem procura palavras no céu.

 

— A gente muda por dentro, sabe? Eu não sou mais o mesmo. Levei um tempo pra entender que a vida é frágil demais pra ser vivida no automático.

Sinto gratidão. A Deus, pela segunda chance. À minha namorada — que, se ela me permitir, logo será minha esposa —, que esteve comigo todos os dias, mesmo sem poder me tocar. E aos médicos... esses heróis de jaleco que me mantiveram respirando quando eu mesmo já tinha perdido a fé.

 

Fez uma pausa. Um breve sorriso escapou do canto dos lábios.

 

— E aprendi também que não troco mais um almoço feito com amor em casa por qualquer bombom de conveniência. Agora, cada pequeno gesto tem gosto de eternidade.

 

O silêncio se fez por um instante. Os aplausos recomeçaram — desta vez, com lágrimas discretas em alguns olhos ao redor.

 

Lá, ao lado do Fiat Punto, estava Nélie, sua futura esposa, com uma orquídea nas mãos — a flor preferida dele. Eles se olharam. Não disseram nada. Não precisavam.

 

Ela se aproximou, segurou sua mão e, com um beijo na testa, murmurou:

 

— Bem-vindo de volta, meu amor. E quanto a me casar... não sei, tenho que pensar...

 

Ela riu.

 

— Estou brincando. Eu aceito. Mas teremos que esperar nossos divórcios saírem.

 

Rômulo sorriu, os olhos marejados.

 

— Voltar... nunca teve tanto sentido.

 

Naquele instante, não havia manchetes, câmeras ou perguntas. Havia apenas a celebração da vida — pura, simples e preciosa.

 

— Você vai pra minha casa — disse Nélie. — Não seria bom você ficar sozinho no seu apê. Pelo menos lá em casa a Margareth pode te ajudar no que for necessário, na minha ausência.

 

 

***

 

O carro seguiu devagar pelas ruas do bairro. Cada esquina parecia diferente, como se o mundo tivesse mudado enquanto ele lutava por sua vida entre lençóis brancos e monitores cardíacos.

 

Rômulo observava tudo pela janela entreaberta, como quem vê a cidade pela primeira vez. As árvores pareciam mais verdes, os rostos nas calçadas mais vivos. O mundo ganhava cores que ele nem sabia que existiam.

 

Nélie dirigia em silêncio, sua mão apertando suavemente a dele de tempos em tempos. Ambos sabiam que não era apenas o corpo de Rômulo que voltava para casa — era uma alma renovada, porém ferida, reaprendendo a viver.

 

Quando o portão da pequena casa azul se abriu, uma comoção silenciosa os aguardava. Havia uma faixa simples na varanda:

 

“Bem-vindo de volta, nosso guerreiro!”

 

A filha, July, e o filho, Raul, correram até o carro com os olhos cheios d’água.

— Pai...

 

Ele mal teve tempo de se apoiar na bengala — que ainda usava para andar com firmeza — e já estava nos braços dos filhos. O abraço foi longo, sem palavras. Do tipo que cura as dores que os remédios não alcançam.

 

Ao entrarem, o cheiro do feijão no fogo tomou conta do ambiente. Era uma receita da mãe de Rômulo, que Nélie havia aprendido.

 

Ela cozinhava o feijão com pedaços de cenoura e duas cebolas médias; depois, retirava as cenouras e as cebolas, batia tudo no liquidificador, refogava bastante alho e tempero mineiro, juntava ao feijão e deixava ferver.

 

Aquilo não era apenas comida — era memória, era afeto.

 

— Preparei seu prato preferido — disse ela, com a voz embargada. — Sua mãe me ensinou. Nada de marmitex hoje.

 

Ele sorriu. Pela primeira vez em muitos dias, um riso verdadeiro, sem dor nos olhos.

 

Sentados à mesa, com July, Raul e dona Isabel — mãe de Rômulo — ao lado, e Nélie servindo o arroz, ele percebeu o quanto as pequenas coisas tinham se tornado imensas.

 

O tilintar dos talheres. O som do ventilador. O canto distante de um sabiá.

 

Depois do jantar, sentou-se na poltrona da varanda. Sobre uma mesinha perto da porta havia dois porta-retratos:

 

um mostrava ele abraçado a Nélie e aos filhos reunidos num domingo comum, quando a apresentara à mãe — antes de tudo acontecer; o outro trazia Nélie com a filha, Débora.

 

Ele olhou para as fotos, depois para as mãos, que ainda tremiam levemente. Respirou fundo.

 

— Vocês sabiam que, no hospital, eu sonhava com essa cena aqui? — disse, com a voz mansa. — Eu fechava os olhos e me via exatamente assim: na casa da mamãe, com vocês rindo. Eu me agarrava a isso. Todos os dias.

 

July ajoelhou-se diante do pai e deitou-se em seu colo. Raul apoiou-se nos ombros da irmã. Nélie, ao lado, segurou a mão dele.

 

Nenhuma palavra foi dita. Não era preciso.

 

Naquela tarde, entre lágrimas, cheiro de comida e silêncios carregados de amor, Rômulo renasceu pela segunda vez.

 

 

--//--

 

 

Não deixem de conferir a segunda parte  do capítulo 11 da série de contos NO DIVÃ!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 03/11/2025
Alterado em 03/11/2025
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