Niele acordou radiante naquela manhã.
Vivera momentos inesquecíveis na noite anterior. Quando fechava os olhos, ainda podia ouvir as pessoas cantando junto com ela, gritando seu nome em coro: “Niele! Niele! Niele!”
Depois de um generoso café da manhã — frutas, torradas, queijo branco e uma xícara de café amargo —, seguiu para a sessão com o psicólogo. De lá, foi direto ao trabalho.
A recepção do pronto-socorro estava lotada, tomada por uma movimentação incomum. Caminhando a passos apressados, Niele acenou discretamente para uma ou outra colega. O semblante sério denunciava o cansaço que trazia de casa.
Mal teve tempo de se acomodar à mesa quando Sônia, uma das enfermeiras do plantão, entrou apressada, trazendo nas mãos uma pilha de fichas de pacientes.
— Boa tarde, Niele. Que bom que você chegou!
— Por quê? — perguntou Niele, já preocupada.
— Está acontecendo algo estranho. Só nesta manhã, trinta pacientes passaram por aqui com os mesmos sintomas: dor de cabeça, febre, falta de ar... À primeira vista parece gripe, mas é estranho. Todos apresentam sintomas idênticos. E o mais curioso: todos comeram no mesmo lugar.
— Já fizeram exames de sangue? — perguntou Niele, levantando-se de imediato.
— Ainda não. Estávamos esperando você chegar para decidir o que fazer.
Niele franziu a testa, sentindo um calafrio que não vinha do ar-condicionado. Aquilo cheirava a algo mais sério.
— Vou ligar para o Dr. Medina. Ele vai nos ajudar a decidir os próximos passos.
Pegou o telefone com firmeza, a mente já agitada por hipóteses: contaminação alimentar? Uma virose de rápida propagação? Ou algo pior?
Discou o número com pressa. Enquanto o telefone chamava, olhou para Sônia e murmurou, tensa:
— Se for o que estou pensando... vamos precisar isolar uma ala.
Do outro lado da linha, a voz grave e serena do Dr. Medina respondeu:
— Niele? Está tudo bem?
— Não exatamente, doutor. Tivemos trinta atendimentos nesta manhã com sintomas muito semelhantes — febre, cefaleia intensa, falta de ar — e todos relataram terem se alimentado no mesmo restaurante da região. Ainda não fizemos exames; preferi consultá-lo antes.
Houve uma breve pausa.
— Isso pode ser sério. Isolamento imediato — ordenou Medina. — Separem os pacientes com esses sintomas dos demais. Façam exames de sangue e amostras fecais. Eu chego em vinte minutos.
Niele assentiu em silêncio e desligou.
— Vamos precisar de uma sala só para esses pacientes — disse a Sônia. — Providencie máscaras para todos os que tiverem contato direto. Chame o técnico de laboratório e priorize esses exames. Isso pode ser uma contaminação em larga escala.
O plantão se transformou em um caos silencioso e coordenado. Enfermeiros corriam de um lado para o outro com EPIs; pacientes eram redirecionados com cuidado e explicações evasivas para evitar pânico. As salas de observação foram reorganizadas e a ala pediátrica, temporariamente fechada por segurança.
Às 14h10, o Dr. Medina chegou, já paramentado. Foi direto à sala de Niele, onde ela, Sônia e dois clínicos aguardavam com os primeiros resultados parciais.
— Há um padrão que chama atenção — disse Medina, observando os dados. — Os níveis de leucócitos estão alterados, há sinais de infecção gastrointestinal grave em alguns pacientes e uma proteína específica elevadíssima. Isso não é uma virose comum.
— E todos comeram no mesmo lugar — reforçou Sônia. — Um restaurante chamado Cantinho do Sabor, ali perto da estação.
Medina trocou um olhar sombrio com Niele.
— Precisamos notificar a Vigilância Sanitária agora. E, Niele, organize um protocolo de triagem rápida. Isso pode se espalhar em questão de horas.
Ela respirou fundo. Sentia o peso do jaleco mais do que nunca. Mas era ali, no meio do turbilhão, que sabia fazer a diferença.
Pegou o crachá, ergueu a cabeça e saiu para o corredor. Havia uma crise a conter. E ela, como sempre, estava na linha de frente.
***
Às 15h30, a sala de reuniões do hospital já estava ocupada por representantes da Vigilância Sanitária, médicos infectologistas convocados às pressas e a direção do Espaço Saúde.
Niele, com a prancheta nas mãos e as olheiras marcadas, coordenava a apresentação do que haviam apurado até o momento.
— Todos os trinta pacientes ingeriram a mesma refeição no restaurante Cantinho do Sabor. Segundo os relatos, o prato do dia era estrogonofe de frango, arroz e salada de alface com maionese. Alguns já apresentam vômitos e sinais de desidratação severa. Três estão internados, sendo um em observação intensiva.
Um agente da Vigilância fez anotações rápidas.
— O restaurante precisa ser interditado imediatamente — disse ele. — Se for salmonela ou outro agente bacteriano, há risco de morte, especialmente em idosos e crianças.
— Concordo — acrescentou o Dr. Medina. — Também precisamos levantar os nomes de todos os clientes que passaram por lá nas últimas 24 horas. Isso exige apoio da prefeitura e da polícia civil.
Às 17h, a imprensa já cercava o hospital. Rumores vazaram — como sempre. Repórteres especulavam sobre um possível surto viral ou até bioterrorismo, coisa de sensacionalistas. Mas os boatos geravam pânico.
Niele tentava manter o foco, mas o cansaço começava a pesar. Entre um telefonema e outro, uma lembrança a fez estremecer: Rômulo.
Assim que chegara ao hospital e tomara conhecimento do caos que se instalava, ela lhe enviara uma mensagem avisando que não poderia sair para almoçar às quinze horas, como haviam combinado.
Ele respondeu dizendo que, como já estava por perto, almoçaria no restaurante ali próximo — e que depois levaria uma marmita de bacalhau para deixar em sua casa, para que ela comesse ao chegar do plantão.
O nome do restaurante ecoou em sua mente como um trovão: Cantinho do Sabor.
Niele pegou o celular com as mãos trêmulas e ligou. Chamou várias vezes, até cair na caixa postal. Tentou novamente. Nada.
Lembrou-se então do aplicativo que ambos haviam instalado, que mostrava a localização em tempo real. Abriu o mapa — e o coração gelou: Rômulo estava em sua casa.
— Sônia! — gritou do corredor. — Preciso ir até minha casa agora. Pode me cobrir por uma hora?
Sônia apenas assentiu, compreendendo o desespero no olhar da colega.
Niele pegou a bolsa, atravessou a recepção lotada e saiu às pressas. Entrou no primeiro táxi disponível, o coração disparado.
Ao chegar em casa, encontrou a luz da sala acesa e a televisão ligada.
Rômulo estava estendido no sofá, suando, os olhos semicerrados e a respiração curta.
— Rômulo! — gritou, ajoelhando-se ao lado dele.
Ele abriu os olhos com dificuldade.
— Amor... tô... tô meio mal. Almocei e vim deixar o bacalhau pra você... mas quase não consegui chegar aqui...
Ela não respondeu. Pegou o celular, ligou para o hospital pedindo uma ambulância urgente e iniciou os primeiros procedimentos de estabilização ali mesmo, no chão da sala.
A crise deixava de ser apenas uma emergência hospitalar.
Agora era pessoal.
Era o amor de sua vida em risco.
CONTINUA....
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Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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