FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


 

 

Ao deixar o consultório, Niele decidiu ir ao mercado fazer as compras básicas do mês. Sem pressa, dirigia seu Fiat Punto pelas ruas da Penha, ainda sob o eco suave das palavras do psicólogo. Sentia-se mais leve, embora um pouco vazia — como quem abrira uma janela depois de muito tempo de ar fechado.

 

Ir ao mercado era uma forma de ocupar o corpo, distrair a mente, cuidar da casa... e, talvez, de si mesma.

 

Empurrou o carrinho pelos corredores com uma calma que há muito não experimentava. Escolheu frutas frescas, verduras, legumes coloridos, arroz, azeite, temperos. Parava de vez em quando, observando os rótulos, comparando preços — não por necessidade, mas por hábito. Tudo lhe parecia mais nítido, como se o simples ato de escolher fosse também um exercício de presença.

 

Ao passar pela seção de peixes, deteve-se. O balcão refrigerado exibia filés de salmão reluzentes, de tom alaranjado e textura firme. Pediu duas postas médias, envoltas em papel branco, já imaginando o aroma suave do azeite e do limão na frigideira.

 

Guardou o pacote no carrinho e seguiu adiante. Quando chegou ao setor de bebidas, parou.

 

Uma pequena adega envidraçada, de luz amena e temperatura controlada, atraía o olhar. As garrafas repousavam nas prateleiras com imponência discreta, como se guardassem histórias antigas. Por impulso, Niele entrou.

 

Caminhou devagar entre os rótulos, os nomes estrangeiros, os reflexos rubi e dourado. Deteve-se diante de uma garrafa da vinícola Dalva. Gostou do nome — havia nele algo de suave e poético, quase como um prenúncio de ternura.

 

Mas Niele não entendia de vinhos. Notou, ao fundo, um rapaz arrumando garrafas com cuidado e, deduzindo que fosse um sommelier, dirigiu-se até ele.

 

— Com licença... — disse, com um sorriso contido. — Eu não entendo muito de vinhos, mas vou preparar um jantar para uma pessoa especial. Você recomendaria este aqui? — perguntou, mostrando a garrafa.

 

O rapaz assentiu com um leve brilho nos olhos.

 

— Depende do que pretende servir. Os vinhos Dalva são excelentes. Este, por exemplo, é português, da sub-região do Douro. É produzido com uvas tradicionais — Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. Tem teor alcoólico em torno de 20%.

 

Falava com empolgação sincera:

 

— É um vinho de cor vermelha intensa, aroma marcante de frutos vermelhos e notas de ameixa. Redondo, equilibrado, com bom volume em boca. Vai muito bem com queijos, cheesecake de frutas vermelhas ou sobremesas de chocolate.

 

Niele ouviu atentamente, mas quase se perdeu na explicação. A poesia do vinho soava bonita, porém distante do que ela buscava.

 

— E o que pretende servir no jantar? — perguntou o atendente, gentil.

 

— Salmão grelhado, com salada verde — respondeu, após breve pausa.

 

— Nesse caso — disse ele, movendo-se até outra prateleira —, o ideal é um vinho branco leve, com boa acidez, ou um rosé seco. Eles combinam com o frescor da salada e equilibram a gordura do peixe.

 

Pegou uma garrafa de Sauvignon Blanc e estendeu a ela:

 

— Este tem notas cítricas e aroma delicado. É fresco, elegante, perfeito para um jantar leve.

 

— Perfeito — respondeu Niele, observando o brilho claro do líquido. — Vou levar este.

 

— Ótima escolha. Mas leve também o Dalva... vai que queira encerrar a noite com uma sobremesa.

 

Ela sorriu, surpresa pela delicadeza do gesto.

 

— Obrigada. Você foi muito gentil.

 

— Eu que agradeço — respondeu o rapaz, com um aceno discreto.

 

Ao sair da adega, Niele olhou o carrinho: frutas, verduras, duas postas de salmão, um vinho branco e outro tinto. Pequenas escolhas que, de algum modo, pareciam restituir-lhe o sentido da vida.

 

No vidro da vitrine, viu o reflexo de si mesma — serena, talvez um pouco mais viva.

 

E, pela primeira vez em semanas, sorriu sem esforço.

 

 

***

 

De volta para casa, Niele guardou as compras em silêncio. A cozinha parecia mais ampla do que lembrava, como se o simples gesto de abrir o armário e dispor os alimentos trouxesse uma nova ordem às coisas.

 

Abriu a janela. O ar da tarde entrou morno e perfumado. Ligou o som: no rádio tocava um samba que traduzia o que ela vivia naquele momento. O refrão dizia:

 

Agora vou viver, vou me valorizar,

Deixar pra trás quem não soube me amar.

Chega de mentiras, vou me libertar,

O meu sorriso ninguém vai apagar.

 

 

Sob o som de Agora Vou Viver, ela vestiu o avental e começou o preparo do jantar.

 

Lavou cuidadosamente as postas de salmão, temperou com sal, limão e um fio de azeite. Deixou-as repousar por alguns minutos, enquanto picava folhas verdes e tomates-cereja para a salada.

 

Na frigideira quente, o chiado do peixe ecoou pela cozinha, espalhando um aroma delicado. Era um som doméstico, mas havia nele algo de aconchegante, quase íntimo — como se cada estalo do azeite dissesse: você está aqui, agora.

 

Quando o salmão ficou no ponto, dourado por fora e macio por dentro, ela desligou o fogo e respirou fundo. Olhou o relógio — ainda era cedo. E, pela primeira vez em muito tempo, não havia pressa alguma.

 

Somente então arrumou a mesa.

 

Estendeu uma toalha branca, simples, mas limpa. Colocou um único prato, um copo de cristal, talheres alinhados, o guardanapo dobrado com capricho. Por fim, acendeu uma vela pequena — daquelas guardadas “para ocasiões especiais”.

 

O brilho amarelado da chama trouxe um toque de vida à mesa.

 

Serviu o salmão no prato, a salada ao lado, e despejou lentamente o vinho branco na taça. Observou o líquido cintilar sob a luz da vela. Era bonito — e, de certa forma, solene.

 

Sentou-se. Por um instante, ficou apenas olhando aquele cenário: a comida, a taça, a luz suave tremulando.

 

E então, num gesto leve e sincero, levantou o copo e murmurou para si mesma:

 

— Niele, você merece esse carinho.

 

O vinho tocou-lhe os lábios como um brinde silencioso à própria existência.

 

Comeu devagar, saboreando o salmão e o frescor da salada. Cada garfada parecia um gesto de reconciliação — com o tempo, com o corpo, com a vida.

 

Quando terminou, deixou a taça pela metade, recostou-se na cadeira e observou a chama vacilante da vela.

 

Ali, naquele pequeno jantar para uma só, havia mais do que solidão: havia paz.

 

E Niele, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se inteira.

 

 

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Se você ainda não leu o capito 6 da série de contos NO DIVÃ. Não deixem de conferir, corra lá e leia, para que você possa acompanhar o raciocínio do autor!

 

Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.

 

Venham comigo nessa jornada — a leitura já está disponível!

 

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 17/10/2025
Alterado em 17/10/2025
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