FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Três meses se passaram.

O relacionamento com Rômulo ia de vento em popa. No hospital, Niele agora tinha sua própria sala. Sentia-se feliz — profissionalmente e no amor.

 

Naquela noite, ela estava especialmente ansiosa. Iria conhecer os filhos de Rômulo. Ele também lhe prometera uma surpresa. O encontro seria num bar-restaurante com música ao vivo, na avenida Angélica. Niele já ouvira falar do lugar, mas nunca tivera oportunidade de conhecê-lo.

 

Quando o relógio marcou 18h40, chegou a hora de mudar o plantão. Diferente de outros dias, ela não ficaria para cobrir o turno da noite. Às 19h, foi até o vestiário, tomou um banho, vestiu um vestido de linho bege e sandálias prateadas. Passou uma maquiagem leve e, ao sair, encontrou a dra. Marcela — sua amiga desde o início no hospital.

 

— Menina, como você está gata! — disse Marcela, olhando-a de cima a baixo. — Com esse look, você está um espetáculo.

 

— Obrigada, doutora.

 

— Lindíssima — reforçou ela.

 

— Que bom que a doutora acha. Hoje faz três meses que conheci meu namorado. Ele vai me apresentar os filhos... e disse que tem uma surpresa pra mim.

 

— Vai dar tudo certo, amiga. Estou feliz em te ver assim: mais leve, mais jovial... recomeçando a vida.

 

As duas se abraçaram. Em seguida, Niele partiu para o encontro.

 

 

***

 

O ambiente era encantador. Não era nem retrô nem moderno — algo entre os dois. Mesas de madeira em tom creme, cadeiras estofadas em verde-kiwi claro e lustres dourados pendendo do teto. Ao fundo, um palco de cinco metros por três de profundidade.

 

Rômulo estava no palco, arrumando os instrumentos com mais três músicos que conectavam cabos e microfones. Na plateia, havia poucos clientes, e dois jovens — um rapaz e uma moça — estavam sentados perto do palco. Quando Rômulo se virou para pegar o baixo, viu Niele e gesticulou para que ela se aproximasse.

 

— Que bom que você chegou! — disse ele, abraçando-a e lhe dando um beijo nos lábios. — Quero te apresentar duas pessoas muito importantes na minha vida… além de você, é claro.

 

— July, essa é a Niele.

 

A moça olhou Niele de cima a baixo e sorriu:

 

— Ela é linda, pai. O senhor tem bom gosto. — E já se adiantou para abraçá-la.

 

— E este é meu filho mais velho, Raul. Niele, esse é o Raul.

 

— Oi, tudo bem? — disse o rapaz, meio tímido.

 

— Não liga pra ele, Niele — disse July, divertida. — Meu irmão é assim, meio fechado. Mas eu tenho certeza que ele gostou de você.

 

— July! — repreendeu Rômulo com um sorriso. — Ele só é reservado. Não é, filhão?

 

— Sente-se com eles, Niele. Vou terminar de preparar o som e já volto.

 

***

 

Eram oito e meia quando a casa já estava cheia. Rômulo e os músicos se posicionaram no palco. Ele voltou até a mesa de Niele e perguntou:

 

— Está gostando do ambiente?

 

— Sim, é bem agradável.

 

— Que bom. Peçam o que quiserem, está tudo por minha conta. Vou tocar com a banda até a meia-noite. Você pode ficar até o fim?

 

— Claro! Amanhã só entro no hospital depois do almoço.

 

— Perfeito. Então espero que goste do show.

 

Rômulo voltou ao palco. O baterista fez um breve solo; o baixo entrou logo em seguida. Depois de alguns acordes, Rômulo saudou o público:

 

— Boa noite, pessoal! Eu sou Rômulo Nunes, vocalista do grupo Mistura Brasileira. No baixo, Gabriel Junqueira; na bateria, Paulo Nogueira; no saxofone, Marcelo Rezende; no backing vocal, Pamela Araújo; e eu, Rômulo, no violão e guitarra.

 

Hoje vamos trazer um pouco de música boa pra tornar a noite de vocês mais feliz. Se quiserem pedir alguma canção, é só avisar o pessoal do bar. Vamos começar com um reggae romântico: “Reaprender a Viver.”

 

 

“Reaprender a Viver”

 

Groove suave, clima de praia ao entardecer

 

Oh oh… yeah, yeah…

Reaprender a viver… yeah…

 

Você me chamou pra sair,

Um jantar sem compromisso,

Conversa leve, risos fáceis,

Um vinho abrindo o sorriso.

 

Falamos da vida, das dores,

De amores que não deram certo,

Mas no teu olhar eu vi

Um novo começo por perto...

 

 

O som era contagiante. Niele observava o público — casais abraçados, alguns cantando juntos, outros apenas balançando o corpo no ritmo. O grupo era realmente bom.

 

Ela, que dirigiria depois, limitava-se ao suco, mas aquela música pedia um vinho. July cantava junto com o pai, empolgada.

 

A noite estava perfeita… mas a surpresa prometida por Rômulo ainda estava por vir.

 

Após a terceira música, Rômulo pegou o microfone:

 

— E aí, pessoal, estão gostando?

 

O público respondeu em coro:

 

— Siiiiim!

 

— Que bom! Então, antes da próxima, quero contar uma coisa. Entre nós hoje está uma compositora e cantora de talento, mas que ainda não acredita muito em si. Conto com vocês pra dar uma força… Niele, vem pra cá!

 

Niele olhou para os lados, confusa, procurando outra Niele.

 

— É você! — disse July, rindo. — O pai está te chamando!

 

O público começou a gritar em coro:

 

— Niele! Niele! Niele!

 

Sem graça, ela se levantou e foi até o palco. Sentou-se num banquinho ao lado de Rômulo, pegou o violão e falou ao microfone:

 

— Bem, pessoal… eu não canto nada, só no chuveiro. Toco um pouquinho e componho algumas canções. Fui pega de surpresa, então… vou cantar uma que fiz há dois meses. Chama-se “Quando a Gente Ama.”

 

Ela dedilhou o violão num compasso 4/4 suave e começou:

 

Quando a gente ama

O tempo para,

O mundo muda

E o medo some.

 

A mão que toca

Aquece a alma,

O riso vira abrigo,

O silêncio acalma.

 

Refrão

Quando a gente ama,

Tudo brilha mais.

O céu fica perto,

A dor se desfaz.

Quando a gente ama,

O mundo cabe num olhar.

Nada mais importa,

Só se deixar levar...

 

 

 

O público acompanhou o refrão. Alguns filmavam, outros batiam palmas no ritmo. Rômulo observava Niele com orgulho.

 

Quando a canção terminou, ela foi aplaudida de pé. A emoção tomou conta de todos.

 

Mais tarde, já na despedida, Rômulo disse:

 

— Me desculpe por não ter te avisado antes. Foi no impulso...

 

Niele pousou o dedo nos lábios dele:

 

— Shhh… — e o beijou. — Obrigada. Eu precisava disso… me soltar, me jogar um pouco.

 

— E parece que as pessoas gostaram da sua música.

 

— É… parece que sim.

 

— Vou guardar os equipamentos e levar as crianças pra casa. Nos vemos amanhã?

 

- Amanhã meu plantão vai até a uma da manhã, - disse Niele com ar de decepção - mas se quiser aparecer por volta das três da tarde, podemos almoçar juntos.

 

— Combinado. Nos vemos amanhã.

 

Eles se beijaram novamente. Niele abraçou as crianças e foi embora — leve, sorridente, e com o coração batendo diferente.

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 25/10/2025
Alterado em 25/10/2025
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