FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

A vida de Niele estava mudando — a cada dia, para melhor. Sentia-se mais leve, mais feliz. Saía, de vez em quando, com as amigas do trabalho, e redescobria o prazer de rir sem motivo. Até os pacientes notavam: havia algo diferente em Niele.

 

O convite para assumir o cargo de enfermeira-chefe chegou numa manhã comum, entre prontuários e o cheiro de café vindo da copa do hospital. O diretor a chamou à sala e, com um sorriso discreto, anunciou:

 

— Niele, seu comprometimento e profissionalismo são inquestionáveis. Queremos que assuma a chefia da enfermagem.

 

Por um instante, ela ficou sem palavras. Aceitou com um aceno lento, sentindo o peso e a honra daquela confiança. Não era apenas um título — era a prova de que, apesar de tudo, sua vida continuava a avançar.

 

Com o aumento no salário, decidiu investir em algo que até então nunca havia considerado seriamente: cuidar mais de si. Viajar, conhecer lugares, dedicar-se a pequenos prazeres que antes reprimia — não tanto pelo orçamento, mas pelas responsabilidades de esposa. Agora, sem marido e com um salário maior, queria, enfim, viver um pouco mais por ela.

 

***

 

Naquela manhã, ao sair do trabalho, Niele foi direto ao consultório do Dr. Freud. Tinha uma sessão marcada para as onze horas. Chegou com passos firmes. Ainda se sentia desconfortável em falar de si, mas começava a perceber que aquele espaço era seguro.

 

O Dr. Freud a recebeu com o mesmo tom calmo:

 

— E então, como foi a sua semana?

 

Ela respirou fundo.

 

— Trabalhei muito... Ao sair daqui na semana passada, fui ao mercado, fiz compras e decidi me dar um presente: preparei um jantar para mim. Com direito a salmão grelhado, vinho e luz de vela.

 

— Que bom — disse ele, sorrindo. — Este é o segredo: dar-se a si mesma o direito de ser feliz.

 

— Também contei à minha filha que pedi o divórcio.

 

— E como ela reagiu?

 

— Muito bem, na verdade. Acho que já esperava por isso. Ela saiu de casa aos doze anos porque não aguentava a forma rude com que o pai me tratava.

 

— É bom ver que você está conseguindo reorganizar a vida.

 

— Sim... mas tem uma coisa que está me incomodando — disse Niele, pensativa. — Tive um sonho estranho, noite passada. Eu estava num corredor escuro, correndo... e no fim havia uma porta fechada. Eu tentava abri-la, mas parecia trancada por dentro.

 

Freud apoiou o queixo na mão.

 

— E como se sentia no sonho?

 

— Desesperada… mas também com raiva. Porque sabia que do outro lado havia algo que eu queria muito.

 

Ele fez uma pausa antes de responder:

 

— Talvez essa porta represente algo que você acredita estar fora do seu alcance… mas que, no fundo, está apenas trancado pela sua própria história. A raiva que sentiu pode ser a força que vai girar essa chave.

 

Niele ficou em silêncio, encarando o tapete. Era estranho pensar que a raiva — sentimento que passara anos tentando reprimir — pudesse ter um papel positivo.

 

Nas sessões seguintes, começaram a trabalhar esse conceito. Freud a ensinou a transformar a raiva em combustível para mudanças, não em medo. Aos poucos, Niele passou a reconhecer os pequenos momentos do dia a dia em que conseguia se impor sem culpa: recusar uma troca de turno injusta, dizer “não” a convites que não queria aceitar, ou conversar com a irmã, de forma mais aberta, sobre Débora.

 

Um mês depois, durante uma consulta, ela comentou:

 

— Sabe, doutor… acho que estou começando a destrancar aquela porta.

 

Freud sorriu de canto.

 

— E o que acha que vai encontrar do outro lado?

 

Ela suspirou, olhando para a janela.

— A mim mesma.

 

 

***

 

Algumas semanas depois, Niele entrou novamente no consultório com o coração acelerado. A recepção era simples, decorada com tons neutros e uma planta verde num canto. Um rádio tocava música instrumental suave.

 

Enquanto esperava, notou um homem sentado alguns lugares adiante — Rômulo, aparentando trinta e poucos anos, vestindo-se com simplicidade. Parecia igualmente perdido em pensamentos, o rosto iluminado pela luz do celular.

 

Quando seus olhares se cruzaram, ele sorriu — um sorriso tímido, porém acolhedor.

 

— Também veio tentar dar um jeito nessas confusões da vida? — perguntou, com sinceridade na voz.

 

Niele riu baixinho, apertando a bolsa entre as mãos.

 

— É... parece que a gente precisa mesmo de ajuda pra organizar o que tá bagunçado aqui dentro — disse, apontando para a cabeça.

 

Rômulo assentiu.

 

— A vida às vezes joga tudo no ventilador e deixa a gente recolher os pedaços.

 

No silêncio da recepção, dois estranhos encontraram conforto na simples presença um do outro. Quando foram chamados, trocaram números de telefone.

 

— Quem sabe a gente toma um café qualquer dia desses — disse Rômulo, sorrindo.

 

 

***

 

Alguns dias depois, ele enviou uma mensagem. O convite era simples, mas sincero: jantar num restaurante aconchegante da cidade.

 

Na noite marcada, Niele chegou pontualmente. O ambiente era discreto, de luz baixa e música instrumental. Rômulo já a aguardava, sorrindo com a mistura de timidez e esperança.

 

Durante o jantar, entre garfadas e pausas cheias de significado, ele se abriu:

 

— Estou passando por uma separação — disse, mexendo no copo de água. — É complicado, ainda mais com dois filhos adolescentes. Mas tento manter o equilíbrio por eles. Sou motorista de ônibus. Nada glamouroso, mas é o que sustenta a gente.

 

Niele ouviu com atenção.

 

— Deve ser difícil — comentou suavemente. — Mas o fato de pensar nos seus filhos mostra o homem que você é.

 

Rômulo sorriu, aliviado por poder compartilhar aquele pedaço de si.

 

— A vida não é fácil, mas às vezes a gente encontra razões pra seguir em frente nas pequenas coisas — disse, olhando nos olhos dela.

 

E ali, sob a luz tênue do restaurante, dois corações marcados pela vida começaram a se encontrar.

 

 

***

 

Alguns dias depois, em uma tarde amena e ensolarada, Niele e Rômulo caminhavam pelas alamedas do parque do Ibirapuera. O som das folhas e o canto dos pássaros criavam uma atmosfera calma e acolhedora.

 

Enquanto observavam as famílias ao redor, Niele respirou fundo.

 

— Rômulo... estou divorciada há quase um ano. Foi um processo difícil, mas necessário.

 

— Imagino que não tenha sido fácil — respondeu ele, com genuína empatia.

 

Ela sorriu de leve.

 

— Tenho uma filha de quinze anos. Ela é minha maior motivação pra seguir em frente. Tento ser forte por ela.

 

Rômulo assentiu.

 

— Filhos dão sentido pra gente, mesmo quando tudo parece incerto.

 

Os passos continuaram lentos, enquanto o sol se punha, pintando o céu em tons dourados.

 

— Sabe, Niele — disse Rômulo, olhando o horizonte — acho que a vida às vezes coloca a gente em caminhos difíceis pra que possamos encontrar pessoas como você. Pessoas que fazem a jornada valer a pena.

 

Ela sorriu, sentindo um calor novo dentro do peito — o pressentimento de que aquela porta, finalmente, estava aberta.

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 21/10/2025
Alterado em 21/10/2025
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