A ambulância chegou em poucos minutos. Nélie acompanhou Rômulo até o hospital, monitorando seus sinais vitais durante o trajeto. Conhecia o protocolo de cor, mas, a cada batida fraca do coração dele, sentia o próprio peito ameaçar falhar junto.
Ao chegarem, Rômulo foi internado imediatamente na ala de isolamento.
Horas se passaram até que os primeiros resultados dos exames confirmassem: o mesmo padrão dos outros contaminados — febre alta, vômitos, desidratação severa, infecção gastrointestinal aguda. Mas havia algo a mais. Um marcador incomum no sangue dele — e no de outros cinco pacientes — chamava a atenção do Dr. Medina.
— Nélie, preciso te mostrar uma coisa — disse ele, puxando-a discretamente para o corredor.
Apontou para os dados laboratoriais em seu tablet.
— Veja este composto. É uma substância química que não aparece em casos de contaminação alimentar. Um tipo de pesticida industrial. Isso não veio de frango estragado nem de maionese vencida. Alguém adicionou isso deliberadamente à comida.
Nélie arregalou os olhos, o choque estampado no rosto.
— Você está dizendo que... isso foi intencional?
— Sim. E o pior: pode ter sido um teste. Uma contaminação planejada em pequena escala, talvez para medir os efeitos. Precisamos envolver a polícia agora.
Naquela noite, a Vigilância Sanitária retornou ao restaurante, desta vez acompanhada pela Polícia Civil. Foram apreendidas amostras de alimentos, documentos e câmeras de segurança. O proprietário, visivelmente abalado, jurava inocência.
Mas, na manhã seguinte, surgiu a primeira pista concreta: as imagens da cozinha mostravam um funcionário recém-contratado manuseando os alimentos desacompanhado — algo estritamente proibido. O homem havia desaparecido no mesmo dia do surto.
Mesmo exausta, Nélie fez questão de acompanhar tudo de perto. Já não era apenas uma crise sanitária — era uma questão de justiça. De proteger vidas. De salvar Rômulo.
Enquanto isso, ele permanecia internado, frágil, oscilando entre a febre e a lucidez.
— Nélie... — murmurou ele, numa das madrugadas — você acha que eu vou sair dessa?
Ela segurou firme sua mão.
— Vai sim, amor. Mas depois disso, você nunca mais vai comprar comida fora sem me ligar antes.
Ele riu fraco, e ela sorriu com os olhos marejados.
Lá fora, a polícia iniciava a busca pelo homem que agora era considerado o principal suspeito de um ataque químico. E, em meio ao caos, Nélie descobria uma força que nem sabia possuir.
***
Nos dias seguintes, o hospital transformou-se em um quartel improvisado. Médicos, agentes da Vigilância Sanitária e investigadores da Polícia Civil circulavam pelos corredores, cruzando informações com os prontuários dos contaminados. Os casos começavam a se estabilizar, mas dois pacientes ainda inspiravam cuidados graves — e Rômulo era um deles.
Nélie dormia em plantões alternados, nunca muito longe dele. O carinho que antes se escondia em olhares agora se revelava em gestos pequenos: umedecia-lhe os lábios com algodão, ajeitava os lençóis, trocava as bolsas de soro. Aquela presença constante era a última âncora de Rômulo — e a única que impedia Nélie de desmoronar.
Enquanto isso, a polícia identificava o suspeito: Carlos Vinícius, 29 anos, ex-funcionário de uma empresa de agrotóxicos, recém-demitido. Tinha histórico de surtos psicóticos e um processo por ameaça a um gerente. Na delegacia, o delegado-chefe revelou o mais preocupante:
— Esse homem já havia sido investigado por tentar manipular produtos químicos em protesto contra empresas alimentícias. Acreditava em teorias conspiratórias, dizia que a indústria da comida era um veneno. E agora, parece que resolveu provar isso do modo mais perigoso possível.
A busca por Carlos Vinícius se intensificou. Sabia-se que ele havia fugido para fora da capital e estava sendo escondido, possivelmente por simpatizantes de grupos extremistas que pregavam a chamada “pureza alimentar”.
Nélie, embora não fosse policial, foi chamada para depor. Havia lidado com os primeiros sintomas, organizado os prontuários e acompanhado os exames. Ao final da audiência informal, o inspetor perguntou:
— A senhora já o viu antes? Alguma lembrança?
Ela hesitou, fechou os olhos por um instante, buscando na memória.
— Espere... — murmurou — no fim do mês passado, ele apareceu no hospital. Tinha um corte na mão e foi atendido no pronto-socorro. Ficou irritado porque dissemos que seria necessário tomar antibiótico. Lembro que ele brigou com uma técnica de enfermagem e saiu cuspindo insultos contra medicamentos.
A ficha caiu. Ele tinha testado o hospital antes. Observado a rotina. Talvez até a reconhecesse.
Dr. Medina franziu o cenho, preocupado.
— Nélie, talvez fosse melhor você se afastar por uns dias. Esse sujeito pode estar acompanhando tudo. Você está muito exposta.
— E deixar o Rômulo aqui? Deixar os meus pacientes? — retrucou. — Não. Eu não sou só uma enfermeira, doutor. Sou parte da linha de frente. E ninguém vai me fazer recuar agora.
Naquela noite, a imprensa divulgou que o número de contaminados havia subido para cinquenta e dois. A cidade entrou em alerta. Mas dentro da UTI, onde o amor da vida de Nélie lutava para respirar, ela só pensava em uma coisa: sobrevivência.
Do lado de fora, a polícia cercava uma casa no interior de São Paulo.
E atrás da porta, um homem sujo, de olhar perdido, segurava o frasco do veneno que quase matou dezenas de pessoas.
Carlos Vinícius, finalmente, seria preso.
Mas para Nélie, a verdadeira batalha ainda estava apenas começando.
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Não deixem de conferir a primeira parte do capítulo 11 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!
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