FelipeFFalcão

Contos versos e poesias

Textos


Niele despertou às seis da manhã. O sol ainda se insinuava pelas frestas da cortina, e a casa guardava um silêncio acolhedor. Dois dias de folga a esperavam — um pequeno respiro depois de semanas exaustivas.

 

Levantou-se sem preguiça, foi ao banheiro e deixou que a água fria lhe despertasse por completo. Vestiu as roupas de corrida, amarrou os tênis com firmeza e seguiu para a cozinha. Lá, Pingo, seu inseparável companheiro, a observava com os olhos semicerrados de sono. Niele afagou-lhe a cabeça, colocou ração no potinho, trocou a água e sorriu diante do miado satisfeito do felino.

 

Antes de sair, respirou fundo. O ar da manhã tinha um frescor diferente, quase simbólico. Ao cruzar a porta, sentiu-se leve — talvez mais leve do que em qualquer outro momento recente. Livre.

 

Colocou os fones de ouvido e abriu sua playlist favorita no Spotify. A primeira música era “Garota Selvagem”, um vibrante country rock. O refrão dizia:

 

Yeah, yeah, garota selvagem,

Teu beijo tem gosto de liberdade,

Tua pele é sol, teu corpo é mar,

E eu já não sei como escapar...

Yeah, yeah, garota selvagem,

Teu perfume é trilha na viagem,

Entre o amor e a perdição,

Você é chama no meu coração.

 

Niele caminhava no ritmo da canção, sentindo o corpo despertar junto com o dia. Ao chegar à pista, alongou-se, depois começou a trotar suavemente. Na segunda volta, aumentou o ritmo e se deixou levar pelo embalo da música. Correu sete quilômetros, o suficiente para sentir o suor escorrer e o coração pulsar forte, como se quisesse lembrar-lhe de que estava viva.

 

Ao final, comprou uma garrafa d’água e voltou para casa. Tomou um banho demorado, daqueles que lavam corpo e alma. Em seguida, vestiu um vestidinho leve e foi para a cozinha. Preparou um suco de beterraba com laranja e gengibre, e uma crepioca de banana com aveia.

 

Depois, deitou-se no sofá e ligou a televisão. Deixou os programas matinais da Globo preencherem o ambiente com vozes familiares. Pingo se aproximou curioso, olhando-a deitada — uma cena incomum para ele. Aproximou-se com cautela, esticando uma das patinhas sobre o ventre da dona.

 

— Que foi, meu Pinguinho? Está estranhando? Quer se juntar a mim? Vem, pode subir — disse Niele, sorrindo.

 

O gato pareceu compreender. Subiu devagar, acomodando-se sobre a barriga dela, amassando o tecido do vestido e ajeitando-se até encontrar a posição perfeita. Ficaram assim, em uma manhã preguiçosa e silenciosa, embalados pelo sossego dos dias raros de descanso.

 

Por volta das onze, Niele levantou-se, preparou uma refeição leve e comeu tranquilamente. Depois, arrumou-se para sair — tinha sessão com o psicólogo às duas da tarde.

 

***

 

Niele chegou ao consultório quinze minutos adiantada. Sentou-se na recepção, pegou uma revista na mesinha de canto e começou a folheá-la até encontrar um assunto que lhe despertasse interesse. Por fim, foi chamada à sala do doutor Froid.

 

— Boa tarde, Niele — disse o Dr. Froid, todo cortês. — Como você está hoje?

 

— Boa tarde, doutor. Estou muito bem... Diria que, numa escala de zero a cem, estou em cento e dois por cento.

 

— Isso é ótimo. A que se deve essa positividade tão elevada?

 

— Tomei coragem depois da nossa última sessão e entrei com o pedido de divórcio anteontem... Não foi fácil. O Agnaldo não aceitou muito bem, foi ao meu trabalho ontem, me ameaçou, mas acabou sendo preso.

 

— Vejo que você deu uma guinada de cento e oitenta graus.

 

— Doutor, confesso que até eu mesma estou surpresa... Mas a morte da minha mãe me fez ver a vida por outra perspectiva. A vida é curta demais para ficarmos presas a relacionamentos tóxicos, que só nos trazem insegurança, que nos sufocam.

 

— Bem, Niele, a vida é feita de escolhas... Todos nós, cedo ou tarde, temos de estirpar pequenas farpas — sejam elas subcutâneas ou mais profundas em nossa carne. Quanto às feridas, talvez deixem cicatrizes que por muito tempo serão visíveis; outras, apenas uma sensibilidade mais latente. Mas, como diz a canção de Nelson Ned, “tudo passa, tudo passará”. - Me fale mais de você... Como tem se sentido em relação à morte de sua mãe?

 

Niele respirou fundo antes de responder. O olhar, antes firme, se perdeu por alguns segundos na estante atrás do doutor, onde repousavam livros de capa gasta e pequenas esculturas de bronze.

 

— Eu... ainda estou digerindo tudo — disse, num tom baixo. — Às vezes parece que ela vai ligar, como fazia todas as manhãs, só pra saber se eu dormi bem. Outras vezes, sinto um vazio enorme... como se tivessem arrancado um pedaço de mim.

 

O doutor Froid manteve o silêncio. Apenas assentiu, deixando que o desabafo seguisse seu próprio curso.

 

— Ela sempre foi minha base, sabe? — continuou Niele. — Mesmo quando não concordávamos, era ela quem me fazia lembrar de quem eu sou. Agora, com tudo isso do divórcio, sinto falta da voz dela dizendo que vai ficar tudo bem...

 

— A ausência de quem amamos costuma abrir espaço para que outras partes de nós falem — disse o doutor, com suavidade. — Às vezes, é nesse silêncio que descobrimos a força que herdamos deles.

 

Niele sorriu de leve, enxugando uma lágrima discreta.

 

— Talvez o senhor tenha razão... Tenho pensado muito nas coisas que ela dizia. “Nada floresce em solo seco”, ela repetia. Acho que por muito tempo eu tentei florescer num terreno infértil...

 

— E agora está regando o seu próprio jardim — completou o doutor. — Isso é um bom começo.

 

O relógio da parede marcou o fim da sessão. Niele se levantou mais leve, como se cada palavra tivesse lhe tirado um peso invisível dos ombros.

 

— Obrigada, doutor. Acho que hoje foi a primeira vez em muito tempo que falei de mim sem medo.

 

— E foi um grande passo, Niele — disse ele, com um sorriso sereno. — Continue caminhando. A liberdade também precisa ser aprendida.

 

Ela sorriu, agradeceu novamente e saiu do consultório com o coração calmo, como se um novo ciclo, finalmente, começasse a se abrir diante dela.

 

 

 

Felipe Felix Falcão
Enviado por Felipe Felix Falcão em 12/10/2025
Alterado em 13/10/2025
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