Na cela da delegacia, Agnaldo permanecia encolhido num canto, feito cão sarnento. Dividia o espaço com mais quatro contraventores — todos à espera da decisão da Justiça. Seu caso ainda não havia sido apresentado. Já passava das quatro da tarde.
Sentado no chão frio, o olhar perdido entre as grades, Agnaldo sobressaltou-se quando um agente apareceu na porta da cela.
— Quem de vocês é o Agnaldo? — perguntou o policial.
— Sou eu — respondeu ele, levantando-se com esforço.
Passara quase todo o tempo naquele mesmo canto, temendo as provocações dos outros prisioneiros.
— Venha comigo — disse o agente. — Seu advogado o espera.
Agnaldo ficou confuso, mas estendeu as mãos para que o agente colocasse as algemas. Em silêncio, seguiu-o pelo corredor.
Conduzido a uma pequena sala, de cheiro misto de mofo e lustra-móveis, encontrou sentado diante de uma mesa de mogno um homem loiro, cabelos longos até os ombros, com expressão calma.
— Sente-se, senhor Agnaldo — indicou o homem. — Sou o doutor Eduardo. Fui contratado por sua mãe. Estive analisando o seu caso. As coisas não estão boas para o seu lado, mas há atenuantes: o senhor é réu primário, tem emprego fixo... isso ajuda. Vou fazer o possível para que o senhor saia daqui hoje. Mas preciso que saiba — essa medida protetiva não pode ser violada em hipótese alguma.
Agnaldo franziu o cenho, a voz embargada pela raiva:
— Aquela vaca... ela vai me pagar...
— Não, não, não, senhor Agnaldo! — interrompeu o advogado, levantando-se. — Sua mãe foi clara: pediu para tirá-lo da cadeia, mas também para dizer que você deve deixar sua esposa, Niele, em paz. Entendeu?
Agnaldo baixou a cabeça, resmungando:
— Tá... tá bom, ex-esposa... Em breve, ela pediu o divórcio.
— Seja como for, sua mãe foi clara: se quer sair daqui, esqueça essa ideia de persegui-la. Deixe-a em paz ou ficará preso.
Agnaldo levantou as mãos em rendição.
***
O portão da delegacia rangeu ao abrir. Agnaldo saiu com a camisa amassada, seguido pelo agente. O doutor Eduardo acompanhou-os até o Nissan prata onde dona Lurdes aguardava. O agente retirou-lhe as algemas; o advogado disse, num tom contido:
— Faça o que é certo, senhor Agnaldo. Sua mãe moveu céus e terra para tirá-lo daqui.
Agnaldo assentiu sem olhar e entrou no carro. Dona Lurdes, de óculos escuros e coque firme, manteve-se em silêncio enquanto o veículo percorria as ruas da Mooca. Desligou o rádio com um gesto seco.
— Espero que tenha entendido — disse ela, sem tirar os olhos da pista.
— Entendi que fui feito de trouxa. Aquela mulher me destruiu. — Agnaldo murmurou, a voz rouca.
— Aquela mulher — corrigiu Lurdes, virando o rosto com calma — é sua esposa. E, se diz isso, é porque não aprendeu nada.
Ele bufou e encostou a cabeça no vidro.
— A senhora sempre defendeu a Niele, né?
— Defendo o que é justo, Agnaldo. — Ela suspirou. — Niele sempre foi boa nora: trabalhadora, calada, obediente. Você é que não soube valorizar.
O tom sereno dela cortou mais fundo que um grito.
— Obediente demais — continuou Lurdes. — Talvez, se ela tivesse reagido antes, nada disso teria acontecido.
Agnaldo explodiu:
— Tá me chamando de covarde?
Ela estacionou bruscamente diante da casa, encarou-o:
— Perdeu o controle, Agnaldo. Machucou uma mulher que só te quis bem. Se não mudar, vai acabar sozinho.
Ele a fitou, furioso, e entrou em casa batendo o portão. Lurdes o seguiu com calma, tirou a bolsa do banco e trancou o carro.
No sofá, ele se jogou, tenso.
— A senhora devia estar do meu lado, mãe...
— Eu tô do seu lado, meu filho — disse ela, pousando a bolsa. — Mas ser mãe não é passar a mão na cabeça quando o filho está errado. Eu te tirei da cadeia. Agora vê se me escuta: você não vai procurar a Niele. A medida protetiva é clara. Se você quebrar, da próxima vez nem advogado vai te tirar da cadeia .
Agnaldo apertou os punhos, olhos vazios.
— Ela vai se arrepender, disse ele.
Lurdes virou-se, fria: — Cuidado, Agnaldo. Arrependimento às vezes chega tarde demais.
Do lado de fora, um trem passou, o som do atrito das rodas sobre os trilhos, ecoando entre os prédios da Mooca.
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Não deixem de conferir o capítulo 5 da série de contos NO DIVÃ!
Está sendo uma aventura incrível dar vida a essa história, e eu espero de coração que vocês se encantem tanto quanto eu estou me encantando ao escrevê-la.
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